domingo, 27 de junho de 2010

UMA FESTA DE AMIGOS



Como estava previsto, teve lugar no Mercado Bar, na sexta-feira passada, o lançamento do meu Dicionário dos Fafenses, edição do Núcleo de Artes e Letras de Fafe, no âmbito das comemorações do seu 20º aniversário. Foi uma festa bonita, com a presença de largas dezenas de pessoas, que lotaram por completo aquele belo recinto. O lugar inconvencional adaptou-se à preocupação de fazer do evento um espaço de convívio e de amizade entre os participantes, o que foi conseguido, segundo creio.
Para lá do conteúdo do livro, que compete aos interessados desbravar e comentar (se bem que em Fafe ninguém comente livros de ninguém, e quem diz livros diz exposições, ou outras manifestações culturais, por mais brilhantes, sedutoras ou importantes que sejam. Em Fafe, fala-se de cultura apenas para dizer mal, é o que é...), gostaria, nesta oportunidade de deixar alguns agradecimentos, o que tive oportunidade de fazer no Mercado Bar, e aqui reitero.
Em primeiro lugar, a presença de todos os amigos maravilhosos que me deram o prazer de me acompanhar nesta jornada de louvor às gentes de Fafe. Uns que vieram de mais perto; outros que se deslocaram de mais longe (do Porto, da Póvoa de Varzim, da Póvoa de Lanhoso, de Braga...) para este convívio de fafenses em torno de um livro que é de todos eles e de todos os leitores.
Gratidão extensiva aos grandes amigos de há anos que me honraram com a sua presença e as suas palavras mais ditadas pela amizade que pela justiça: o jovem investigador Dr. Daniel Bastos, de grande futuro na historiografia local, que dissertou magistralmente sobre a obra; o caríssimo Dr. Ribeiro Cardoso, grande e estreito amigo de longa data, presidente da AG do NALF, que teve o desplante de me propor como sócio honorário do Núcleo que ajudei a fundar há duas décadas atrás; o professor Carlos Afonso, a grande revelação literária dos últimos anos, nesta cidade, camilianista indefectível, membro da direcção do NALF, que não se poupou nas palavras de afecto; António de Almeida Mattos, o grande literato fafense radicado no Porto e o Dr. Pompeu Martins, que conheço desde menino e moço, meu amigo e confrade muito antes de ser Vereador da Cultura e Desporto.
Um agradecimento ainda aos meus amigos do Núcleo de Artes e Letras, que apoiaram esta iniciativa e a todos os que colaboraram activamente para que esta obra visse a luz do dia. Também ao criativo artista Carlos Santana, pela capa. E ao pintor e escritor Luís Gonzaga, de quem me apropriei de imagens suas de fafenses nascidos no século XIX (ele não se opõe).
E naturalmente ao artista gráfico Manuel Carneiro, pelo excelente e qualificado trabalho que põe em cada obra que sai da sua casa de Amarante, a Gráfica do Norte. Muito obrigado pela sua competência e pelo seu talento!
E também aos gerentes do Mercado Bar, pela gentileza da sua cedência para esta sessão. E ao senhor Joaquim Lima, grande amigo e empresário fafense de sucesso, que está sempre disponível para apoiar tudo o que mexe no nosso concelho.
E por último, mas não menos importante (o que os ingleses dizem last but not least), uma palavra de eterno agradecimento à minha família mais directa: à minha esposa, Maria Arminda, que me aguenta estoicamente há exactamente trinta anos (quando cheguei a Fafe, vindo de Serafão, em 1980) e aos meus filhos, Mónica Luísa e João Artur, estes há menos tempo, a quem as aventuras da investigação e da escrita naturalmente causam algum desconcerto e seguras ausências (nem que sejam ausências presentes) e só uma grande dose de amor, de compreensão, de carinho e de tolerância permitem mitigar.
O mais foi amizade, carinho, afecto, que só quem esteve lá pôde testemunhar.
Um grande abraço a todos, de eterna gratidão!

