sexta-feira, 8 de abril de 2011

"Águas públicas e a sua utilização no concelho de Fafe": livro a lançar em 18 de Abril, no Dia Internacional dos Monumentos e Sítios

A Câmara Municipal de Fafe vai comemorar o Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, em 18 de Abril (segunda-feira), com o lançamento da obra Águas públicas e a sua utilização no concelho de Fafe. Um contributo do ponto de vista histórico-geográfico, da autoria do Professor Francisco da Silva Costa, docente do departamento de Geografia da Universidade do Minho.
O evento tem lugar na Biblioteca Municipal, a partir das 21h30, com entrada livre.
O Dia Internacional dos Monumentos e Sítios foi criado a 18 de Abril de 1982 e aprovado pela Unesco no ano seguinte, com o objectivo de sensibilizar o público para a diversidade e vulnerabilidade do património, bem como para o esforço envolvido na sua protecção e conservação. O tema deste ano é Água: cultura e património.
É exactamente nessa linha que se enquadra a obra editada pela autarquia fafense, com o patrocínio da empresa Águas do Ave e que tem prefácio e apresentação do signatário desta nota.

Do prefácio:

Direi que se trata de uma obra fascinante, pela sua singularidade, e especificidade, por abordar temas absolutamente inéditos na bibliografia local, como estes relacionados com o património ligado ao uso da água.
O livro parte de um brevíssimo enquadramento geográfico, natural, territorial e humano do município de Fafe, passando depois para a enunciação do quadro normativo e institucional relativo ao direito e gestão da água, desde o início do século XX.
O corpo da obra desenvolve-se em torno dos usos e ocupação do domínio público hídrico neste concelho, desdobrado nas mais importantes utilizações da água, nos seus cursos mais relevantes, sobretudo o Vizela, o Ferro, o Bugio e o Torto.
Fala-se, assim, da importância da rega dos campos, da cultura do linho, do papel dos moinhos de rodízio e azenhas, como espaços de actividade moageira, mas também de outros engenhos ligados ao aproveitamento das águas públicas como a serração e os lagares de azeite.
A obra aborda ainda o aproveitamento hídrico no contexto da indústria local, sobretudo a têxtil (fábricas de fiação e tecidos), bem como nas fábricas de papel, em Fareja e em Fafe, hoje desaparecidas, depois de cumprirem a sua missão histórica. Algumas linhas são, de igual modo, dedicadas ao papel das pequenas centrais hidroeléctricas, como a de Santa Rita, mas também as das fábricas do Ferro e do Bugio, necessárias à laboração daquelas importantes indústrias, cujo auge decorreu em grande parte do século passado.
A publicação é ilustrada por dezenas de projectos apresentados para licenciamento no arco temporal compreendido entre os anos de 1903 e 1970, o que extraordinariamente a enriquece.
Estamos, enfim, em presença de um livro que interessa aos fafenses, abordando uma temática que esteve e continua a estar presente no dia a dia dos cidadãos, qual seja a da utilização dos recursos hídricos no território.
Um livro que importa, assim, à maioria das freguesias, banhadas por rios e ribeiros que, ao longo do século passado, foram aproveitados para diferentes utilizações, em benefício das populações.
Um livro, enfim, que casa harmonicamente a história e a geografia do concelho, reforçando o nosso conhecimento sobre o passado e o que foi feito no território, nesta área específica.

O Professor Francisco da Silva Costa nasceu em 1966, em França. Fez parte dos seus estudos em Amarante, tendo depois concluído a licenciatura e o mestrado em Geografia na Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
Em 2008 terminou o doutoramento na área da Geografia Física e Estudos Ambientais, com uma dissertação intitulada “A Gestão das Águas Públicas – O caso da bacia hidrográfica do rio Ave no período 1902-1973”.
Faz parte do departamento de Geografia da Universidade do Minho desde 1998, exercendo nesta altura as funções de professor auxiliar.
Investigador do Centro de Estudos em Geografia e Ordenamento do Território e do Núcleo de Investigação em Geografia e Planeamento, tem-se dedicado a várias temáticas, entre as quais se destacam o Domínio Público Hídrico, a gestão da água e o planeamento dos recursos hídricos, a educação ambiental e os riscos naturais.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Laura Soares Summavielle: republicana fafense de dimensão nacional

