domingo, 11 de julho de 2010

PROCISSÃO DE Nª Sª DE ANTIME - DOIS POEMAS ALUSIVOS


De entre os imensos textos e poemas que têm sido produzidos sobre as festas maiores do concelho de Fafe em honra de Nossa Senhora de Antime e, designadamente, sobre a imponente e tocante procissão que anualmente atrai milhares de fiéis ao trajecto entre a Igreja Matriz de Antime e a Igreja Nova de S. José de Fafe, escolhemos dois sonetos paradigmáticos, um do falecido Professor Laurentino Alves Monteiro (Ruy Monte), já com mais de quatro décadas e outro do Cónego Valdemar Gonçalves, com escassos anos.
A foto que encima o post (e todos os outros aqui publicados) é do nosso amigo Manuel Meira Correia.
Aqui vão os textos para saborear neste dia maior das Festas do Concelho:

Senhora de Antime
(Passando no seu andor)

Lá vem a Mãe de Deus, com Deus ao colo!
- É bonita não é? Reparem bem.
Onde é que vemos nós olhar de mãe
Que espalhe tanta luz, tanto consolo?

Mas vai triste, não vai? Porque será?
O menino sorri, por entre os dentes:
- Pesamos muito, Mãe, mas são valentes
Verás que nem um arriará.

E aí vão eles, de cravo arrebitado,
Aos saltos, num correr cadenciado,
Que, ao longe, até parece que é dançar…

Quarenta arrobas!... mas valeu o peso,
Que a Senhora vai dar a cada teso
A mais linda moçoila p’ra casar.


Ruy Monte

A procissão

Quando a Senhora vem da sua Igreja,
da paróquia de Antime, com piedade,
é pertença de Fafe, que se veja
como todos lhe queremos de verdade!

Toda a gente, no dia, lhe deseja
depor aos pés a sua intimidade
e confiar um pedido: que Ela seja
a sua Mãe por toda a eternidade!

É a Rainha eleita, a escolhida
a quem se dá o coração e a vida
num cântico de amor e alegria!

Com afinco se pega ao seu andor
e a procissão irrompe num clamor
de Fafe inteiro, filho de Maria!