quinta-feira, 24 de junho de 2010

DICIONÁRIO DOS FAFENSES (2ª EDIÇÃO) APRESENTADO NO MERCADO BAR


A minha obra Dicionário dos Fafenses, em segunda edição revista e aumentada, vai ser apresentada esta sexta-feira (25 de Junho) à noite (21h30), no Mercado Bar, em Fafe.
A edição é do Núcleo de Artes e Letras de Fafe e integra-se nas comemorações do 20º aniversário dessa associação de artistas e homens de letras do concelho, fundada em 1990.
A obra vai ser apresentada pelo jovem investigador Daniel Bastos, vice-presidente do Núcleo de Artes e Letras de Fafe, prevendo-se ainda breves intervenções de Ribeiro Cardoso, presidente da Assembleia-geral, do escritor Carlos Afonso, membro da direcção e de outras personalidades.
Cerca de nove anos após a primeira edição (2001), é reeditado o Dicionário dos Fafenses, uma obra há muito esgotada e que ocupou o seu espaço meritório, no universo da bibliografia dedicada às gentes deste município.
A nova edição acrescenta mais cerca de quatro dezenas de nomes aos 240 personagens constantes da publicação inicial, o que significa o alargamento do leque dos notáveis locais. A mais antiga referência reporta-se ao genealogista e poeta António de Villas Boas e Sampaio, nascido em Fareja, em 1629 e a mais recente ao nanador Rui Ribeiro nascido em 1982.
Este é um livro dos homens e mulheres que, de uma forma ou outra, legaram ou estão a legar obra ao futuro, na sua terra ou fora dela, cada um na respectiva área de actividade.
A comunidade fafense tem sido alfobre de filhos ilustres que se distinguiram, ou salientam, pela sua acção nos mais diversos domínios da vida social, política, económica, desportiva, religiosa ou cultural. Desde membros de Governo, parlamentares, autarcas prestigiados, bispos, a cientistas, desportistas medalhados, jornalistas insígnes, empresários de diferentes sectores, muitas são as personalidades que se têm salientado no contexto não apenas local, como regional e até nacional.
A obra inclui, assim, os fafenses (naturais ou residentes há anos nesta terra que adoptaram como sua…) que se notabiliza(ra)m nos múltiplos campos de actividade, nele cabendo os políticos e os desportistas, os artistas e os homens de letras, os clérigos e os industriais e comerciantes, os jornalistas e os dirigentes associativos, para referir alguns exemplos, que se destacam na respectiva área.
Como afirmo na introdução, “esta foi a forma encontrada pelos artistas e homens de letras de Fafe, para homenagear esta terra, que há muito merecia, cremos que justamente, o tributo que perenizamos nas páginas que se seguem. Este livro – hino de amor a Fafe e às suas gentes – é de todos os fafenses! …”.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

HÁ 20 ANOS SARAMAGO VEIO A FAFE

José Saramago faleceu no dia 18 de Junho de 2010, em Lanzarote (Espanha), aos 87 anos de idade. Era um escritor polémico, certamente, porque grande; um escritor difícil, porque muito à frente da legibilidade do quotidiano. Um escritor, de todo o mod, com lugar cativo ao lado dos maiores autores portugueses e universais, não sendo por acaso que é o único Nobel português de Literatura. Viajou por vários estilos literários, do conto ao diário, da crónica e do ensaio à poesia, do romance (em que foi maior, bastando lembrar obras como "Memorial do Convento”, “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, “Jangada de Pedra”, "Ensaio sobre a Cegueira", "Todos os nomes", "Ensaio sobre a Lucidez", "As Intermitências da Morte" ou “Caim”,para referir as mais relevamntes) ao teatro. Sendo óbvio que só se é bom quando morto, não deixa de ser verdade que Saramago é um escritor a salvo do esquecimento, como escreveu no JN do dia seguinte o jornalista e poeta José Carlos Vasconcelos.
Poucos já se lembrarão (ou saberão) que José Saramago, ainda antes de nobelizado, esteve em Fafe, na Casa Municipal de Cultura, a convite da autarquia. Foi em 3 de Maio de 1990, há 20 anos exectamente, numa sessão repleta de público, depois de ter estado (com a sua mais que tudo, Pilar) na Adega Popular, a degustar uma precioisa vitela e um verde da região.
O autor de "O Evangelho segundo Jesus Cristo" veio a Fafe no âmbito de uma iniciativa de promoção dos autores portugueses, e que aqui trouxe ainda escritores de renome como Eugénio de Andrade, Manuel Alegre e Agustina Bessa Luís.
Fica assinalado tal facto para a história, bem como uma foto alusiva do amigo Francisco Oliveira Alves.
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terça-feira, 16 de março de 2010