Única imagem que se conhece de Laura Summavielle
Numa época em que dominavam os homens, em Fafe salientou-se uma mulher de elevado gabarito e que atingiu dimensão nacional. Porventura pela sua fortuna e por ter sido esposa de um republicano de antes quebrar que torcer: o Dr. José Summavielle Soares, que foi presidente da Câmara na I República, introdutor da electricidade em Fafe, criador do Teatro-Cinema de Fafe e administrador e proprietário da Fábrica do Bugio. Mas também porque ela própria se imbuiu do mesmo espírito e da mesma ideologia e acabou por transformar-se numa das maiores defensoras da I República.
Falamos de Laura Soares d’Oliveira Summavielle, considerada uma figura destacada na defesa do republicanismo e dos direitos das mulheres, ainda antes da eclosão da revolução de 5 de Outubro de 1910.
Nasceu em Fafe, na rua Monsenhor Vieira de Castro, em 23 de Março de 1879, filha de João Soares de Oliveira, farmacêutico no Hospital e de Joaquina Mendes da Costa, doméstica.
Laura Summavielle nasceu no seio de uma família abastada, cuja fortuna foi construída no Brasil e aos 24 anos casou com o advogado José Summavielle Soares, também ele de uma família de fortuna, por via do seu avô José Florêncio Soares, “brasileiro” que foi presidente do município, promotor da construção do Hospital da Misericórdia e fundador da Fábrica do Bugio (1873).
O marido, José Summavielle Soares, foi quem proclamou a República, das varandas dos Paços do Concelho, em 9 de Outubro de 1910.
Casa Summavielle, na rua Monsenhor Vieira de Castro,
onde Laura Summavielle viveu com seu marido e numerosa prole
Dentro desse espírito ideológico, actuou Laura Soares d’Oliveira Summavielle, mãe de uma plêiade de dez filhos: 4 mulheres, Laura (futura esposa do Dr. Maximino de Matos), Maria Margarida (casada com Augusto da Cunha Mendes), Alice (casada com o Dr. Alexandre Freitas Ribeiro) e Soledade (a maior poetisa fafense, casada com João Camilo), e 6 filhos varões, José, João (casado com Maria Miquelina Martins Campos), Miguel (falecido em 1945 com 30 anos), Luís (casado com Maria Adélia Félix da Costa), Fernando e Elísio Summavielle Soares (casado com Maria de Lourdes Costa Santos).
Sempre que se assinalava a data comemorativa do 5 de Outubro, Laura pendurava na sacada da sua habitação a bandeira nacional, mesmo nos momentos mais adversos, como sucedeu por altura do sidonismo (1918).
Laura Summavielle pertenceu à Cruzada das Mulheres Portuguesas, tendo sido dirigente da subcomissão de Fafe.
Durante a I Grande Guerra Mundial, promoveu projectos de assistência às crianças e às mulheres.
Isabel Cluny, no Dicionário Feminino (séculos XIX e XX), escreveu que Laura Summavielle “parece ter-se empenhado bastante neste trabalho, cuja vertente de assistência social deixava antever a propaganda feminina republicana”.
Laura Summavielle manteve-se intransigente na defesa dos ideais republicanos, mesmo durante o Estado Novo, em que não deixou de exigir o seu direito de voto nas eleições presidenciais e continuou a hastear bandeiras republicanas na sacada da sua residência e no Teatro-Cinema, em frente, ambos na rua Monsenhor Vieira de Castro.
Traseiras da mesma belíssima casa brasileira, edificada em 1862
Altruísta e bairrista, amante da sua terra, forneceu, de uma pereira que possuía no lugar de Pardelhas, toda a pedra para acabar de levantar a Igreja Nova de S. José, que como se sabe começou em 1895 e apenas foi sagrada em 1961. Isto, além dos donativos que deu para a mesma igreja, e que terão sido vultosos.
Faleceu em 14 de Abril de 1971 (dois anos depois do marido e, curiosamente, dois dias antes do seu genro Dr. Alexandre de Freitas Ribeiro, que contava apenas 64 anos de vida), com 92 anos, em perfeita lucidez, apesar da provecta idade, depois de ter viajado por diversos países europeus, “sozinha ou acompanhada por amigas, o que era pouco vulgar na época as mulheres fazerem” (Fátima Mariano).
Por altura do falecimento, o semanário local O Desforço, escrevia que a saudosa senhora era uma pessoa muito viajada, inteligente e culta. “A senhora D. Laura Summavielle era uma pessoa expansiva, alegre, comunicativa e com veia poética. Os seus versos, que ela por vezes improvisava, tanto em família, como entre pessoas amigas, faziam um livro. Dizia os seus versos para dar expansão à sua alegria, pois era uma senhora alegre e bem disposta” – acrescentava o periódico.
Era além de tudo uma senhora muito caritativa, nunca se esquecendo dos seus pobres do Asilo, da Conferência de S. Vicente de Paula, dos doentes do Hospital e outros necessitados.

