sexta-feira, 15 de julho de 2011

O “Lixo” do capitalismo selvagem

1. Na terça-feira negra da semana passada, a agência de notação financeira (rating) Moody’s decidiu baixar a dívida portuguesa ao nível de “lixo”. O que significa que a mera opinião desses especuladores fornecida aos capitalistas, vulgarmente apelidados de “mercados”, é que o risco do dinheiro emprestado a Portugal está no máximo, ou que a probabilidade de o nosso país saldar as suas dívidas e os seus compromissos a tempo e horas é mínima.
O coro de protestos, mais ou menos emocionais, em Portugal, não se fez esperar. O primeiro-ministro referiu que o corte do “rating” constituiu um “murro no estômago”, outros falaram em decisão “infeliz”, “injustificada” ou “surpreendente”. Outros ainda, com toda a pertinência, apelidaram aquela criminosa notação, de “arrogância, ignorância e superficialidade”, até porque parece não levar em linha de conta o memorando assinado pelo país com a chamada “troika” e até as bárbaras medidas decretadas por Passos Coelho, que vão exigir enormes sacrifícios aos pobres trabalhadores portugueses, que não provocaram a crise, não levaram à falência de bancos americanos ou europeus, não decidiram a injustificável nacionalização do BPN, não se entretiveram na especulação financeira que empurrou o país para o pântano. Foram outros os culpados, a nível interno e externo. Mas como sempre acontece, são os trabalhadores e a classe média que pagam as crises: os mais ricos, ninguém os quer ou consegue incomodar; os mais pobres não têm por onde pagar. É dos livros.

2. É claro que as agências de “rating” fazem o seu trabalho, sujo, na sua maior parte. Ninguém coloca isso em causa. O que já se questiona, e sem qualquer margem para contemplações, é a credibilidade, a idoneidade, a isenção, a competência das agências de notação financeira que dominam o mercado. Além da nefasta Moody’s, as não menos perniciosas Standard & Poor’s e a Fitch. Curiosamente, todas americanas, embora uma delas também tenha capital francês. E é aí que bate o ponto: não deixa de ser inequívoco que estamos perante um execrável ataque concertado do dólar contra a zona euro. Dos americanos contra a União Europeia.
Porque, a imprensa tem-no provado: os Estados Unidos têm uma situação económica e financeira muito pior que a Europa. A dívida pública atinge quase os 100% do PIB (pouco menos que Portugal…). E Barack Obama continua a pressionar os líderes do Congresso americano, não para diminuir o défice, mas para “aumentar o limite da dívida”.
As ditas agências de “rating”, que davam a notação maior ao banco de investimentos Lehman Brothers (o quarto maior dos Estados Unidos), quando já se encontrava em situação de falência, o que acabou por espoletar a grave crise financeira mundial, em 2008, não se mostram preocupadas com a situação no seu próprio país. Porque o que interessa é destruir as economias europeias, em nome de um grosseiro capitalismo que não tem pátria, não tem rosto, não tem coração.
Porque as agências de notação financeira, ao darem as suas “notas”, não estão nem um pouco preocupadas com os imensos e às vezes irreparáveis estragos que vão produzir nas economias dos países. Cada “avaliação negativa” de uma economia, como a portuguesa, determina de imediato um aumento das taxas de juros da dívida, o que resulta no acréscimo dos custos do dinheiro, na falência de empresas e no despedimento de milhares de trabalhadores. No empobrecimento generalizado de um país. O que para as ditas agências não têm a mínima importância, como se comprova…
O que lhes interessa é ganhar dinheiro e fazer ganhar dinheiro aos seus clientes, sobretudo dos Estados Unidos. Não é por acaso que, enquanto as economias mundiais e as populações estão cada vez mais despossuídas e descapitalizadas, as ditas agências apresentam lucros fabulosos. Em 2010, a famigerada Moody’s aumentou em 95% a cotação em bolsa e registou um crescimento de 26%, correspondente a 354 milhões de euros de lucro. À custa da miséria alheia, que ajudou a criar…

3. Se há males que vêm por bem, parece que vai ser desta. A Europa acordou para a necessidade de combater a cartelização das agências americanas.
O presidente da República bem alertou que “as questões em torno da avaliação do risco e da notação financeira dos estados-membros devem merecer uma resposta europeia”. Nos últimos dias, vários dirigentes políticos nacionais e europeus reforçaram a tese de que urge acabar com a pouca vergonha de ver a Europa subjugada ao “oligopólio” das agências norte-americanas. Por isso, admite, finalmente, pensar na criação de agências europeias independentes, que sustenham a destruição da economia europeia pelas meras “opiniões” ou “avaliações” de quem tem vantagens financeiras nas mesmas. Como um árbitro que tem interesses numa das equipas em jogo!...
Também importa que as instituições comunitárias deixem de dar importância ao que importância não merece ter: as alegadas “notações financeiras”, que já se demonstrou serem falaciosas, fraudulentas, interesseiras e assassinas da economia europeia!...
As agências de notação financeira são hoje um dos expoentes máximos do capitalismo financeiro selvagem, que vive vampirescamente de sugar o sangue das economias mais frágeis, provocando sofrimento sem conta nos governos, nas empresas e nas pessoas. Nada disso lhes importa.
São o “lixo” moral do século XXI!...

