domingo, 10 de abril de 2011

Também sou da história do "Sá de Miranda" (Braga)

A Escola Secundária Sá de Miranda, em Braga, está a comemorar os 175 anos da criação do Liceu de Braga, de que é herdeira, com um conjunto de actividades e eventos que honram a enorme história desta instituição ilustre da capital do Minho.
Também eu fui aluno do então Liceu Nacional Sá de Miranda. Foi entre os anos de 1974 (logo após terminar o então curso geral dos liceus, no Colégio Municipal de Fafe) e 1976. Vejam lá a figurinha que acima transcreve aquele período. Aquela (saudosa) cabeleira e uma cara de menino de pouca barba, dos meus 17/18 anos.
Foram dois anos imensamente ricos, vividos numa altura de transição política e social, decorrente do 25 de Abril. Foi lá que vivi alguns dos acontecimentos do Verão quente de 1975, que me introduzi em algumas utopias politicas, como a efémera simpatia pela LUAR, de Palma Inácio. Foi por essa altura que escrevi grande parte dos poemas que haveriam de integrar o meu primeiro livro de poesia, O Prisma do Poeta. Foi por essa altura que iniciei uma colaboração regular com o diário Correio do Minho, que dura até hoje, mais de 35 anos depois. Lá escrevi quilómetros de prosa e alguns metros de poesia, numa gloriosa página literária que o tempo fez desaparecer e onde alguns poetas minhotos se estrearam a publicar os seus versos.
Para o Correio do Minho haveria de enviar volumosas colaborações de Serafão e de Fafe, durante muitos anos, como correspondente. Mais recentemente, com crónicas semanais e agora quinzenais.
Dos tempos do Sá de Miranda, a que nunca mais voltei, sobraram alguns amigos, colegas do então “6º e 7º anos” e não só. Foi um período que me marcou e a cuja memória às vezes regresso, quando lembro a cidade amiga, culta, onde a história e a modernidade se caldeiam, onde dá gosto passear, e a cujas movimentadas ruas regresso semanalmente, acompanhado da esposa, num ritual que me dá imenso prazer.

sábado, 9 de abril de 2011

Fafense Luís Marques Mendes em alta

Há dois meses editou o seu segundo livro de análise politica, com o título O Estado em que estamos, em que examina sem piedade um país em crise e propõe soluções para o resgatar. Falamos do advogado, político, gestor e comentador fafense Luís Marques Mendes.
Na linha do anterior Mudar de Vida (2008), a presente obra distribuiu-se por três grandes capítulos: “Portugal, um pântano politico e financeiro”, “Um governo sem ética e coerência” e “Merecemos uma sociedade melhor”.
O livro constrói-se em torno das opiniões políticas expressas, por dever de cidadania, em colaborações regulares na comunicação social (TVI24, Correio da Manhã e Expresso), acompanhadas de outros textos completamente novos e mais actuais.
O objectivo assumido pelo autor é “contribuir para um debate útil na sociedade portuguesa acerca do ‘estado da arte’ da nossa vida colectiva, na perspectiva de lograrmos alcançar um futuro diferente e melhor do que aquele que temos vivido nos últimos anos”, no sentido de que os portugueses voltem a ter esperança no seu país e no seu futuro.
Entretanto, a edição de hoje da revista NS’ (Notícias Sábado’ 274), inclui cinco páginas dedicadas a Marques Mendes, “comentador de sucesso”.
Aí ficam as páginas da revista, sobre o poder de um fafense na esfera mediática.