Bibliografia: “Em Defesa da República”, de Fátima Mariano, Jornal de Notícias, 4 de Setembro de 2010, p. 11; Fafenses nascidos no século XIX – Perspectiva Histórico-Biográfica, 2ª edição, de Luís Gonzaga Ribeiro Pereira Silva, ed. Câmara Municipal de Fafe, 2010, pp. 160-161; Fafe dos “Brasileiros” (1860-10930): perspectiva histórica e patrimonial, de Miguel Monteiro, 1991, pp. 192-196; O Desforço, 22 de Abril de 1971.

Estamos entregues à bicharada

1. Tal como se antevia, o primeiro-ministro José Sócrates apresentou a sua demissão, a meio da passada semana, após o clamoroso chumbo do PEC 4, na Assembleia da República, abrindo uma crise política que vai durar alguns meses até à realização de eleições antecipadas, em 5 de Junho. Crise que acaba por agravar seriamente a delicadíssima situação económica em que estamos mergulhados, depois de anos a viver à tripa forra. Como um guerreiro que não dá a batalha por perdida, nas circunstâncias mais adversas, afirmou logo, convictamente: “eu vou, mas eu volto”! Só o futuro dirá se fez bem ou mal. É claro que o país está farto de Sócrates. Um Sócrates determinado, patriota, lutador pelas causas em que acredita, ninguém duvida, mas um Sócrates também enredado em escândalos demasiados, prepotente, arrogante, injusto politicamente, fraquíssimo perante os fortes, que o mesmo é dizer, o sistema financeiro, os potentados económicos, fortíssimo perante os mais pobres e despossuídos. Um Sócrates vaidoso e petulante que muitos portugueses querem ver pelas costas.
Ninguém nega ao ex-inquilino de S. Bento as qualidades de carácter que fizeram dele um primeiro-ministro razoável durante alguns anos, com pretensões a ficar na “História” por boas razões (presumíveis reformas, a maioria forçadas e impostas, em diversos sectores, que foram feitas contra os alegados “interesses instalados”, sejam os professores, os médicos, o funcionalismo público e outros sectores que nunca haviam sido tão achincalhados nas suas carreiras como durante o seu consulado …), mas que se enredou em contradições, paradoxos e iniquidades que desembocaram na inevitabilidade do seu despedimento, curiosamente no dia a seguir ao badalado acordo com parte dos parceiros sociais visando, entre outras medidas, facilitar os despedimentos. O primeiro a ser despedido foi precisamente o governo, para comprovar que o dito acordo funciona!
Após a sua demissão e a marcação de eleições para daqui a dois meses, fala-se hoje, nos diversos meios, de José Sócrates quase como passado irrevogável, o que não deixa de ser caricato, até porque o executivo continuará em funções de gestão até ao final de Junho, ou seja, pelo menos nos próximos três meses.
Não há dúvida que só um milagre fará com que José Sócrates continue, penalizando as suas manias, a sua imagem obsidiante, o seu desgaste, o seu deserto de esperança, o exagero da sua pose plástica e muitas vezes artificial.

