A conhecida actriz portuguesa Lia Gama afirmou, recentemente, numa revista, que é “completamente a favor da eutanásia”. Sustentou que “não há direito de prolongar a vida de uma pessoa que não tem vida, que está imobilizada numa cama, com doenças terminais”.
Vem a propósito referir que tive a oportunidade, há uns dias, de participar num debate sobre esta matéria, promovido por cinco alunos da turma 12ºB da Escola Secundária e no qual interveio também o Padre José Peixoto Lopes, com posições muito abertas e que em muitos casos se aproximavam das que defendi.
Seguem-se algumas notas que deixei no aludido debate:
- Comecei por felicitar o grupo de alunos que organizou este debate sobre temas tão polémicos, fracturantes, inquietantes como a eutanásia, o testamento vital, etc. - Partilhei as minhas dúvidas, as minhas hesitações, até a minha incomodidade perante estes temas
- Eu não sei exactamente se sou a favor, ou contra, ou antes pelo contrário. Não me sinto muito à vontade perante estes temas, que não fazem parte das minhas inquietações diárias
- Tenho uma opinião, como toda a gente. Apenas teórica, porque nunca se me colocou nenhuma situação daquele teor. Nalguns casos, pouco convicta.
Respeito escrupulosamente quem tem opinião contrária.
- Neste universo não há verdades absolutas, certezas de qualquer espécie.
Há uma dor de estômago quando se tem de encarar aquela situação
- Há conceitos e preconceitos, muitas vezes ditados por fundamentos religiosos, por alegadas razões médicas ou até por alguma ignorância – que todos temos.
- Falar destas coisas é entrar no campo das consciências, do que é mais íntimo e sagrado em cada um de nós.
- As decisões nestes campos – a favor ou contra – são absolutamente legítimas, devem ser respeitadas até ao fim, quando a pessoa que as toma está no uso da plenitude das suas capacidades intelectuais
- Entendo a eutanásia como meio de atalhar o sofrimento de vítimas de doenças incuráveis ou terminais
- Há quem lhe chame “morte bonita”, “morte feliz”, “direito a morrer com dignidade”; “suicídio assistido” ou “morte voluntária”.
- O sofrimento e a dor humanas são algo que me choca e me aterroriza. E julgo que não há razão para prolongar o sofrimento quando se esgota a esperança de uma vida com alguma consciência e a mínima qualidade.
- Não entendo que seja humano perpetuar uma vida vegetativa (distanásia), em nome de princípios que podem não ser os mais correctos .
- Entendo que um paciente, no uso das suas faculdades intelectuais, tem todo o direito a escolher o seu futuro. Por muito que nos custe, temos de respeitar.
- Algumas vezes, perante um caso terminal ou irreversível, pesa mais o egoísmo da família, do que o interesse ou o direito do doente.
- Há ainda uma realidade nova em Portugal que é o testamento vital, aprovado no Parlamento em 28 de Maio de 2009, vai fazer agora dois anos, com os votos do Partido Socialista e Partido Comunista Português, a abstenção do Bloco de Esquerda e o voto contra do PSD, do CDS-PP e de uma deputada socialista.
Um testamento vital é um documento em que consta uma declaração antecipada de vontade, que alguém pode assinar quando se encontra numa situação de lucidez mental para que a sua vontade, então declarada, seja levada em linha de conta quando, em virtude de uma doença, já não lhe seja possível exprimir livre e conscientemente a sua vontade.
- O que se assegura através destes documentos é a "morte digna", no que se refere à assistência e ao tratamento médico a que será submetido um paciente, que se encontra em condição física ou mental incurável ou irreversível, e sem expectativas de cura.
- No fundo, do que se trata é um cidadão poder pré-determinar se quer ou não que os médicos prolonguem artificialmente a sua vida naquelas condições.
- Em resumo, uma nota final:
Ninguém diga que a sua opinião sobre estas matérias é sagrada, definitiva e irretorquível.
Por mim, sinto-me mais incomodado que feliz, porque sobram as dúvidas, as inquietações, o desassossego, o terreno movediço, e falham as certezas que dão cor à vida.