Valdemar Gonçalves

sexta-feira, 9 de julho de 2010

NOSSA SENHORA DE ANTIME - A ROMARIA DE TODOS OS FAFENSES


A romaria em honra de Nossa Senhora de Antime, também designada da Misericórdia ou do Sol, assume-se como a maior e mais conhecida das festividades locais, coincidindo nos nossos dias com as Grandes Festas do Concelho, no segundo fim de semana de Julho.
Este ano de 2010, têm lugar entre os dias 9 e 11 do mês em curso, com um programa que pode ser visto no sítio da autarquia, entre outros espaços internáuticos.
Estudiosos locais têm ligado a importante festa a um ”culto solar ou ritual de fecundidade”. Nesse sentido, a procissão seria a actualização de um ritual muito antigo praticado pelos rapazes casadoiros, em que o transporte do pesado andor funcionaria como a verdadeira prova pública da virilidade ou masculinidade dos jovens, que teriam nesse acto a legitimação para o futuro casamento.
As origens do culto são certamente remotas, perdendo-se na voragem dos tempos. Com segurança e documentalmente, sabe-se que as festas já se realizavam em 1736, portanto na primeira metade do século XVIII. Onze anos depois, em 1747, respondendo a um inquérito ordenado pelas autoridades nacionais, o pároco de Antime afirmava não saber “qual fosse a origem desta devoção”, o que pressupõe fosse muito antiga, vinda porventura da Idade Média.
A primeira referência à festividade surge em 1736, na memória intitulada Monografia do Concelho de Fafe, do pároco de Santa Eulália de Fafe, João de Sousa Homem. Referindo-se às freguesias que então integravam o concelho de Monte Longo, o pároco escrevia sobre Antime: A Reitoria de Nossa Senhora de Antime ou Senhora do Sol ou da Misericórdia porque com ela obra muitos milagres dando Sol ou chuva nas faltas destes. Festeja-se esta Senhora nos segundos domingos de Julho e daí vem em procissão a esta freguesia distante um quarto de légua sendo das procissões mais solenes e populosas desta Província. É a imagem desta Senhora de pedra fina: faz peso de dezasseis arrobas a quem a traz.
Onze anos depois, o pároco de Antime, escrevia: Na segunda dominga de Julho se faz procissão com esta Senhora (da Misericórdia), e vai a Santa Eulália Antiga de Fafe, e concorre a ela muita gente dos lugares circunvizinhos, e não se sabe qual fosse a origem desta devoção .
Já no século XIX, aparecem-nos sensivelmente as mesmas referências à romaria de Nossa senhora de Antime, nas Memórias do Cárcere (1862), de Camilo Castelo Branco e no Dicionário Corográfico, de Pinho Leal (1874). Escreve Camilo, como testemunho da sua passagem por esta terra em 1860, quando se encontrava fugido à Justiça: A Senhora de Antime é de pedra, e pesa com a charola vinte e quatro arrobas. Os mais possantes moços da freguesia pegam ao banzo do andor. (...) Tirem disto a limpeza de consciência e religiosidade daqueles sujeitos, que ali vão dar testemunho de seu fervor, com a Senhora de pedra aos ombros.
Já no século XX, o jornalista e professor Paulino da Cunha afirmava no Almanaque de Fafe (1909) que a festa da Senhora d’Antime é a festa de Fafe por excellencia. Nesse dia, todas as famílias, não excluindo as menos abastadas, vestem um fato novo e comem o anho da praxe. O anho assado é, com efeito, a iguaria tradicional das Festas do Concelho, enquanto a vitela assada é o prato mais servido nas Feiras Francas de Maio. A acompanhar, o vinho verde da região e o delicioso pão-de-ló e cavacas de Fornelos e de Arões.
E O Desforço de 18 de Julho de 1918 informa que a procissão da senhora de Antime se vinha realizando há uns 600 anos. Verdade?
Associada ao culto, como sempre acontece, está uma conhecida lenda. Conta a tradição que uma imagem da Virgem teria aparecido no Monte de S. Jorge, em local disputado pelas duas freguesias limítrofes, Fafe e Antime. Após longa animosidade, as populações das duas localidades chegaram a um acordo: a imagem de Nossa Senhora de Antime ficaria todo o ano na Igreja de Antime mas, no dia da sua festa, os homens de Antime viriam trazê-la ao limite da paróquia, ao romper da alva. Aí, os de Fafe a levariam para a sua Vila, onde a festejariam até ao pôr-do-sol, altura em que a pesadíssima imagem voltaria à sua residência habitual.
Todos os anos, no segundo domingo de Julho, o ritual se repete. O ritual da fé imensa, da devoção incontida, da emoção que toma os corações de milhares e milhares de romeiros que serpenteiam as estradas e ruas de Antime para Fafe, sob a inclemência do sol escaldante. Muitos vão cumprir promessas feitas em momentos de desespero e de perdição, esgotados outros meios humanos ou científicos, normalmente relacionados com doenças ou “apertos” na vida individual ou familiar. Outros vão ”porque gostam” de ir na procissão, por fé e sentido de espiritualidade.
Ao princípio da manhã, é celebrada missa em honra de Nossa Senhora da Misericórdia, na Igreja Paroquial de Antime. O povo vai-se juntando, abarrotando o templo, o adro e as cercanias. Os populares vêm de todo o lado, das freguesias circunvizinhas, da cidade, de outros lugares da região e do país.
A procissão, pela sua imponência e sentido de religiosidade, impressiona qualquer pessoa que a ela assista. São milhares de pessoas que descem, muitas delas descalças, algumas com crianças ao colo, a ribanceira de acesso à Ponte de S. José, na fronteira entre as freguesias de Fafe e Antime. Junto à ponte, dá-se um dos momentos mais emocionantes da procissão, que fica na memória de quem a ele tem o privilégio de assistir. É o encontro amistoso da imagem de Nossa Senhora de Antime e da imagem de Nossa Senhora das Dores, vinda de Fafe, com as respectivas “comitivas”. O momento alto acontece quando as imagens ficam frente a frente e fazem uma pequena vénia uma à outra, em sinal de saudação. São os pegadores dianteiros dos andores que fazem uma ligeira genuflexão para que a parte da frente fique a nível mais baixo que a de trás. O momento, de emoção, é saudado com palmas e “vivas” e o estralejar de foguetório, de alegria pela visita de uma imagem extremamente querida às gentes fafenses.
O cumprimento das duas imagens, no limite das freguesias, é a afirmação de um gesto protocolar de recepção e boas-vindas por parte de Fafe à sua convidada de Antime. A partir daí a Senhora é de Fafe. Ainda que por algumas horas.
A procissão prossegue, entremeada de cânticos e rezas, com o calor cada vez mais forte, o sol cada vez mais escaldante. Perto do meio-dia, chega à Câmara Municipal, onde se regista o segundo grande momento do seu percurso. A imagem posta-se diante dos Paços do Concelho, para saudação às autoridades municipais. Das varandas do edifício, onde se encontra a vereação, chovem pétalas multicolores, enquanto centenas de pombas são soltas pelos columbófilos locais e no ar estrondeiam dúzias de foguetes. Milhares de pessoas concentram-se na Avenida 5 de Outubro e nas cercanias, tornando o momento, inesquecível, de grande tensão emotiva...e festiva.
A procissão continua o seu rumo, passando pela Igreja Matriz e terminando ao princípio da tarde na Igreja Nova de S. José. A Senhora permanece naquele templo até cerca das 18 horas, altura em que, com menos pompa e acompanhamento, regressa a Antime, por um percurso ligeiramente diferente, passando pelo Lombo, onde se realiza uma breve cerimónia religiosa.
Ao final da tarde, cumpridas as promessas, regressa a imagem de Nossa Senhora de Antime ao seu lugar de todo o ano.
No restante dos dias de festa, avulta o habitual programa profano e até pagão. As típicas chancelas das romarias minhotas, com o seu colorido folclore, os seus variados espectáculos musicais, as suas abastadas sessões de fogo de artifício, a habitual serenata, as imperdíveis bandas filarmónicas, que tornam popular a música mais erudita, a sacrossanta marcha luminosa, que arrasta ao centro da cidade incontáveis milhares de curiosos. E também o ruído ensurdecedor dos carrosséis e dos carrinhos de choque, para miúdos e graúdos, e a parafernália das tendas onde se vende de tudo e se perde a alma.
As festas de Antime, da Misericórdia ou do Sol aí estão, mais um ano, para cumprir mais um ciclo de fertilidade, de folguedo, de diversão. Aproveitemo-las da melhor maneira, como espaço mítico de lazer e de descanso, entre as actividades diárias de uma semana que termina e de uma outra que espreita, ansiosamente.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