(Texto publicado na rubrica "Escrita em Dia" do semanário Povo de Fafe, de 15/07/2011)

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Kairos apresenta "Entre Fados" na Biblioteca Municipal de Fafe



A Kairos – Produções Culturais apresenta no próximo dia 21 de Julho [5ª feira] pelas 21h30, no auditório da Biblioteca Municipal de Fafe, o concerto ‘entre fados’ - onde os poetas e os músicos que marcam a história do Fado se dão a conhecer pelo trabalho dos intérpretes.
A Kairos propõe que, pelo experimentar deste espectáculo, o público (re)visite lugares da memória através das palavras e sons que mantêm vivo um dos ex-libris da nossa cultura, candidato a Património Cultural Imaterial da Humanidade (UNESCO). A responsabilidade do espectáculo está a cargo de Joaquim Ventura [guitarra portuguesa], Celso Ribeiro [viola de fado] e Celina Tavares [voz], com a participação especial de José Miguel Costa [piano]. O concerto tem a duração aproximada de 60 minutos [Classificação: M/3]. Os bilhetes [3€] encontram-se à venda no Posto de Turismo de Fafe.
Mais informações em: http://entrefados.blogspot.com.
A Kairos - Produções Culturais pretende assim iniciar a promoção de espectáculos cuja série é denominada Outros palcos e que têm em vista realizar espectáculos em palcos menos habituais, salas mais pequenas, aproximando assim um pouco mais os músicos do público.
Para Setembro, está prevista a realização de um concerto de piano.

14º Encontro de Emigrantes Fafenses realiza-se em 5 de Agosto

À semelhança do que vem ocorrendo sistematicamente desde há mais de uma década, a Câmara Municipal de Fafe volta a organizar o tradicional Encontro de Emigrantes Fafenses, visando juntar em salutar convívio os cidadãos naturais do concelho que deixaram a sua terra e se encontram espalhados pelos quatro cantos do mundo, em especial na Europa e no Brasil.
A décima quarta edição do Encontro de Emigrantes Fafenses realiza-se no dia 5 de Agosto, sexta-feira.
A concentração começa pelas 19h00, na Casa Municipal de Cultura, com a visita à exposição sobre a emigração (Fafe na Emigração) e ao Museu da Imprensa de Fafe, para os participantes que o pretendam.
Segue-se o jantar de confraternização entre todos os que a ele se queiram associar e que se realiza no Jardim do Calvário, a partir das 20h00. Nele marcam habitual presença o presidente da Câmara, José Ribeiro e vereadores do Executivo, além de dirigentes associativos ligados à emigração.
As inscrições para o evento estão abertas até ao próximo dia 22 de Julho, podendo ser efectuadas directamente na Casa Municipal de Cultura, remetidas para o fax 253 700 409 ou para o endereço de correio electrónico decd@cm-fafe.pt.
O Encontro de Emigrantes Fafenses culmina com um espectáculo musical na Arcada, a partir das 22 horas, a cargo do grupo local Aronis Show.
Na edição anterior, marcaram presença no evento mais de três centenas de emigrantes fafenses.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Festas de Antime animaram a cidade de Fafe com grandes números

