quarta-feira, 6 de outubro de 2010

REPUBLICANOS: SOMOS TODOS PORTUGUESES

Quando o Partido Popular Monárquico, neste caso de Braga, ocupa uma página de publicidade num jornal diário da capital do Minho, no dia mesmo do Centenário da Proclamação da República, em 5 de Outubro, afirmando “Monarquia: Porque somos portugueses!”, não está apenas a insultar a imensa maioria de cidadãos que trabalha, escolhe e vota instituições e autarquias republicanas, como a demonstrar, inequivocamente, pelo menos, a sua pequenez política e social.
Identificar os portugueses com a monarquia é, hoje por hoje, um abuso. Desde 1910 que o regime não é colocado em causa, nem pelas quixotescas escaramuças do paladino real Paiva Couceiro, em 1911/12 e 1919, nem pelo próprio ditador António de Oliveira Salazar, que se afirmava um “monárquico de coração”.
Mais grave é considerar, como a expressão propagandística insinua, que só os monárquicos são portugueses. Nos últimos 100 anos, uns escassos milhares, como a História regista. E os outros milhões de cidadãos que habitaram e habitam este território: são caucasianos?
Imaginava que a expressão monárquica, residual na sociedade portuguesa, como se sabe, que não consegue eleger um único dos 230 deputados do Parlamento, que não vence uma das 308 Câmaras e duvido que tenha uma Junta de Freguesia nas mais de 4 000 que se espalham pelo país, conseguisse demonstrar inteligência para ultrapassar o atávico complexo de inferioridade que a domina já desde o início do século XX. Verificamos agora que não. Os monárquicos quase não existem, mas insultam, injuriam, enxovalham, numa arrogância indesculpável, como se a sua dimensão tivesse algo a ver com a vontade de se mostrarem vivos.
O que vale é que a República é, pelo contrário, tolerante. É democrática, respeitadora, velando de igual modo pelas diferentes modalidades de expressão e pensamento.
A República instituiu-se historicamente em torno de ideias contrapostas à monarquia vigente desde os alvores da nacionalidade, fazendo prevalecer as da democracia e da soberania popular. Ao contrário da monarquia baseada na hereditariedade do rei e na soberania validada pela origem divina do poder, a República estriba o seu sistema nos princípios electivos, e com a autoridade a emanar directamente do povo, através dos sufrágios eleitorais realizados periodicamente. Por isso é que os políticos têm a obrigação de se assumirem “acima de qualquer suspeita”. A política só é uma actividade nobre se tiver como referência absoluta a ética e a lisura dos procedimentos, que inviabilizam qualquer deriva autoritária ou corrupta.
A República acaba também por reforçar alguns direitos humanos fundamentais, como os da liberdade, ao transformar os velhos súbditos em cidadãos, ou da igualdade que, ao negar os privilégios derivados do nascimento, confere aos cidadãos em geral a possibilidade de ascenderem a qualquer magistratura, o direito a eleger os seus representantes nas instituições democráticas (das juntas de freguesia à chefia do Estado) e a serem eleitos, dentro dos requisitos estabelecidos para cada acto eleitoral.
Além da consagração insofismável da soberania popular e da cidadania individual e colectiva, a República canonizou um outro princípio, que tanta polémica gerou e continua a gerar, neste último século: o da separação da Igreja do Estado. Ao contrário do regime anterior, em que a Igreja dominava a monarquia e no qual o catolicismo era assumido como a religião oficial do Estado, na República o princípio dominante é o da separação clara das esferas politica e religiosa. É o triunfo do laicismo, se se quiser, no sentido em que nem a Igreja manda no Estado, nem o Estado manda na Igreja. Há respeito mútuo, mas não subserviência de qualquer das partes, muito menos promiscuidade.
A luta política desenvolvida pela oposição democrática ao fascismo, brandiu frequentemente os valores da República como fundamento das suas propostas e das suas práticas. Não esqueçamos que, nessa época, os oposicionistas comemoravam o 31 de Janeiro e o 5 de Outubro, como símbolos de uma ideia que queriam ver reimplantada no país. O 25 de Abril veio, enfim, dar um novo impulso purificador aos ideais republicanos, re-actualizando-os. O 25 de Abril acabou por relegitimar o 5 de Outubro.
Hoje, um século passado sobre a proclamação da República, há valores republicanos que se mantêm e reforçam. Por exemplo, o fortalecimento do municipalismo, que foi uma das mais sonhadas utopias saídas do 5 de Outubro. O Portugal dos nossos dias é uma “construção” dos municípios, em áreas fundamentais, desde as infra-estruturas básicas à cultura e ao desporto.
Outro exemplo, é o reforço da participação cívica e politica dos cidadãos e, em especial, a emancipação da mulher e consolidação dos seus direitos (no trabalho, na esfera privada, no domínio público). E também a igualdade de oportunidades entre os sexos e no âmbito social. O sentido do progresso e da evolução, aos diferentes níveis.
Igualmente o é a aposta decidida na Educação, como pressuposto para o desenvolvimento económico e para a libertação social. Lembremos que a 1ª República instituiu a instrução obrigatória de 4 anos (que, depois, regrediu para 3 anos, no consulado salazarista, para quem bastava ensinar as crianças a “saber ler, escrever e contar”…) e hoje se investe politicamente na elevação das qualificações dos portugueses.
Princípios republicanos são também o apego ao sistema democrático, o triunfo da cidadania e do civismo, as atitudes de rigor, lisura, integridade e verticalidade nas relações humanas, o respeito pelos direitos sociais e políticos dos portugueses, a tolerância como sistema de vida, enfim, o combate à corrupção, à fraude e a todos os atropelos à dignidade da “coisa pública”.
Por tudo isto, nos parece que a República continua plenamente actual, um século volvido, nos seus pressupostos, nos seus desígnios, na sua prática inovadora. Uma República que não estigmatiza, que não discrimina, que não exclui. Uma República estribada nos sagrados princípios oitocentistas da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade.
Custa muito aos monárquicos aceitar a realidade?