MAMA MIA, QUE ESPECTÁCULO!...




No passado fim de semana, os fafenses tiveram o privilégio de assistir (os que assistiram...) a uma excelente manifestação cultural, digna das melhores salas de espectáculos deste país.
Em Fafe, é de bom tom desdenhar-se do que se faz na área da cultura. Seja por quem não põe os pés na mais ínfima das manifestações culturais, não assistindo a um espectáculo, à abertura de uma exposição, ao lançamento de um livro, ao que quer que seja que ultrapasse as fronteiras do comodismo e da sagrada cultura de café; seja por quem faz gala no exercício espúrio de maldizer, por qualquer meio, ou por supor que Fafe tem de ter a programação cultural do Porto, de Braga ou de Guimarães, quando não possui um décimo dos respectivos meios financeiros.
Pois, entre sexta à noite e domingo à tarde, o Teatro-Cinema foi palco de um evento de altíssimo gabarito, promovido pela Academia de Música José Atalaya e com encenação da professora Carla Lopes. Referimo-nos ao musical Mama Mia, em quatro sessões, que lotaram completamente a sala e trouxeram a Fafe diversos e excelentes artistas do teatro e da música, como Ana Queirós, Rui Andrade (da telenovela “Morangos com Açúcar”), Carlos Meireles, Eurico Santos, Nuno Martins, Patrícia Franco, Nani Rios e Liliana Moreira. Pelo meio, foram movimentados dezenas de jovens e crianças da Academia, que ensaiaram arduamente durante duas semanas para demonstrarem em palco o seu enorme potencial artístico. Que belíssimo espectáculo foi proporcionado ao público fafense.
Parabéns à Academia de Música José Atalaya, por este enorme êxito e em especial ao seu timoneiro, professor José Manuel Machado.