2. Mas se José Sócrates é mau, nesta conjuntura, Passos Coelho será certamente pior. Ele é igual a Sócrates na vaidade, na petulância, no arrivismo, no aparelhismo, na ambição desmesurada. Mas é muito pior que Sócrates: porque não tem experiência governativa, não demonstra segurança no que diz e no que faz, apesar de disfarçar o contrário, é dissimulado e fingido, não inspira a mínima confiança a não ser aos apaniguados. É evidente que vai tirar proveito de um Sócrates “queimado” por medidas impopulares, sobretudo nos cortes de ordenados e pensões, mas rapidamente será ele próprio sacrificado no altar de outras medidas mais gravosas que inevitavelmente vai ter de tomar, se os portugueses o elegerem para comandar os destinos da Nação. Disso não tenha a menor ilusão.
Começa mal, quando avança para imediato aumento de impostos, como o IVA generalizado, apesar do truque de afirmar que não engana ninguém, como se a semântica fosse o mais importante para a boca dos portugueses.
Começa pessimamente quando propõe a abolição da avaliação dos professores, nesta altura do ano, com a maior incoerência e com a maior sofreguidão de poder. Para ser simpático e populista, como é óbvio!...
E fica-se siderado quando se fica a saber que Passos Coelho reprovou o PEC 4, “não porque foi longe de mais, mas porque não vai suficientemente longe para obter resultados na dívida pública”. Por esta breve amostra se pode ficar com uma ideia do que espera os portugueses se elegerem Passos Coelho. Vai aumentar impostos e retirar o 13º mês aos trabalhadores, seguindo a “cartilha” desse emérito democrata António Vodafone Carrapatoso. Vai alienar parte da Caixa Geral de Depósitos. Vai vender o que ainda houver para alienar. Vai “emagrecer” e “reduzir” o Estado, despedindo funcionários públicos; acabar com o pouco que resta do Estado Social; privatizar a saúde e a educação, deixando o sector público para os mais pobres, mas com a pior qualidade.
Os portugueses não podem esperar milagres deste líder apresentado como “um homem invulgar” (em quê, Felícia Cabrita?) que vai vender a maior demagogia nos próximos meses!

3. Ou seja, estamos entregues à bicharada. Como afirmou por estes dias o ex-ministro das Finanças Campos e Cunha, “estamos a viver um filme de terror em que o drácula culpa a vítima de lhe sugar o sangue”.
Vivemos dias de dramático, obsessivo e cansativo pingue-pongue: saber quem tem a culpa de abrir a crise; quem chumbou o PEC ou quem queria agravar a condição de vida dos portugueses; saber quem deve chamar o FMI, se o governo, que tem toda a legitimidade, ou o Presidente da República, que chuta a bola para canto. E andamos nisto entretidos, com as malfadadas agências de rating, todas sedeadas, por mero acaso, nos EUA e instrumentos da vontade americana de arrasar o euro, a dar directrizes à porcaria dos “mercados” especuladores, para ir acabando com as economias mais frágeis, para chegar às mais fortes. A estratégia é essa.
Mas enquanto não chega o FMI, e rasga a direito, sem contemplações, vamo-nos preparando para as eleições, com o habitual folclore, o bacalhau a pataco, as promessas para (não) cumprir, a demagogia à maneira, os hinos, as bandeiras, os tempos de antena, a animação habitual, porque para foguetes tem de haver….
É Portugal no seu melhor!...

(Ler no Correio do Minho de hoje, 4 de Abril)

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Mentiras, mentiras, verdades