COMÉDIA DE GIL VICENTE NO TEATRO-CINEMA DE FAFE

Uma boa comédia de Gil Vicente, O Pranto de Maria Parda, é o que promete a Filandorra - Teatro do Nordeste para a noite (21h30) deste sábado, 9 de Outubro, no Teatro-Cinema de Fafe.
O texto de Gil Vicente é acrescentado pelo escritor vila-realense A. M. Pires Cabral.
«No livro quinto da Compilação, «que he das trovas &cousas meudas», vêm as «trovas de Gil Vicente em nome de Maria Parda fazendo pranto porque vio as ruas de Lixboa com tam poucos ramos nas tavernas & o vinho tam caro & ella nam podia viver sem elle».
As trovas de Gil Vicente sobre o pranto de Maria Parda constituem uma composição neste género faceto de cancioneiro. Por forma intensamente cómica, consegue Gil Vicente dar-nos um tipo popular de ébria, certamente muito conhecido nas vielas de Lisboa quinhentista. Estas trovas deveriam ter surgido como a condensação das lamentações dos bebarros, nesse ano funesto de vinte e dois, no qual, como no anterior, «por falta de agoa e polla secura do tempo, foy em toda Espanha excessiva a esterilidade».
Tendo visto vaguear pelo escuro das ruelas a figura desgrenhada e andrajosa de Maria Parda, a farejar nos antros das tabernas as exalações ácidas das pipas vazias, Gil Vicente pretendeu tirar da própria dor popular a gargalha do seu remédio.


Ficha técnica:
Autor: Gil Vicente, texto acrescentado de A. M. Pires Cabral
Dramaturgia, Espaço Cénico e Encenação: David Carvalho
Actores: Anita Pizarro, Bibiana Mota, Helena Vital, Bruno Teixeira e Victor Santos
Guarda-Roupa: Helena Leitão
Direcção Técnica: Carlos Carvalho
Luz e Som: Diogo Medeiros
Produção/Recursos Humanos: Cristina Carvalho
Comunicação/Relações Públicas: Silvina Lopes