domingo, 4 de julho de 2010

CONHECER JOSÉ CARDOSO VIEIRA DE CASTRO


José Cardoso Vieira de Castro é uma das personalidades mais controversas, paradoxais e românticas do imaginário fafense, que importa aqui divulgar. Para que a comunidade a possa conhecer. Porque só se pode amar aquilo que se conhece.
Tido pelos seus contemporâneos como “mártir da loucura da honra” (Jaime Moniz), “temperamento violento, índole apaixonada, alma nobre, esplêndido talento, coração afectuoso, sempre aberta a mão da caridade…” (Vitorino da Mota) e “carácter inquieto e febril” (Júlio César Machado), Vieira de Castro é valorizado pelos seus estudiosos contemporâneos, como Alexandre Cabral, entre outras facetas, na sua fulgurante inteligência e notáveis dotes oratórios. O maior camilianista do século XX, falecido há alguns anos, ressalva ainda que o temperamento exaltadamente combativo, ao mesmo tempo que generoso, criou para seu uso uma concepção de honra e justiça de índole assaz contraditória, na qual é fácil descortinar os típicos revérberos da ideologia romântica.
Também o fafense Álvaro Fernando Moniz Rebelo, autor da excelente obra JC Vieira de Castro (1995), em curso de reedição, resume que foi uma existência muito breve, mas intensamente vivida. Se me é permitido o paradoxo, dir-se-ia que Vieira de Castro vivendo pouco, viveu muito (…) Vieira de Castro ou era rodeado de amor ou de ódio.
Estas são algumas das mais judiciosas considerações sobre José Cardoso, que nasceu em 2 de Janeiro de 1838, no Porto, filho do desembargador fafense Luís Lopes Vieira de Castro, da Casa do Ermo, em Paços. Foi ele que lhe deu a alma fafense e que o religou à nossa memória.
Teve uma infância mimada e tranquila, passada entre o Colégio de Nª Sª da Lapa, no Porto, onde foi educado, e o ambiente aldeão do Ermo, casa de seu pai.
Aos 15 anos traduziu a obra Solidão, de Zimmermann, de que mais tarde se viria a arrepender e matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, onde se meteu em grossas alhadas. Em 1857, com 19 anos de idade e quartanista de Direito, meteu-se no célebre “Incidente Barjona de Freitas”, acabando excluído da Universidade por dois anos. Porém, não perdeu o seu tempo e acabou por ficar na história porque, exactamente nesse período de “férias forçadas”, conheceu Camilo Castelo Branco na Hospedaria “Estrela do Norte”, no Porto. Camilo tornar-se-ia o seu maior amigo e confidente, pela vida fora, apesar da sua diferença de idades (13 anos superior no autor de O Amor de Perdição).
Em 1859, regressou à Universidade, voltou a meter-se em sarilhos, desta feita na famosa “questão do traje” e foi riscado “perpetuamente” da Universidade (pena que não seria executada).
Em 1860, tinha José Cardoso 22 anos, refugiou-se no Ermo, aí acolhendo o seu amigo Camilo Castelo Branco, na altura em que se encontrava a monte, fugido à justiça, acusado do crime de adultério na pessoa da sua amada Ana Plácido. Dessa experiência, gloriosa para todos nós, fala nas páginas das Memórias do Cárcere, nos seguintes termos:

Fui de Santo António das Taipas para as cercanias de Fafe, quinta do Ermo, onde me esperava, com os braços abertos e o coração no sorriso, José Cardoso Vieira de Castro. Falseei a verdade. Vieira de Castro esperava-me a dormir, naquela madrugada dele, que era meio-dia no meu relógio.
A quinta do Ermo está situada no ponto mais despoético e triste do mapa-múndi. A casa é magnífica: mas os caminhos que a ela vos conduzem são algares, barrocais, trilho de cabras, vielas tortuosas, e aspérrimos desfiladeiros
.