José Sócrates não encenou a sua saída de primeiro-ministro, por saber que o défice iria disparar, descontroladamente.
O mesmo que (não) tinham feito António Guterres, medrosamente, quando lobrigou o célebre "pântano" e Durão Barroso, finoriamente, quando viu acenarem-lhe com 25 000 euros mensais de Bruxelas, quando o que ganhava em S. Bento era problemas acrescidos...
Cavaco Silva não premeditou um discurso violentíssimo contra Sócrates, na sua tomada de posse, dando origem à grave crise política que se soma à crise financeira, que nos há-de levar à bancarrota.
Ninguém teve em consideração que as eleições podem deixar tudo na mesma, o que significa muitíssimo pior, pois os juros não param de subir a cada dia que passa e qualquer dia não há futuro que aguente…
Pedro Passos Coelho não tem a obsessão de ser primeiro-ministro, a todo o custo, nem vai aumentar o IVA, nem privatizar parcialmente a Caixa Geral de Depósitos, nem acabar com o "Estado Social", porque ele simplesmente já não existe, nem sequer enquanto conceito. Sócrates encarregou-se de lhe dar as machadadas finais.
Vão ser suspensas as malfadadas parcerias público-privadas e os ordenados pornográficos dos gestores públicos e privados vão ser drasticamente reduzidos, enquanto os lucros escandalosos da banca e das grandes empresas sofrerão os devidos impostos.
A ética sobrelevará a conveniência. Os princípios e os valores serão bem mais importantes que a mera política.
A porcaria dos "mercados" é uma invenção americana para acabar com a zona euro. As chamadas agências de rating, todas sedeadas, por mero acaso, na América, são indubitavelmente o instrumento visível para essa ignominiosa tarefa: os Estados Unidos não perdoam que a União Europeia possa constituir um bloco económico independente e soberano. Tudo fará para arrasar o euro e colocar a Europa sob a sua órbita.
Bush ou Obama: os propósitos são os mesmos, a estratégia idêntica, os fins similares. Não há que fingir acreditar em milagres!... Estão todos contra a Europa, a começar pelas economias mais frágeis, para chegar às mais fortes.
Não estamos tramados: vêm aí eleições, com o habitual folclore, o bacalhau a pataco, as promessas para cumprir, os postos de trabalho para garantir, os hinos, as bandeiras, os tempos de antena, a animação costumeira.
Viva Portugal!...

quinta-feira, 31 de março de 2011

Fernanda Aguiar em exposição retrospectiva de pintura no Clube Thyrsense


A artista fafense Fernanda Aguiar apresenta uma retrospectiva da sua belíssima pintura no Club Thyrsense, em Santo Tirso, entre os dias 2 e 16 de Abril. A inauguração ocorre na tarde de sábado (17h00).
Para o breve catálogo da exposição, tive a honra de assinar um sentido texto, que transcrevo:

FERNANDA AGUIAR: UM PERCURSO DE ENCANTO

A artista fafense Fernanda Aguiar é um caso singular de alguém que, embora desde a infância acalentasse a vocação pictórica, apenas começou a exercitar o seu enorme talento já após a merecida aposentação, quando as obrigações profissionais e as imposições familiares lhe deixaram disponibilidade e tempo livre para se dedicar, enfim, ao que longa e compreensivelmente adiara: as artes visuais, e em especial a pintura.
Quando, nessa situação, poderia ter optado, como muitos, por passar o tempo à mesa do café ou em passeios pelos jardins, a artista investiu na sua formação, frequentando ateliers e oficinas de mestres credenciados, no sentido de ir ao encontro, mais competentemente, da sua vocação inicial, que era a de exteriorizar toda a sensibilidade e força interior que a religa à arte, à Natureza, às pessoas, às coisas belas e simples da vida.
Começou, então, primeiramente mais titubeante, depois com a maior firmeza, a pintar, a experimentar, a reproduzir modelos e figuras. Mas, logo de seguida, a criar o seu próprio estilo, a sua marca, a sua singularidade, libertando-se das amarras que lhe haviam sido ensinadas. Seguiu o seu próprio caminho, e fez muito bem!
Como seu antigo e orgulhoso aluno, tenho acompanhado o percurso artístico de Fernanda Aguiar desde o início. Estou, assim, em condições de reiterar, como já escrevi com todo o gosto e com a maior justiça em outras ocasiões, que a artista é uma das pintoras que conheço que mais evoluiu nos pontos de vista técnico e artístico, impondo-se pela inovação e criatividade, assumindo hoje uma segurança pictórica e uma linguagem que a diferenciam e particularizam.
Uma retrospectiva da sua obra é o momento para relembrar o seu percurso de encanto, que espraia por diferentes temáticas, que vão do retrato ao que a artista gosta de chamar a “alma e a respiração da Natureza”, passando por todo o género de figuração, pela pluralidade de imagens e modelos e, não posso deixar de relevá-lo, por deslumbrantes exemplares de arte sacra, do melhor que já vi em mais de meio século de vida e que integram uma belíssima exposição própria.
Fernanda Aguiar é uma artista de corpo inteiro. E, sobretudo, com um coração do tamanho do universo!