sábado, 2 de outubro de 2010

FAFE COMEMORA CENTENÁRIO DA REPÚBLICA

Fafe é uma terra de republicanos e de lutadores pela nobre causa da liberdade. Basta atentar, e para não irmos mais longe, no que foi a luta de centenas de operários, activistas e de intelectuais fafenses nos anos negros do fascismo, de triste memória.
Por isso, ao longo dos anos, ainda muito antes do 25 de Abril de 1974, se evocavam as datas primordiais atinentes à proclamação da República, em especial o 31 de Janeiro (de 1891, referente à primeira tentativa de instauração do regime republicano, no Porto) e o 5 de Outubro, como referentes de um combate pelo regime que se pretendia restaurar.
Já depois do "golpe dos capitães", Fafe começou a comemorar condignamente, regularmente, em liberdade, a excelsa data histórica da Proclamação da República, o que faz, assim, por sistema, há mais de três décadas.
Ao contrário de muitos outros municípios que apenas relembram o Centenário da República, por ser data redonda, Fafe evocou ao longo destas décadas a gesta heróica de Machado dos Santos, Bernardino Machado, Afonso Costa, Teófilo Braga e tantos outros.
Por isso, no Centenário, que todos comemoram, Fafe não se coloca em bicos de pés e optou por um programa simbólico e até original, ao chamar à sessão solene de 5 de Outubro, um conjunto de jovens que vão apresentar os resultados do projecto Juventude 2010 - 100 anos - 100 ideias para participar. É a melhor forma celebrativa de uma efeméride de tão elevado significado: voltada para o futuro e não para a mera contemplação histórica.
É, assim, de referir que o município de Fafe volta a evocar a data histórica da Proclamação da República, com um programa comemorativo que se estende pelos dias 4 e 5 de Outubro.
No dia 4 de Outubro, segunda-feira, a partir das 21h30, no Pavilhão Multiusos, realiza-se a tradicional Festa do Desporto, que compreende a entrega do Prémio Desportivo Câmara Municipal de Fafe e do Troféu “Não à Violência-Viva o Desporto”, relativos à época 2009/2010 e que junta habitualmente centenas de desportistas locais.
Dia simbólico, contudo, é o 5 de Outubro, terça-feira, que começa com a habitual alvorada de morteiros pelas 9h00.
Após o hastear da bandeira no edifício dos Paços do Concelho com o desfile da Fanfarra dos Bombeiros Voluntários de Fafe, pelas 10h00, realiza-se no Salão Nobre a habitual sessão solene evocativa da efeméride.
A sessão é aberta pelo Presidente da Assembleia Municipal, Laurentino Dias, seguindo-se a intervenção do Professor Doutor Norberto Cunha, docente jubilado da Universidade do Minho, que vai reflectir sobre a actualidade dos valores da República. Uma mensagem a não perder, dada a qualidade intelectual e científica do orador.
A cerimónia continua com a intervenção da aluna Cláudia Micaela Fernandes Gonçalves, da Escola Secundária de Fafe, relativa à liberdade política e participação cívica, bem como a entrega ao Executivo Camarário do documento final do projecto Juventude 2010 – 100 anos – 100 ideias para participar e a intervenção do representante dos jovens acerca das 100 propostas contidas no documento.
A sessão solene comemorativa é encerrada pelo Presidente da Câmara, José Ribeiro, finalizando com a execução do Hino Nacional pela Academia de Música José Atalaya.

De referir que as comemorações do Centenário da República em Fafe se vão prolongar por mais alguns meses, com diversas iniciativas e edições bibliográficas.
Para já, arranca esta quinta-feira, dia 7 de Outubro, pelas 18h30, na Biblioteca Municipal, o I Curso Livre de História Local, organizado pelo Núcleo de Artes e Letras de Fafe, com o apoio do Município, este ano sobre a temática "O concelho de Fafe na I República".
Seguir-se-ão outras iniciativas, como a edição de obras literárias, exposições e o mais que se verá até Agosto do próximo ano, altura em que se comemora o centenário da primeira Constituição Republicana...

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

DIA MUNDIAL DA MÚSICA CELEBRA-SE EM FAFE


Para comemorar o Dia Mundial da Música, esta sexta-feira, 1 de Outubro, o município de Fafe convidou a Orquestra Juvenil da Banda de Revelhe e a Academia de Música José Atalaya.
O espectáculo realiza-se no Teatro-Cinema de Fafe, com início marcado para as 21h30 e representa a celebração da música por valores emergentes da cidade.
Na primeira parte, actua a Orquestra Juvenil da Banda de Revelhe, sob a direcção do maestro Paulo Pereira e interpreta temas como Valencia passo doble (Gaetano Vinci), Mars – "The Planets" (Gustav Holst), The Phantom Of The Opera Medley (Andrew Lloyd Webber), Hallelujah (Arr: Frank Bernaerts), One Moment in Time (John Higgins), Carmen Miranda – Medley (Arr: Valdemar Sequeira) e Ravanello – Marsch (W. Joseph).
Na segunda parte intervém a Orquestra de Sopros Academia de Música José Atalaya, com direcção de Orquestra de Cristina Cunha e direcção de Coro de Carla Lopes e interpreta Lord of the Dance (R. Hardiman /Arr. Frank Bernaerts), TinTin – “Prisoners of the Sun” (D. Brossé / arr. J. Meij), Pirates of the Caribbean (K. Badelt / arr. John Wasson), The Blues Factory (Jacob de Haan), Easy Street Rag (Michael Green) e Hino à Música (Coro e Orquestra), de Ramiro Lopes.
Orquestra Juvenil da Banda de Revelhe