Aí se fala também das festas de Antime, do convívio de Camilo com os cavalheiros mais poderosos da Vila, do jogo do pau, de que os Vieiras de Castro eram denodados praticantes (excepto, José Cardoso…) e das oito linhas que o (fraco) poeta escreveu na Ponte do Barroco, no dia 15 de Junho de 1860. Diziam assim:

Ruge a tormenta espumosa.
Mas no mar serena entrou;
Tal a vida tormentosa:
Chega à campa, e serenou.

Triste imagem desta vida.
Que me Deus fadou a mim!
Diz-me, ó onda enfurecida,
Qual teu principio e teu fim?

José Cardoso Vieira de Castro, aos 23 anos (1861), publicou a obra Camilo Castelo Branco: Notícia da sua Vida e Obras, considerada por muitos como a legitimação ou desculpabilização do adultério de Camilo.
Em 1861-62, desempenhou o cargo de Vereador e Vice-Presidente da Câmara de Fafe e no ano seguinte regressou à Universidade de Coimbra, para concluir a seu curso de Direito, dez anos depois de o ter começado.
Em 1865/66, cumpriu o seu mandato como deputado às Cortes pelo círculo de Fafe, tendo produzido mais de uma dezena de discursos que marcaram a contemporaneidade. Rodrigues Sampaio proclamou, na altura: Nem a tribuna antiga, nem a moderna nos deram melhores modelos de eloquência.
Em 1866, publicou os seus Discursos Parlamentares e partiu para o Brasil com 10 mil exemplares daquela obra, que projectava vender, para desipotecar a sua Casa do Ermo. Acusavam alguns que o que ele pretendia mesmo era ajustar casamento com uma jovem rica, o que veio a acontecer.
Em 1867, com 29 anos, pronuncia no Rio de Janeiro o célebre Discurso sobre a Caridade e casa com a jovem Claudina Adelaide Guimarães, de apenas 15 anos, filha do riquíssimo capitalista Comendador António Gonçalves Guimarães, emigrante fafense, natural de S. Clemente de Silvares, importante livreiro e director do Banco do Brasil e do Banco Rural e Hipotecário.
Dois anos depois, fixa residência em Lisboa, na célebre Rua das Flores, 109.
Em 7 de Maio de 1870, tinha 32 anos e três de matrimónio, surpreende a esposa a escrever uma pretensa carta de amor a José Maria de Almeida Garrett, sobrinho do escritor das Viagens na Minha Terra.
Dois dias depois, ruído pelos ciúmes e atormentado pela loucura da honra, José Cardoso assassina a esposa Claudina, por sufocação com a roupa da cama, depois de a ter tentado matar fazendo-a ingerir grande quantidade de clorofórmio.
Preso, foi julgado e condenado a 10 anos de degredo em Angola, pena posteriormente agravada para 15 anos.
Em 5 de Setembro de 1871, com 33 anos, partiu de Lisboa para cumprir a pena. Pouco mais de um ano depois, em 5 de Outubro de 1872, com apenas 34 anos de idade, o infeliz e desgraçado José Cardoso morria em Luanda, às 9 horas da noite, vítima de uma febre perniciosa fulminante, forma gravíssima de paludismo ou de malária.
Ninguém recorda hoje o tribuno excelente, o político ambicioso e inteligente, o eloquente orador, o autor de Uma Página da Universidade (Porto, 1858), Discursos Parlamentares (Lisboa, 1866), A República (Porto, 1868), Colónias (Porto, 1871), ou Correspondência Epistolar entre José Cardoso Vieira de Castro e Camilo Castelo Branco, entre outras importantes obras, mas toda a gente aponta o Vieira de Castro que estrangulou a mulher e figura na Galeria dos Criminosos Célebres, como alguns pretendem. O que não deixa de ser gravosa injustiça!
José Cardoso Vieira der Castro está consagrado, justamente, na toponímia fafense há mais de um século!