Telemóvel: o novo ditador

Não sei se os leitores já repararam: uma das maiores ditaduras da actualidade é nem mais nem menos do que o telemóvel. Não é Sócrates, apesar das tentações; não será Passos Coelho, ainda imberbe nesses domínios. Muito menos, Pinto da Costa ou Alberto João Jardim, apesar da falsa toleima de que têm alguma piada. Nem sequer o FMI.
É esse pequeno aparelho, cada vez mais leve e minúsculo, cada vez mais sofisticado, que se enfia no bolso do casaco ou das calças, para já não falar da carteira das senhoras, esse universo multímodo e caótico que só elas conseguem descodificar. Um aparelho às vezes inconveniente, que toca nos lugares mais indiscretos, como uma igreja, um cemitério ou uma reunião sigilosa. Para já não falar num encontro impróprio, no tempo, no lugar ou na pessoa.
O telemóvel acaba por ser a nossa segunda pele, de que não podemos abdicar, sob pena de perdermos a nossa identidade. É mais fundamental que o computador, que tanto divinizamos: porque podemos sair de casa sem o computador, sem qualquer problema. Vamos ao futebol sem o computador. Vamos ao centro comercial sem o computador. Podemos adiar a leitura do correio electrónico; deixamos para mais tarde a actualização do blogue, ou a visita ao facebook.
Contudo, não somos capazes de dar um passo na vida sem a segurança do telemóvel: sair de casa sem o telemóvel no bolso é como colocarmos o pé fora da porta, para trabalhar, em chinelos ou em pijama. Estamos nus, descompostos. Falta alguma coisa. Melhor, o essencial. Esquecemos às vezes a carteira, ou os óculos, mas nunca o telemóvel.
Se saímos de casa sem o ditador, voltamos atrás, porque não podemos estar um dia sem o telemóvel. No emprego, é claro, há telefone fixo. Podemos contactar e ser contactados. Mas não é a mesma coisa. Qualquer pessoa que tenha o nosso número, pode querer ligar a qualquer momento e nós não “estamos” lá. Não podemos atender. E se repente nos dá a vontade de dizer “bom dia” à nossa mãe, mandar um piropo à namorada, enviar uma mensagem de aniversário ao amigo que já não vemos há vinte e dois anos? Como é que vai ser?
Não nos venham com a lengalenga estafada de que até à existência do telemóvel, há bem poucos anos, as pessoas também viviam, também se falavam, deixavam recados, marcavam encontros, viajavam, iam e vinham, e tudo seguia normalmente. Ninguém morria se não soubesse durante duas ou três horas do nosso paradeiro.
Hoje, não. Na era do telemóvel, da urgência, da velocidade, da momentaneidade, se durante vinte minutos não conseguirmos contactar o nosso filho que foi dar uma volta de bicicleta, ligamos de imediato para a polícia, para o Hospital, para o INEM, colocamos um anúncio na internet, “desapareceu…”.
O telemóvel é, na verdade, o tirano dos tempos modernos. Reparemos, durante um simples jantar: estamos a comer, a beber, como que distraidamente. Mas não é distracção: de dois em dois minutos, fixamos o aparelho, não para ver as horas, mas na secreta esperança de que alguém ligue ou envie um simples SMS. Alguém, ou ninguém: é já hábito, costume, expectativa, paranóia. E se alguém calha de ligar, levantamo-nos, desviamo-nos, orelha colada ao aparelho, sorriso nos lábios, como se a banal chamada fosse a coisa mais importante do mundo.
E quando estamos a cavaquear num grupo de amigos ou de conhecidos? Se o telemóvel toca, interrompem-se as conversas, finam-se os diálogos: mais que quem está presente, ao nosso lado, quente de proximidade, releva quem está do outro lado do aparelho, frio, palavroso. A prioridade não é quem está junto de nós, é quem nos telefona. Mesmo que não tenha nada de importante para nos dizer, que seja para informar que o espectáculo não é às 9 mas às 10 da noite, ou que não vai jantar a casa. Pelo simples facto de estar a falar à distância, sobreleva sobre tudo o resto: todas as conversas, os encontros, por mais substanciais e primordiais que sejam.
Hoje o telemóvel é mais importante que tudo na vida. Ele é a vida, e tudo se lhe subjuga. Desligamos o computador, o televisor, o automóvel, a leitura, a música, o quotidiano. Não desligamos nunca o telemóvel, nem de noite, nem ao fim de semana, nem nas férias. É que “alguém” pode ligar. Ou ninguém, como acontece a maioria das vezes!...
Mudam-se os tempos, evoluem as vontades, subvertem-se os valores.
Estamos todos loucos. E a culpa não é das novas tecnologias. É da nossa cabeça alienada!

(Texto publicado na edição desta sexta-feira do semanário local Povo de Fafe e parcialmente lido na crónica quinzenal das sextas-feiras que o autor mantém na Rádio Fundação)


sexta-feira, 8 de abril de 2011

"Águas públicas e a sua utilização no concelho de Fafe": livro a lançar em 18 de Abril, no Dia Internacional dos Monumentos e Sítios

A Câmara Municipal de Fafe vai comemorar o Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, em 18 de Abril (segunda-feira), com o lançamento da obra Águas públicas e a sua utilização no concelho de Fafe. Um contributo do ponto de vista histórico-geográfico, da autoria do Professor Francisco da Silva Costa, docente do departamento de Geografia da Universidade do Minho.
O evento tem lugar na Biblioteca Municipal, a partir das 21h30, com entrada livre.
O Dia Internacional dos Monumentos e Sítios foi criado a 18 de Abril de 1982 e aprovado pela Unesco no ano seguinte, com o objectivo de sensibilizar o público para a diversidade e vulnerabilidade do património, bem como para o esforço envolvido na sua protecção e conservação. O tema deste ano é Água: cultura e património.
É exactamente nessa linha que se enquadra a obra editada pela autarquia fafense, com o patrocínio da empresa Águas do Ave e que tem prefácio e apresentação do signatário desta nota.