A Escola de Música da Banda de Revelhe teve como seu mentor o Sr. Albertino Silva (Lucas). Foi criada com o intuito de proporcionar aos jovens uma formação musical; incutir o gosto pela música e a apetência para a aprendizagem da mesma; promover intercâmbios com outras instituições; promover actividades circum-escolares; contribuir para o desenvolvimento artístico e cultural do concelho. Tem um corpo docente estável e qualificado, tendo como Director Pedagógico da Escola de Música o Prof. Paulo Pereira. Tirando partido dos alunos mais avançados, surgiu a Orquestra Juvenil, proporcionando assim aos jovens o contacto com outros músicos, desenvolvendo o trabalho de grupo bem como para mais tarde fazer parte dos quadros da Banda de Revelhe, tendo sido a sua estreia no dia 22 de Fevereiro de 2008 no Estúdio Fénix. É de salientar que este projecto só é possível porque o filho do mentor da Escola de música, José Albertino Silva, um conceituado empresário fafense, abraçou a ambição do pai, disponibilizando todos os meios necessários para o bom funcionamento da Escola.

Orquestra de Sopros da Academia de Música José Atalaya

Por seu turno, a Orquestra de Sopros da Academia de Música José Atalaya foi criada em 2004 sob a direcção do Professor Victor Matos.
Constituída maioritariamente por elementos ligados à Academia, este grupo tem sabido atrair para o seu seio jovens músicos de outras proveniências que muito têm contribuído para colmatar a falta de alguns instrumentos que a Academia só agora começou a leccionar - Trompete e Trombone - e outros que ainda não lecciona, como a Tuba ou a Percussão, curso muito procurado mas para o qual ainda não temos condições físicas.
Desde 2007 orientada pela professora Cristina Cunha, a Orquestra conta actualmente com cerca de 45 elementos e um repertório que lhe permite fazer concertos integrais, tendo sido bastante solicitada.
No ano lectivo 2008/2009, participou na iniciativa “1001 Músicos” que teve lugar no Centro Cultural de Belém.
Com muitas solicitações anuais, colabora, habitualmente, em iniciativas de carácter cultural e são vários os espaços onde tem actuado.

domingo, 26 de setembro de 2010

DEMAGOGIA FEITA À MANEIRA É COMO QUEIJO NUMA RATOEIRA

A conhecida cantora Lena D’ Água esteve no Teatro-Cinema desta cidade na noite do passado sábado, para uma plateia bem composta, embora fosse expectável uma lotação superior.
A artista reviveu alguns dos seus êxitos mais famosos, juntamente com o fabuloso guitarrista Tahina, que encheu a belíssima sala com o seu virtuosismo.
O Teatro-Cinema voltou a ser elogiado como uma das mais encantadoras casas de espectáculo deste país, o que só pode deixar orgulhosos todos os fafenses.
Aqui e agora apenas gostaria de deixar o poema de uma das músicas interpretadas pela cantora, da autoria (música e letra) de Luís Pedro Fonseca e que faz parte do álbum Perto de Ti (1982).
Os versos já têm quase trinta anos, como se verifica, mas a sua mensagem permanece inteiramente actual, pertinente e acutilante. Basta olhar à nossa volta.
É só ler (com olhos de ler…) e interpretar!