domingo, 27 de junho de 2010

UMA FESTA DE AMIGOS



Como estava previsto, teve lugar no Mercado Bar, na sexta-feira passada, o lançamento do meu Dicionário dos Fafenses, edição do Núcleo de Artes e Letras de Fafe, no âmbito das comemorações do seu 20º aniversário. Foi uma festa bonita, com a presença de largas dezenas de pessoas, que lotaram por completo aquele belo recinto. O lugar inconvencional adaptou-se à preocupação de fazer do evento um espaço de convívio e de amizade entre os participantes, o que foi conseguido, segundo creio.
Para lá do conteúdo do livro, que compete aos interessados desbravar e comentar (se bem que em Fafe ninguém comente livros de ninguém, e quem diz livros diz exposições, ou outras manifestações culturais, por mais brilhantes, sedutoras ou importantes que sejam. Em Fafe, fala-se de cultura apenas para dizer mal, é o que é...), gostaria, nesta oportunidade de deixar alguns agradecimentos, o que tive oportunidade de fazer no Mercado Bar, e aqui reitero.
Em primeiro lugar, a presença de todos os amigos maravilhosos que me deram o prazer de me acompanhar nesta jornada de louvor às gentes de Fafe. Uns que vieram de mais perto; outros que se deslocaram de mais longe (do Porto, da Póvoa de Varzim, da Póvoa de Lanhoso, de Braga...) para este convívio de fafenses em torno de um livro que é de todos eles e de todos os leitores.
Gratidão extensiva aos grandes amigos de há anos que me honraram com a sua presença e as suas palavras mais ditadas pela amizade que pela justiça: o jovem investigador Dr. Daniel Bastos, de grande futuro na historiografia local, que dissertou magistralmente sobre a obra; o caríssimo Dr. Ribeiro Cardoso, grande e estreito amigo de longa data, presidente da AG do NALF, que teve o desplante de me propor como sócio honorário do Núcleo que ajudei a fundar há duas décadas atrás; o professor Carlos Afonso, a grande revelação literária dos últimos anos, nesta cidade, camilianista indefectível, membro da direcção do NALF, que não se poupou nas palavras de afecto; António de Almeida Mattos, o grande literato fafense radicado no Porto e o Dr. Pompeu Martins, que conheço desde menino e moço, meu amigo e confrade muito antes de ser Vereador da Cultura e Desporto.
Um agradecimento ainda aos meus amigos do Núcleo de Artes e Letras, que apoiaram esta iniciativa e a todos os que colaboraram activamente para que esta obra visse a luz do dia. Também ao criativo artista Carlos Santana, pela capa. E ao pintor e escritor Luís Gonzaga, de quem me apropriei de imagens suas de fafenses nascidos no século XIX (ele não se opõe).
E naturalmente ao artista gráfico Manuel Carneiro, pelo excelente e qualificado trabalho que põe em cada obra que sai da sua casa de Amarante, a Gráfica do Norte. Muito obrigado pela sua competência e pelo seu talento!
E também aos gerentes do Mercado Bar, pela gentileza da sua cedência para esta sessão. E ao senhor Joaquim Lima, grande amigo e empresário fafense de sucesso, que está sempre disponível para apoiar tudo o que mexe no nosso concelho.
E por último, mas não menos importante (o que os ingleses dizem last but not least), uma palavra de eterno agradecimento à minha família mais directa: à minha esposa, Maria Arminda, que me aguenta estoicamente há exactamente trinta anos (quando cheguei a Fafe, vindo de Serafão, em 1980) e aos meus filhos, Mónica Luísa e João Artur, estes há menos tempo, a quem as aventuras da investigação e da escrita naturalmente causam algum desconcerto e seguras ausências (nem que sejam ausências presentes) e só uma grande dose de amor, de compreensão, de carinho e de tolerância permitem mitigar.
O mais foi amizade, carinho, afecto, que só quem esteve lá pôde testemunhar.
Um grande abraço a todos, de eterna gratidão!