Do prefácio:

Direi que se trata de uma obra fascinante, pela sua singularidade, e especificidade, por abordar temas absolutamente inéditos na bibliografia local, como estes relacionados com o património ligado ao uso da água.
O livro parte de um brevíssimo enquadramento geográfico, natural, territorial e humano do município de Fafe, passando depois para a enunciação do quadro normativo e institucional relativo ao direito e gestão da água, desde o início do século XX.
O corpo da obra desenvolve-se em torno dos usos e ocupação do domínio público hídrico neste concelho, desdobrado nas mais importantes utilizações da água, nos seus cursos mais relevantes, sobretudo o Vizela, o Ferro, o Bugio e o Torto.
Fala-se, assim, da importância da rega dos campos, da cultura do linho, do papel dos moinhos de rodízio e azenhas, como espaços de actividade moageira, mas também de outros engenhos ligados ao aproveitamento das águas públicas como a serração e os lagares de azeite.
A obra aborda ainda o aproveitamento hídrico no contexto da indústria local, sobretudo a têxtil (fábricas de fiação e tecidos), bem como nas fábricas de papel, em Fareja e em Fafe, hoje desaparecidas, depois de cumprirem a sua missão histórica. Algumas linhas são, de igual modo, dedicadas ao papel das pequenas centrais hidroeléctricas, como a de Santa Rita, mas também as das fábricas do Ferro e do Bugio, necessárias à laboração daquelas importantes indústrias, cujo auge decorreu em grande parte do século passado.
A publicação é ilustrada por dezenas de projectos apresentados para licenciamento no arco temporal compreendido entre os anos de 1903 e 1970, o que extraordinariamente a enriquece.
Estamos, enfim, em presença de um livro que interessa aos fafenses, abordando uma temática que esteve e continua a estar presente no dia a dia dos cidadãos, qual seja a da utilização dos recursos hídricos no território.
Um livro que importa, assim, à maioria das freguesias, banhadas por rios e ribeiros que, ao longo do século passado, foram aproveitados para diferentes utilizações, em benefício das populações.
Um livro, enfim, que casa harmonicamente a história e a geografia do concelho, reforçando o nosso conhecimento sobre o passado e o que foi feito no território, nesta área específica.

O Professor Francisco da Silva Costa nasceu em 1966, em França. Fez parte dos seus estudos em Amarante, tendo depois concluído a licenciatura e o mestrado em Geografia na Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
Em 2008 terminou o doutoramento na área da Geografia Física e Estudos Ambientais, com uma dissertação intitulada “A Gestão das Águas Públicas – O caso da bacia hidrográfica do rio Ave no período 1902-1973”.
Faz parte do departamento de Geografia da Universidade do Minho desde 1998, exercendo nesta altura as funções de professor auxiliar.
Investigador do Centro de Estudos em Geografia e Ordenamento do Território e do Núcleo de Investigação em Geografia e Planeamento, tem-se dedicado a várias temáticas, entre as quais se destacam o Domínio Público Hídrico, a gestão da água e o planeamento dos recursos hídricos, a educação ambiental e os riscos naturais.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Laura Soares Summavielle: republicana fafense de dimensão nacional