Demagogia

Dão nas vistas em qualquer lugar
Jogando com as palavras como ninguém
Sabem como hão-de contornar
As mais directas perguntas

Aproveitam todo o espaço
Que lhes oferecem na rádio e nos jornais
E falam com desembaraço
Como se fossem formados em falar demais

Demagogia feira à maneira
É como queijo numa ratoeira

P’ra levar a água ao seu moinho
Têm nas mãos uma lata descomunal
Prometem muito pão e vinho
Quando abre a caça eleitoral

Desde que se vêem no poleiro
São atacados de amnésia total
Desde o último até ao Primeiro
Vão-se curar em banquetes, numa social

MEMÓRIA DE CAMILO CASTELO BRANCO POVOOU A QUINTA DO ERMO


Depois do inegável êxito que constituiu a primeira edição (2009) dos Encontros do Ermo, realizados na Quinta do Ermo, em Paços, Fafe, no caso, sobre José Cardoso Vieira de Castro, teve lugar na tarde de sábado, 25 de Setembro, o II Encontro do Ermo, desta feita em torno de aspectos da vida e obra de Camilo Castelo Branco.
Participaram no evento cerca de oito dezenas de pessoas não apenas de Fafe, mas também do Porto e de outras cidades do norte.
A organização foi, como há um ano, da Câmara Municipal de Fafe e do actual proprietário da Quinta e que tão bem restaurou a casa, o Eng. Lourenço Castro.
Foi, assim, um evento voltado para os camilianistas e para os que adoram a mundividência literária do "Torturado de Seide", cuja memória sagrada povoa a encantadora quinta tipicamente minhota, onde o anfitrião e desgraçado José Cardoso Vieira de Castro acolheu, durante mais de um mês, o autor de Amor de Perdição, nos idos de 1860, quando este se encontrava foragido da justiça, pronunciado pelo crime de adultério na pessoa da sua paixão maior Ana Plácido.
Depois das boas vindas debitadas pelo actual dono da casa e pelo vice-presidente do município, Dr. Antero Barbosa, foi apresentada a obra colectiva Leituras do Desejo em Camilo Castelo Branco (Opera Omnia), organizada pelos professores universitários Sérgio Guimarães Sousa e José Cândido de Oliveira Martins, que se encarregaram de demonstrar aos presentes as virtualidades da mesma.
Seguiu-se um momento musical a cargo de um trio de clarinetes da Academia de Música José Atalaya, que, com um programa de música barroca, encantou a assistência.
O Encontro culminou com as comunicações alusivas a obras de Camilo.
O Professor J. Cândido Martins (Universidade Católica Portuguesa – Faculdade de Filosofia de Braga), abordou a faceta do “Camilo dramaturgo e a comédia de costumes”, ressaltando que o conhecido romancista escreveu mais de três dezenas de peças de teatro ao longo de 40 anos, muitas delas sucessivamente representadas. Deteve-se, mais aprofundadamente, em O Morgado de Fafe em Lisboa e em O Morgado de Fafe Amoroso, ou não estivéssemos nas terras do morgado e da “Justiça”…
A segunda comunicação esteve a cargo do Prof. Dr. Sérgio Guimarães de Sousa (Universidade do Minho) que dissertou sobre o tema: «Rir à custa de Calisto e rir com Calisto. Aspectos do cómico n’ A Queda dum Anjo», uma das mais divertidas e emblemáticas obras camilianas.
Finalmente, o Dr. João Paulo Braga, investigador do Centro de Estudos Filosóficos e Humanísticos da Faculdade de Filosofia da Universidade Católica (Braga), falou sobre «Uma cena da tragédia humana no Livro de Consolação», chamando à colação a figura de José Cardoso Vieira de Castro, sobre cuja desdita se debruça a obra.
Finalmente, os presentes puderam conviver animadamente em torno de um verde de honra que encerrou a segunda edição do encontro, que vai ter continuação, não se sabe é com que periodicidade!...
De recordar que as comunicações apresentadas a este evento serão publicadas na próxima edição da revista cultural Dom Fafes, a editar pelo município nos próximos meses.