Artur Coimbra
 

Artista fafense Dulce Barata Feyo expõe na Cooperativa Árvore, no Porto

A artista Maria Dulce Barata Feyo expõe as suas últimas criações pictóricas, sob o título “Silêncios”, na Cooperativa Árvore, Sala 1.
A abertura da exposição ocorre este sábado, 2 de Abril, pelas 15h30, mantendo-se patente até 27 de Abril, no horário 09h30 às 20h00 (segunda a sexta-feira) e das 15h00 às 19h00 (sábados).
Maria Dulce Barata Feyo nasceu em Quinchães, Fafe, em 1940 e reside em Gondomar.
Licenciou-se em Pintura na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, em 1983. Foi discípula de Dórdio Gomes, Júlio Resende e Luís Demée, entre outros mestres consagrados das artes plásticas.
Seguiu a carreira docente, sem deixar de se dedicar à pintura.
Expõe desde 1983, individual e colectivamente.
Citada em:
Dicionário dos Pintores e Escultores Portugueses, de

Fernando de Pamplona
Dicionário dos Fafenses, de Artur Ferreira Coimbra.



 

Acerca da obra de Maria Dulce B. Feyo dizem-nos Laura Castro e Miguel Veiga:

Paisagens porquê e para quê?
"(....)De que nos serve olhar para estes substitutos da natureza, para este mundo pintado, se ele não existe fora da tela? De que nos serve este simulacro? Para que serve este artifício?
Podemos responder com o título da exposição: para o silêncio.
Todos nos deixamos guiar pela ideia de uma natureza silenciosa, de um mundo aplacado e imperturbável em que nos embrenhamos quando queremos escapar ao quotidiano frenético, à vivência urbana, à rotina desgastante. Gostamos do ritmo lento apenas pressentido, do ritmo cíclico que nos conforta, da tranquilidade – mesmo sabendo que é aparente – da pausa e da suspensão que a natureza proporciona e, na sua ausência, a paisagem. Nestas telas, os elementos vegetais parecem ter pousado tranquilamente no espaço que a pintora lhes destinou.
Nos anos 40 e 50 havia um termo muito usado pela crítica da época relativamente às tonalidades densas de terras e ocres, de negros e castanhos a que os artistas recorriam. Era um termo de ressonância sinestésica que qualificava as cores de surdas. Não posso deixar de evocar aqui esta curiosidade porque ao olhar para as cores dominantes do trabalho de Dulce Barata Feyo apetece lembrar essa cor contida e surda que se adequa plenamente à metáfora do silêncio que a sua pintura propõe (...)"

Laura Castro

Paisagem por que não?
"Atrevo-me a responder, por mm, porque sim. Dulce Barata Feyo, ao reflectir a realidade como um espelho numa imagem inicial e aparentemente inocente, não deixa criar um segunda realidade – outra, esta submetida ao seu juízo, ao seu sentido de composição e elaboração crítica. Na sua pintura a imagem não é conservada mas transformada. Os espelhos não se limitam a reproduzir a natureza, neles as imagens transformam-se , ganham virtualidade e cumplicidades.
A pintura com que nestas telas se nos expõe, revela e confessa Dulce B. F. não espelha nem retrata a vida, o real, pois não é com eles que a pintora preenche os espaços aparentemente livres da tela branca com que ela se confronta, corpo a corpo, ambas de nudez despidas. Ela sabe que tudo está na tela antes de começar e que todo o trabalho consiste em destapá-la, deixá-la vir ao de cima. Ela sabe que pintar é estar à porta do desconhecido, é perder o pé.
A pintura deste, desse e daquele quadro é um dos obscuros objectos do seu desejo: às escuras, mas há uma noite que esclarece a noite, que é também um dos obscuros motivos dos seus sonhos. A língua com que sonha Dulce B.F. é a sua pintura, com que pretende dizer o indizível que se cola à sua pele. Confiada nos sonhos porque neles se oculta a porta daquela eternidade, num tempo em cada estação abraça todas as outras.
A pintura da Dulce B. F. atrai-me, seduz-me e captura-me num contágio afectivo, num derrame emotivo naquela sensualidade do entendimento e da sua razão gulosa.
Pede-me o desejo que a veja. Nessa fonte que explode de legibilidade porque exactamente o não diz.
Como nesta sua poesia que se vê."
Miguel Veiga 

Américo Lopes de Oliveira: 100 anos de memórias deste "escravo das letras"