Única imagem que se conhece de Laura Summavielle
Numa época em que dominavam os homens, em Fafe salientou-se uma mulher de elevado gabarito e que atingiu dimensão nacional. Porventura pela sua fortuna e por ter sido esposa de um republicano de antes quebrar que torcer: o Dr. José Summavielle Soares, que foi presidente da Câmara na I República, introdutor da electricidade em Fafe, criador do Teatro-Cinema de Fafe e administrador e proprietário da Fábrica do Bugio. Mas também porque ela própria se imbuiu do mesmo espírito e da mesma ideologia e acabou por transformar-se numa das maiores defensoras da I República.
Falamos de Laura Soares d’Oliveira Summavielle, considerada uma figura destacada na defesa do republicanismo e dos direitos das mulheres, ainda antes da eclosão da revolução de 5 de Outubro de 1910.
Nasceu em Fafe, na rua Monsenhor Vieira de Castro, em 23 de Março de 1879, filha de João Soares de Oliveira, farmacêutico no Hospital e de Joaquina Mendes da Costa, doméstica.
Laura Summavielle nasceu no seio de uma família abastada, cuja fortuna foi construída no Brasil e aos 24 anos casou com o advogado José Summavielle Soares, também ele de uma família de fortuna, por via do seu avô José Florêncio Soares, “brasileiro” que foi presidente do município, promotor da construção do Hospital da Misericórdia e fundador da Fábrica do Bugio (1873).
O marido, José Summavielle Soares, foi quem proclamou a República, das varandas dos Paços do Concelho, em 9 de Outubro de 1910.
Casa Summavielle, na rua Monsenhor Vieira de Castro,
onde Laura Summavielle viveu com seu marido e numerosa prole
Dentro desse espírito ideológico, actuou Laura Soares d’Oliveira Summavielle, mãe de uma plêiade de dez filhos: 4 mulheres, Laura (futura esposa do Dr. Maximino de Matos), Maria Margarida (casada com Augusto da Cunha Mendes), Alice (casada com o Dr. Alexandre Freitas Ribeiro) e Soledade (a maior poetisa fafense, casada com João Camilo), e 6 filhos varões, José, João (casado com Maria Miquelina Martins Campos), Miguel (falecido em 1945 com 30 anos), Luís (casado com Maria Adélia Félix da Costa), Fernando e Elísio Summavielle Soares (casado com Maria de Lourdes Costa Santos).
Sempre que se assinalava a data comemorativa do 5 de Outubro, Laura pendurava na sacada da sua habitação a bandeira nacional, mesmo nos momentos mais adversos, como sucedeu por altura do sidonismo (1918).
Laura Summavielle pertenceu à Cruzada das Mulheres Portuguesas, tendo sido dirigente da subcomissão de Fafe.
Durante a I Grande Guerra Mundial, promoveu projectos de assistência às crianças e às mulheres.
Isabel Cluny, no Dicionário Feminino (séculos XIX e XX), escreveu que Laura Summavielle “parece ter-se empenhado bastante neste trabalho, cuja vertente de assistência social deixava antever a propaganda feminina republicana”.
Laura Summavielle manteve-se intransigente na defesa dos ideais republicanos, mesmo durante o Estado Novo, em que não deixou de exigir o seu direito de voto nas eleições presidenciais e continuou a hastear bandeiras republicanas na sacada da sua residência e no Teatro-Cinema, em frente, ambos na rua Monsenhor Vieira de Castro.
Traseiras da mesma belíssima casa brasileira, edificada em 1862
Altruísta e bairrista, amante da sua terra, forneceu, de uma pereira que possuía no lugar de Pardelhas, toda a pedra para acabar de levantar a Igreja Nova de S. José, que como se sabe começou em 1895 e apenas foi sagrada em 1961. Isto, além dos donativos que deu para a mesma igreja, e que terão sido vultosos.
Faleceu em 14 de Abril de 1971 (dois anos depois do marido e, curiosamente, dois dias antes do seu genro Dr. Alexandre de Freitas Ribeiro, que contava apenas 64 anos de vida), com 92 anos, em perfeita lucidez, apesar da provecta idade, depois de ter viajado por diversos países europeus, “sozinha ou acompanhada por amigas, o que era pouco vulgar na época as mulheres fazerem” (Fátima Mariano).
Por altura do falecimento, o semanário local O Desforço, escrevia que a saudosa senhora era uma pessoa muito viajada, inteligente e culta. “A senhora D. Laura Summavielle era uma pessoa expansiva, alegre, comunicativa e com veia poética. Os seus versos, que ela por vezes improvisava, tanto em família, como entre pessoas amigas, faziam um livro. Dizia os seus versos para dar expansão à sua alegria, pois era uma senhora alegre e bem disposta” – acrescentava o periódico.
Era além de tudo uma senhora muito caritativa, nunca se esquecendo dos seus pobres do Asilo, da Conferência de S. Vicente de Paula, dos doentes do Hospital e outros necessitados.