EM DEFESA DO ESTADO SOCIAL - ALICERCE Nº 1 DA CULTURA EUROPEIA

Hoje os dias gastam-se, fastidiosos e rotineiros, a falar do défice que não pára de crescer, do volume de endividamento que está a tornar o país irrespirável, para não dizer ingovernável, da previsível vinda ou da desnecessidade do regresso do Fundo Monetário Internacional de má memória para obrigar a colocar as nossas contas públicas em ordem, já que não nos revelamos capazes de o fazer pelos nossos próprios recursos.
Pelo meio, há quem acene, com algum oportunismo e absoluto irrealismo, com uma nova revisão constitucional, que peca basicamente pela extemporaneidade, ou seja, introduzir esse mecanismo no quotidiano político será como considerar importante um grupo folclórico a acompanhar um funeral.
Em causa está uma realidade que se costuma apelidar de “Estado Social”, que é equacionado nos debates, na imprensa, nas conversas, na rua, nos comícios, nos fóruns partidários. Ser a favor ou contra - eis a questão...
Mas o que é isso de “Estado Social”, que também leva o nome de “Estado Providência”, ou de “Welfare State” e que, curiosamente, para o economista e ex-governante Bagão Félix, “é o alicerce nº 1 da cultura europeia”?
É o contrário do que muitos teóricos chamam o “Estado Liberal”, uma realidade que vem do século XIX e que se caracteriza por um modelo em que a intervenção do Estado se reduz ao mínimo. Nesta acepção, o Estado não existe, apenas detém uma função reguladora, que, na prática, nada regula, como se sabe. Vigorou, historicamente, até à grande depressão económica dos anos 30 e sobretudo à Segunda Guerra Mundial. Quando as coisas deixaram de funcionar, o modelo faliu e deu lugar ao que se chama Estado de “Welfare”, ou de “bem-estar social”, que pressupôs, desde logo, o aumento substancial das funções do Estado, sobretudo na área das politicas sociais, como sejam a saúde, a educação e a segurança social. É óbvio que ao acréscimo das funções e do peso do Estado correspondeu o aumento da despesa pública e do número de funcionários. Nos nossos dias, segundo especialistas, cerca de 70% do pessoal da Administração Pública trabalha no âmbito das políticas sociais (professores, médicos, enfermeiros, assistentes e educadores sociais, etc.).
Daí que ressurjam vozes a clamar alternativas ao Estado do “Welfare”, assentando na ideia de um estado mais magro, para muitos, o Estado “mínimo”, em que as áreas sociais deveriam ser entregues à iniciativa privada. A revisão constitucional proposta pelo PSD vai nesse sentido de entregar aos privados a exploração de sectores sociais como a saúde e a educação, sobretudo se forem rentáveis, pois, como se adivinha e comprova, aos privados apenas interessam os negócios lucrativos. O resto que fique no “Estado Social”.
Na alma desta acepção do alegado “Estado mínimo” está a ideia de que o que tudo o que é público é ineficiente e que, portanto, há que fazer passar a maior parte das politicas sociais para a esfera particular, como se isso fosse panaceia universal. E não é, claramente.
Imaginemos, por um momento, um país em que o Estado se demitia das suas funções sociais nas áreas da saúde, da educação e da segurança social!...
Um país em que os pobres não têm direito de acesso aos cuidados de saúde, em que um doente terminal não tem lugar nos hospitais, um idoso não é operado a um cancro, porque sem esperança de vida, em que qualquer cidadão só pode ir a um médico se tiver dinheiro e a uma unidade de saúde se possuir um seguro.
Imaginemos um país em que para se frequentar o ensino obrigatório é necessário pagar propinas, sem apoios sociais, e no qual o ensino universitário é pago pelo bolso de cada estudante.
Imaginemos um país em que um desempregado não tem direito ao subsídio de desemprego; em que as famílias pobres não têm direito a qualquer apoio social de inserção ou em que os reformados, depois de uma vida de descontos, usufruem de míseras pensões, se não tiverem feito um seguro de vida.
O “Estado mínimo” é esta caricatura, mais coisa menos coisa, se levada às últimas consequências. É assim que se emagrece o Estado, se recuperam as finanças públicas. De preferência, exterminam-se os portugueses mais pobres, os desempregados, os que recebem prestações sociais e depois a classe média, sobrando apenas os Belmiros, os Mellos e os Berardos para darem sentido e consistência a um Estado forte, rico, produtivo, eficiente, desburocratizado, sem ameaças do FMI ou da porcaria das agências de “rating”. Pretensamente, este tipo de Estado supõe a emergência de uma sociedade forte e independente do Estado. Obviamente!...
Uma utopia, que não passa disso mesmo. Uma ilusão sem tempo nem lugar.

NB. Ficará para outras núpcias a bondade da iniciativa privada, sem tradição nem cultura neste país. Por hoje, gostaria de finalizar com uma nota: a nomeação de Paulo Bento como seleccionador nacional, para além de caricata, é como que acenar com uma bóia a um náufrago sem salvação. Ninguém acredita em Paulo Bento, que nunca ganhou coisa nenhuma, nem nesta selecção, ao ponto a que chegou. Não haveria pior opção? Os jogos que aí vêm vão ser seguramente um penoso exercício de autoflagelação nacional. Serão o paradigma do “Estado mínimo” do desporto português!...