FAFE - DA MEMÓRIA E DOS SONHOS

Fafe é terra benquista de poetas, de artistas e de visionários. De homens e de mulheres de boa e de má fama. Pulsa a sua alma nómada, à conquista de uma identidade tardia. Por aqui estanciaram povos antigos, como os celtas e os romanos. Há quem fale também nos árabes. Seguramente, os lusitanos. Mas não somos todos filhos dessa ecléctica herança avoenga que foi deixando vestígios, materiais ou imateriais, no território que nos coube em sorte, para que nos recordemos que não surgimos de geração espontânea?
Fafe releva como terra de passagem, entre o litoral e o interior. Fronteira. Charneira. Entre o verde que pinta o Minho de vigor e a dureza milenar das fragas transmontanas. Somos o fim ou o princípio? Viagem ou apego ao rincão natal?
Residente, mas também emigrante. Imensamente emigrante, desde imemoráveis eras. A partir de meados do século dezanove, Fafe rumou ao Brasil, ao Rio, ao Pará, à borracha, à árvore das patacas. Quando regressou, exibiu vistosa riqueza nos palacetes, ornados de motivos reproduzidos das Terras de Vera Cruz, dos brilhantes azulejos às típicas clarabóias, passando pelas varandas de ferro forjada ou fundido e pelas imensas janelas por onde entra a luz e saem sinais de opulência. Participou na vida municipal, promoveu o desenvolvimento industrial, envolveu-se em obras filantrópicas, fundou escolas. O emigrante fez-se depois à Europa, a maior parte das vezes a salto, clandestina, perigosamente, para fugir à pobreza e escapar à guerra e à obscuridade salazarista. Andou por franças e araganças. Dormiu em carruagens de comboio e penou em bairros de lata, infectos como o desespero. Mandou francos, em torrentes, mas também marcos, liras e dólares. Comprou courelas nas aldeias, construiu casas, pôs os filhos a estudar e regressou à terra, na retraite.
Viajante, emigrante, mas amante da justiça. Fafe impõe-se no imaginário colectivo como “terra da justiça”, o que significa que “com Fafe ninguém fanfe”. Ninguém zomba desta terra e das suas gentes, que têm no jogo do pau um símbolo maior da sua memória, na vitela e no pão-de-ló os emblemas da gastronomia que as singulariza e na procissão de Nossa Senhora de Antime o momento glorioso e arrebatador de fé anual.
E quem diz justiça, diz liberdade. Fafe afirma-se como terra sagrada onde o combate pela liberdade e pela dignidade humana se travou, sem tréguas, contra um sistema triturador de destinos, de ambições, de desejos. O longo país do medo.
Por aqui passaram enérgicas lutas pelo pão-nosso de cada dia para os trabalhadores e suas famílias, mas também, e sobretudo, pela nobreza, pela honra, pelo carácter, pela integridade. Ou seja, pela democracia que, num radioso dia de Abril, os capitães haviam de fazer florir, já lá vão mais de três décadas. Esse “dia inicial, inteiro e limpo/ onde emergimos da noite e do silêncio/ e livres habitamos a substância do tempo”, no dizer luminoso de Sophia.
Fafe é tempo, história e memória. O Povoado Fortificado de Santo Ovídio, a Igreja Românica de Arões, a Casa da Quintã da Luz, a Central Hidroeléctrica de Santa Rita, a arquitectura brasileira, entre miríades de outros baluartes do património que o homem foi tecendo aos longo dos séculos neste território.
É verdade! Por aqui se refugiou Camilo, em meados de novecentos, deixando páginas que engrandecem o passado colectivo, concordemos ou não com as suas palavras. Quem diria que esta terra está na rota do percurso vital do eterno romancista do “Amor de Perdição”?
E que dizer do Vizela, remansoso rio que aqui nasce, em Gontim, serpenteando o concelho, por entre margens de silêncio e asas, despenhando-se em Queimadela, para correr, tranquilo, as várzeas de Golães e Cepães, abandonando o cristalino das águas pelo colorido das tinturarias?
Mas Fafe é também espaço de modernidade, de evolução para um universo citadino que faz as delícias dos habitantes e de quem nos visita. Andemos pelas ruas, sentemo-nos nos bancos das praças, ouçamos a música ambiente, convivamos na Arcada, respiremos os jardins, desçamos às aldeias, por estradas confortáveis, apreciemos as belíssimas casas que por lá se erguem, com todas as comodidades, saudemos o progresso, indesmentível. E amemos as boas gentes laboriosas, peles crestadas pelo Verão e pelas colheitas, pelo sol divino que engravida o chão de uberdade e fartura.
Do passado e do presente se vai cosendo a doce identidade desta terra, a golpes de suor, trabalho, sacrifício, dedicação, experiência, sabedoria.
Resta a argamassa do futuro, a matéria insondável dos sonhos
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