Em 31 de Março de 1911, há exactamente cem anos, nascia em Lisboa uma criança a que dariam o nome de Américo Lopes de Oliveira, que depois cresceria e se tornaria jornalista e escritor, autor de uma vasta obra publicada sobre assuntos regionais e locais. Desde o início dos anos 80, veio para a cidade de Fafe e aqui publicou diversas obras de investigação, que ainda hoje constituem referência para os respectivos estudos. Por aqui se manteve durante mais de duas décadas. Faleceu em 17 de Maio de 2003, com mais de 90 anos, nesta cidade, em cujo cemitério se encontra sepultado.
Era um homem humilde, sincero, um escravo das letras e da cultura, que exercitou até ao fim dos seus dias. Fafe muito lhe fica a dever, por toda a sua actividade exclusivamente, intensamente, voltada para a defesa das coisas desta terra e das letras.
Era um homem ingénuo, por isso foi explorado, como se sabe, vergonhosamente, por gente sem escrúpulos.
Fui seu amigo sincero e fiquei com uma entrevista exclusiva que guardo religiosamente no meu arquivo. Foi um anjo que passou na vida de alguns fafenses, entre os quais me incluo, e por isso me curvo respeitosamente ante a sua feliz memória, que hoje quero recordar.

Lopes de Oliveira fez os estudos secundários em Lisboa, na Escola Nacional e no Liceu Gil Vicente, depois frequentou a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, em Físico-químicas, o Instituto Industrial, cadeira de Estudos Camonianos, na Faculdade de Letras, bolseiro do Governo Espanhol, do Curso de Jornalismo, na Universidade Internacional Menendez Pelayo de Santander (1957-1959). Frequentou ainda a Escola Elementar dos CTT (1929-1932). Após efectuar estágios nas estações dos CTT do Barreiro e Santarém, foi admitido no 5º sector postal de Lisboa (1932), tendo desempenhado diversos serviços noutras áreas, quer em Lisboa quer em Braga, tendo sido aposentado, na categoria de 2º oficial, em 21-01-1959. Anteriormente fora funcionário na Caixa Geral de Depósitos, numa repartição da sua sede em Lisboa. Paralelamente a esta actividade, colaborou em jornais e revistas, desde os bancos escolares, tendo feito parte de diversas redacções, entre elas os diários Novidades, Diário do Norte, Diário de Lourenço Marques (como chefe de redacção). Foi correspondente dos diários bracarenses Diário do Minho e Correio do Minho, de O Primeiro de Janeiro, Diário Popular e Flama, redactor da Revista Latina, de Roma, da Agência Diga-me, Lógos e Ya de Espanha Fundou e dirigiu o Jornal de Fafe e o Cumeeira e manteve durante alguns anos a revista Panóplia.
No suplemento de Letras e Artes, do Novidades, criou uma rubrica denominada “Nas Colmeias das Artes”, focando artistas nacionais e estrangeiros, e, igualmente, criou um suplemento exclusivamente dedicado às Artes no Diário do Minho e ainda duas páginas, sob o título “Belas-Artes”, no Diário de Lourenço Marques, que se repetia no Século de Joanesburgo, da África do Sul. Igualmente tem colaborado em muitos jornais e revistas, quer nacionais quer estrangeiras, e na imprensa regional.