Bibliografia: “Em Defesa da República”, de Fátima Mariano, Jornal de Notícias, 4 de Setembro de 2010, p. 11; Fafenses nascidos no século XIX – Perspectiva Histórico-Biográfica, 2ª edição, de Luís Gonzaga Ribeiro Pereira Silva, ed. Câmara Municipal de Fafe, 2010, pp. 160-161; Fafe dos “Brasileiros” (1860-10930): perspectiva histórica e patrimonial, de Miguel Monteiro, 1991, pp. 192-196; O Desforço, 22 de Abril de 1971.

Estamos entregues à bicharada

1. Tal como se antevia, o primeiro-ministro José Sócrates apresentou a sua demissão, a meio da passada semana, após o clamoroso chumbo do PEC 4, na Assembleia da República, abrindo uma crise política que vai durar alguns meses até à realização de eleições antecipadas, em 5 de Junho. Crise que acaba por agravar seriamente a delicadíssima situação económica em que estamos mergulhados, depois de anos a viver à tripa forra. Como um guerreiro que não dá a batalha por perdida, nas circunstâncias mais adversas, afirmou logo, convictamente: “eu vou, mas eu volto”! Só o futuro dirá se fez bem ou mal. É claro que o país está farto de Sócrates. Um Sócrates determinado, patriota, lutador pelas causas em que acredita, ninguém duvida, mas um Sócrates também enredado em escândalos demasiados, prepotente, arrogante, injusto politicamente, fraquíssimo perante os fortes, que o mesmo é dizer, o sistema financeiro, os potentados económicos, fortíssimo perante os mais pobres e despossuídos. Um Sócrates vaidoso e petulante que muitos portugueses querem ver pelas costas.
Ninguém nega ao ex-inquilino de S. Bento as qualidades de carácter que fizeram dele um primeiro-ministro razoável durante alguns anos, com pretensões a ficar na “História” por boas razões (presumíveis reformas, a maioria forçadas e impostas, em diversos sectores, que foram feitas contra os alegados “interesses instalados”, sejam os professores, os médicos, o funcionalismo público e outros sectores que nunca haviam sido tão achincalhados nas suas carreiras como durante o seu consulado …), mas que se enredou em contradições, paradoxos e iniquidades que desembocaram na inevitabilidade do seu despedimento, curiosamente no dia a seguir ao badalado acordo com parte dos parceiros sociais visando, entre outras medidas, facilitar os despedimentos. O primeiro a ser despedido foi precisamente o governo, para comprovar que o dito acordo funciona!
Após a sua demissão e a marcação de eleições para daqui a dois meses, fala-se hoje, nos diversos meios, de José Sócrates quase como passado irrevogável, o que não deixa de ser caricato, até porque o executivo continuará em funções de gestão até ao final de Junho, ou seja, pelo menos nos próximos três meses.
Não há dúvida que só um milagre fará com que José Sócrates continue, penalizando as suas manias, a sua imagem obsidiante, o seu desgaste, o seu deserto de esperança, o exagero da sua pose plástica e muitas vezes artificial.

2. Mas se José Sócrates é mau, nesta conjuntura, Passos Coelho será certamente pior. Ele é igual a Sócrates na vaidade, na petulância, no arrivismo, no aparelhismo, na ambição desmesurada. Mas é muito pior que Sócrates: porque não tem experiência governativa, não demonstra segurança no que diz e no que faz, apesar de disfarçar o contrário, é dissimulado e fingido, não inspira a mínima confiança a não ser aos apaniguados. É evidente que vai tirar proveito de um Sócrates “queimado” por medidas impopulares, sobretudo nos cortes de ordenados e pensões, mas rapidamente será ele próprio sacrificado no altar de outras medidas mais gravosas que inevitavelmente vai ter de tomar, se os portugueses o elegerem para comandar os destinos da Nação. Disso não tenha a menor ilusão.
Começa mal, quando avança para imediato aumento de impostos, como o IVA generalizado, apesar do truque de afirmar que não engana ninguém, como se a semântica fosse o mais importante para a boca dos portugueses.
Começa pessimamente quando propõe a abolição da avaliação dos professores, nesta altura do ano, com a maior incoerência e com a maior sofreguidão de poder. Para ser simpático e populista, como é óbvio!...
E fica-se siderado quando se fica a saber que Passos Coelho reprovou o PEC 4, “não porque foi longe de mais, mas porque não vai suficientemente longe para obter resultados na dívida pública”. Por esta breve amostra se pode ficar com uma ideia do que espera os portugueses se elegerem Passos Coelho. Vai aumentar impostos e retirar o 13º mês aos trabalhadores, seguindo a “cartilha” desse emérito democrata António Vodafone Carrapatoso. Vai alienar parte da Caixa Geral de Depósitos. Vai vender o que ainda houver para alienar. Vai “emagrecer” e “reduzir” o Estado, despedindo funcionários públicos; acabar com o pouco que resta do Estado Social; privatizar a saúde e a educação, deixando o sector público para os mais pobres, mas com a pior qualidade.
Os portugueses não podem esperar milagres deste líder apresentado como “um homem invulgar” (em quê, Felícia Cabrita?) que vai vender a maior demagogia nos próximos meses!