quinta-feira, 24 de junho de 2010

DICIONÁRIO DOS FAFENSES (2ª EDIÇÃO) APRESENTADO NO MERCADO BAR


A minha obra Dicionário dos Fafenses, em segunda edição revista e aumentada, vai ser apresentada esta sexta-feira (25 de Junho) à noite (21h30), no Mercado Bar, em Fafe.
A edição é do Núcleo de Artes e Letras de Fafe e integra-se nas comemorações do 20º aniversário dessa associação de artistas e homens de letras do concelho, fundada em 1990.
A obra vai ser apresentada pelo jovem investigador Daniel Bastos, vice-presidente do Núcleo de Artes e Letras de Fafe, prevendo-se ainda breves intervenções de Ribeiro Cardoso, presidente da Assembleia-geral, do escritor Carlos Afonso, membro da direcção e de outras personalidades.
Cerca de nove anos após a primeira edição (2001), é reeditado o Dicionário dos Fafenses, uma obra há muito esgotada e que ocupou o seu espaço meritório, no universo da bibliografia dedicada às gentes deste município.
A nova edição acrescenta mais cerca de quatro dezenas de nomes aos 240 personagens constantes da publicação inicial, o que significa o alargamento do leque dos notáveis locais. A mais antiga referência reporta-se ao genealogista e poeta António de Villas Boas e Sampaio, nascido em Fareja, em 1629 e a mais recente ao nanador Rui Ribeiro nascido em 1982.
Este é um livro dos homens e mulheres que, de uma forma ou outra, legaram ou estão a legar obra ao futuro, na sua terra ou fora dela, cada um na respectiva área de actividade.
A comunidade fafense tem sido alfobre de filhos ilustres que se distinguiram, ou salientam, pela sua acção nos mais diversos domínios da vida social, política, económica, desportiva, religiosa ou cultural. Desde membros de Governo, parlamentares, autarcas prestigiados, bispos, a cientistas, desportistas medalhados, jornalistas insígnes, empresários de diferentes sectores, muitas são as personalidades que se têm salientado no contexto não apenas local, como regional e até nacional.
A obra inclui, assim, os fafenses (naturais ou residentes há anos nesta terra que adoptaram como sua…) que se notabiliza(ra)m nos múltiplos campos de actividade, nele cabendo os políticos e os desportistas, os artistas e os homens de letras, os clérigos e os industriais e comerciantes, os jornalistas e os dirigentes associativos, para referir alguns exemplos, que se destacam na respectiva área.
Como afirmo na introdução, “esta foi a forma encontrada pelos artistas e homens de letras de Fafe, para homenagear esta terra, que há muito merecia, cremos que justamente, o tributo que perenizamos nas páginas que se seguem. Este livro – hino de amor a Fafe e às suas gentes – é de todos os fafenses! …”.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

HÁ 20 ANOS SARAMAGO VEIO A FAFE

José Saramago faleceu no dia 18 de Junho de 2010, em Lanzarote (Espanha), aos 87 anos de idade. Era um escritor polémico, certamente, porque grande; um escritor difícil, porque muito à frente da legibilidade do quotidiano. Um escritor, de todo o mod, com lugar cativo ao lado dos maiores autores portugueses e universais, não sendo por acaso que é o único Nobel português de Literatura. Viajou por vários estilos literários, do conto ao diário, da crónica e do ensaio à poesia, do romance (em que foi maior, bastando lembrar obras como "Memorial do Convento”, “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, “Jangada de Pedra”, "Ensaio sobre a Cegueira", "Todos os nomes", "Ensaio sobre a Lucidez", "As Intermitências da Morte" ou “Caim”,para referir as mais relevamntes) ao teatro. Sendo óbvio que só se é bom quando morto, não deixa de ser verdade que Saramago é um escritor a salvo do esquecimento, como escreveu no JN do dia seguinte o jornalista e poeta José Carlos Vasconcelos.
Poucos já se lembrarão (ou saberão) que José Saramago, ainda antes de nobelizado, esteve em Fafe, na Casa Municipal de Cultura, a convite da autarquia. Foi em 3 de Maio de 1990, há 20 anos exectamente, numa sessão repleta de público, depois de ter estado (com a sua mais que tudo, Pilar) na Adega Popular, a degustar uma precioisa vitela e um verde da região.
O autor de "O Evangelho segundo Jesus Cristo" veio a Fafe no âmbito de uma iniciativa de promoção dos autores portugueses, e que aqui trouxe ainda escritores de renome como Eugénio de Andrade, Manuel Alegre e Agustina Bessa Luís.
Fica assinalado tal facto para a história, bem como uma foto alusiva do amigo Francisco Oliveira Alves.
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