A convite dos governos, ou ainda como enviado especial, nas redacções a que pertenceu, deslocou-se por diversas vezes ao estrangeiro, percorrendo quase toda a Europa, África, América do Sul, neles proferindo, muitas vezes, conferências, ilustradas com música e cinema, sobre motivos do nosso país.
Pioneiras foram ideias suas propondo a criação, nas Faculdades de Letras, de cadeiras de História Medieval (1957) ou a realização do 1º Congresso dos Jornalistas (1967), que apenas se realizou, no pós-25 de Abril de 1974. Igualmente colaborou com rádios nacionais (Rádio Renascença e Emissora Nacional) e locais (Rádio Montelongo e Rádio Clube de Fafe).
Fez parte, não só como colaborador, mas como redactor, da volumosa obra Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, ao lado de António Sérgio e Manuel Mendes, entre outros vultos literários, e ainda da Enciclopédia Lello Universal do Porto. Colaborou ainda na Enciclopédia Ultramarina e no Dicionário da História da Igreja em Portugal. Está registado no Reportorio de Medievalismo Hispânico, do Departamento de Estudos Medievais de Barcelona (Julho de 1973).
Em 1980, veio viver para Fafe, a convite do então Presidente da Câmara Parcídio Summavielle, para escrever a primeira monografia sobre o concelho. Em 1983, foi instituído um prémio bienal que tem o seu nome, subsidiado por si e pela Câmara Municipal de Fafe, inicialmente para o género de ficção e monografia e ultimamente para a modalidade de «Estudos Histórico-Sociais, de âmbito local ou regional».
Fez um legado em vida ao município de Fafe, de todo o seu importante espólio, constituído por obras de arte, mobiliário e biblioteca e arquivo.
Foi sócio-correspondente da Real Academia da Corunha; delegado no nosso país da Academia Mondiale degli Artisti e Professionisti, de Roma (Itália); Conselheiro Nacional de Honra da Confederazione Generale Italiana Professionisti e Artistici, de Roma; membro do Centro Internacionale per Scambi Culturali e Artistici, de Roma; Conselheiro de Honra e correspondente do Instituto Fernando el Católico, de Saragoça (Espanha; sócio efectivo da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto; membro da Liga Efectiva Portugal-Brasil, de Lisboa e do Instituto Português de Arqueologia, História e Etnografia de Lisboa, entre outras instituições.Por ocasião do 40º aniversário da publicação do seu primeiro livro (Missões e Missionários - 1946), realizou-se na Casa da Cultura de Fafe, uma exposição bibliográfica, constituída por obras literárias, recortes de jornais e de revistas, fotografias, telas e desenhos, caricaturas, etc., que marcam a sua presença no campo cultural nacional e local. Pela mesma altura, Lopes de Oliveira foi distinguido com a Medalha de Prata de Mérito Concelhio, em cerimónia que decorreu nos Paços do Concelho, no âmbito do 25 de Abril de 1986.


 
Obras publicadas: Missões e Missionários (1946); Como Trabalham os Nossos Escritores (1950); Sentido Filosófico da Vida e Obra de Domingos Tarroso. Será ele o Precursor do Existencialismo? (1960); A Arte Oriental, e de Bizâncio sua Influência na Península Ibérica (1960); Dicionário Mundial de Mulheres Notáveis, de colaboração com o Prof. Dr. Mário Gonçalves Viana (1967); Miranda do Douro – O Menino Jesus da Cartolinha (1967, já em 7ª ed.); Ilhas de Bruma – Roteiro Açoriano, com prefácio do Prof. Dr. Vitorino Nemésio (1967); Vieira do Minho – A Montanha e a Água (1968); Castro Laboreiro – O Drama da Terra (1968); Arquipélago da Madeira – Epopeia Humana (1969); Jornais e Jornalistas Madeirenses (1969); Soajo – Uma Aldeia diferente «Cabeça de Montaria» (1970); Primeiro Jornal Bracarense – «O Cidadão Philantropo», (1970); Terras de Bouro e o Seu Concelho (1970); Maximiano Alves (1972); Caxineiros – Gentes de Vila do Conde (1973); Stela de Albuquerque (1975); Imprensa Bracarense (1976); Terras de Coura (1976); Valença do Minho (1978); Terras de Bouro (1980); Dicionário de Mulheres Célebres (1982); Fafe e o Seu Concelho (1982); Jornalismo em Fafe (1982); O Minho na Vida e Obra de Sá de Miranda (1982); Escritoras – Brasileiras, Galegas e Portuguesas (1983); Bombeiros Voluntários de Fafe (1984); «O Desforço» – Razão de uma Causa (1986); Imprensa Fafense (1989); Os CTT – Nas Artes, Ciências e Letras (1994); Angola-Moçambique – Entre a Guerra e a Paz (1994); Imprensa Vianense (1996); Nos Bastidores do Jornalismo (1997); Nas Colmeias da Arte (1997); Ares da Cabreira (1997); Das Artes-Dos Artistas (1998), O Passado no Presente (1999), No Mundo Artístico (2001) e Respigos do Passado (2001).
Respigos do Passado foi o seu último livro publicado, aos 90 anos de vida,
em 2001: agradeço eternamente a sua amizade
e a estima que sempre me devotou e era recíproca.