3. Ou seja, estamos entregues à bicharada. Como afirmou por estes dias o ex-ministro das Finanças Campos e Cunha, “estamos a viver um filme de terror em que o drácula culpa a vítima de lhe sugar o sangue”.
Vivemos dias de dramático, obsessivo e cansativo pingue-pongue: saber quem tem a culpa de abrir a crise; quem chumbou o PEC ou quem queria agravar a condição de vida dos portugueses; saber quem deve chamar o FMI, se o governo, que tem toda a legitimidade, ou o Presidente da República, que chuta a bola para canto. E andamos nisto entretidos, com as malfadadas agências de rating, todas sedeadas, por mero acaso, nos EUA e instrumentos da vontade americana de arrasar o euro, a dar directrizes à porcaria dos “mercados” especuladores, para ir acabando com as economias mais frágeis, para chegar às mais fortes. A estratégia é essa.
Mas enquanto não chega o FMI, e rasga a direito, sem contemplações, vamo-nos preparando para as eleições, com o habitual folclore, o bacalhau a pataco, as promessas para (não) cumprir, a demagogia à maneira, os hinos, as bandeiras, os tempos de antena, a animação habitual, porque para foguetes tem de haver….
É Portugal no seu melhor!...

(Ler no Correio do Minho de hoje, 4 de Abril)

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Mentiras, mentiras, verdades

José Sócrates não encenou a sua saída de primeiro-ministro, por saber que o défice iria disparar, descontroladamente.
O mesmo que (não) tinham feito António Guterres, medrosamente, quando lobrigou o célebre "pântano" e Durão Barroso, finoriamente, quando viu acenarem-lhe com 25 000 euros mensais de Bruxelas, quando o que ganhava em S. Bento era problemas acrescidos...
Cavaco Silva não premeditou um discurso violentíssimo contra Sócrates, na sua tomada de posse, dando origem à grave crise política que se soma à crise financeira, que nos há-de levar à bancarrota.
Ninguém teve em consideração que as eleições podem deixar tudo na mesma, o que significa muitíssimo pior, pois os juros não param de subir a cada dia que passa e qualquer dia não há futuro que aguente…
Pedro Passos Coelho não tem a obsessão de ser primeiro-ministro, a todo o custo, nem vai aumentar o IVA, nem privatizar parcialmente a Caixa Geral de Depósitos, nem acabar com o "Estado Social", porque ele simplesmente já não existe, nem sequer enquanto conceito. Sócrates encarregou-se de lhe dar as machadadas finais.
Vão ser suspensas as malfadadas parcerias público-privadas e os ordenados pornográficos dos gestores públicos e privados vão ser drasticamente reduzidos, enquanto os lucros escandalosos da banca e das grandes empresas sofrerão os devidos impostos.
A ética sobrelevará a conveniência. Os princípios e os valores serão bem mais importantes que a mera política.
A porcaria dos "mercados" é uma invenção americana para acabar com a zona euro. As chamadas agências de rating, todas sedeadas, por mero acaso, na América, são indubitavelmente o instrumento visível para essa ignominiosa tarefa: os Estados Unidos não perdoam que a União Europeia possa constituir um bloco económico independente e soberano. Tudo fará para arrasar o euro e colocar a Europa sob a sua órbita.
Bush ou Obama: os propósitos são os mesmos, a estratégia idêntica, os fins similares. Não há que fingir acreditar em milagres!... Estão todos contra a Europa, a começar pelas economias mais frágeis, para chegar às mais fortes.
Não estamos tramados: vêm aí eleições, com o habitual folclore, o bacalhau a pataco, as promessas para cumprir, os postos de trabalho para garantir, os hinos, as bandeiras, os tempos de antena, a animação costumeira.
Viva Portugal!...