A cidade de Fafe viveu estes últimos três dias as tradicionais Festas em honra de Nossa Senhora de Antime, adoptadas desde há muito como as festas do concelho.
Na sexta-feira, as coisas não correram pelo melhor, devido às condições climatéricas desfavoráveis, pesem as boas prestações dos jovens cantores do programa “Uma Canção para Ti” amigos da nossa Margarida Costa e a revelação fafense do “Progecto Aparte” (banda de Fornelos). Os fados foram cantados no Teatro-Cinema, numa boa alternativa para a chuva que se fazia sentir na cidade.
A noite de sábado, juntou alguns grupos folclóricos na Praça 25 de Abril, num bom espectáculo promovido pela Rancho Folclórico de Fafe e que acabou por juntar uma boa mole humana, dada a noite agradável que se fez sentir.
A partir das 22h30, a Praça Mártires do Fascismo registou uma agradável assistência para assistir a um excelente espectáculo de uma das revelações musicais portuguesas dos últimos meses, os “Deolinda”, da cantora Ana Bacalhau.
Seguiu-se um magnífico espectáculo de água, música, luz e pirotecnia, “Águas Dançantes” que a organização teve o bom gosto e o bom senso de colocar na mesma praça onde tinha acabado o concerto principal das festas.
Domingo foi o dia maior das festas, como é sempre.
Indubitavelmente, a procissão que, pela manhã, enxameia a estrada e ruas entre a igreja paroquial de Antime e a Igreja Nova de S. José, na cidade, constitui a maior demonstração de religiosidade, de fé e de sacrifício que seja possível imaginar. A procissão é porventura o maior ajuntamento de pessoas que acontece em Fafe, sendo a manifestação humana mais participada, por incontáveis milhares de romeiros.
Este ano não fugiu à regra e a tradição cumpriu-se religiosamente. Está tudo dito.
O resto já se conhece e se reitera: um incrível ritual da fé imensa, da devoção incontida, da emoção que toma os corações de milhares e milhares de romeiros que serpenteiam as estradas e ruas de Antime para Fafe, muitos descalços (o que acontece com os pegadores do andor), seja para cumprir promessas feitas em momentos de desespero e de perdição, esgotados outros meios humanos ou científicos, normalmente relacionados com doenças ou “apertos” na vida individual ou familiar, seja “porque gostam” de ir na procissão, por fé e sentido de espiritualidade.
Momento comovedor da procissão é o que se passa sobre a ponte de S. José, no encontro das comitivas que vão de Fafe para Antime e de Antime para Fafe e se encontram e saúdam no meio de milhares incontáveis de fiéis e de curiosos, na fronteira entre as duas paróquias limítrofes. É o encontro amistoso da imagem de Nossa Senhora de Antime e da imagem de Nossa Senhora das Dores, ida de Fafe, com os respectivos “séquitos”. O momento alto acontece quando as imagens se postam frente a frente e fazem uma pequena vénia mútua, em sinal de saudação, momento de emoção e até lágrimas de romeiros mais sensíveis, saudado com palmas e “vivas” e o estralejar de foguetório, de alegria pela visita de uma imagem mariana extremamente querida às gentes fafenses.
O cumprimento das duas imagens, no limite das freguesias, deve ser entendido como a afirmação de um gesto protocolar de recepção e boas-vindas por parte de Fafe à sua convidada de Antime. A partir daí a Senhora é de Fafe. Ainda que por algumas horas, até ao final da tarde, dado que tem de entrar na igreja de Antime antes do sol por.
Enfim, o que surpreende, numa altura de acentuada secularização e afastamento da Igreja por parte de muitos cidadãos, é que, anualmente, o número de participantes na procissão não diminui, antes pelo contrário, numa manifestação acrescida de fé e religiosidade popular.
No domingo à noite (em vez da segunda-feira), pela primeira vez nos últimos anos, realizou-se a majestosa marcha luminosa pelas ruas da cidade.
Antes desse momento, e durante 20 minutos, a partir do Jardim do Calvário, uma brilhante e esplendorosa sessão de fogo de artifício encantou milhares de pessoas que se espalharam pelas ruas centrais da cidade. Foi uma das sessões mais conseguidas dos últimos anos.

Seguiu-se a tradicional marcha luminosa, que este ano atingiu grande nível, com cerca de uma dezena de carros alegóricos e uma soberba participação de grupos locais como a Associação Cultural e Recreativa e Social de Regadas, o Rancho Folclórico da Casa do Povo de Silvares S. Martinho e a secção de patinagem artística do Grupo Nun’Álvares.
De resto, interessantes carros alegóricos, grupos de samba (se calhar, dispensáveis), fanfarras, grupos folclóricos e diversos números que animaram os “festeiros” durante mais de uma hora.
Está de parabéns globalmente a Naturfafe que teve o apoio do município e de instituições locais.

Fotos: Manuel Meira Correia

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Insubmissão – Resistência ao Salazarismo em livro memorialista de Eduardo Ribeiro

O salão nobre da Sociedade Martins Sarmento, na vizinha cidade de Guimarães, foi palco, há dias, do lançamento da obra Insubmissão – Resistência ao Salazarismo (não apaguem a memória), do engenheiro Eduardo Ribeiro, uma publicação da Chiado Editores. Eduardo Ribeiro, que faz o favor de ser meu amigo, convidando-me para o evento, é um dos últimos abencerragens do que se convencionou apelidar de oposição anti-fascista.
Largas dezenas de amigos e “companheiros de estrada”, vindos de diversas cidades, desde Guimarães a Fafe, Braga e Vila Nova de Famalicão, entre outras, marcaram a sua presença afectuosa nesta sessão que teve na mesa de honra, para além do conhecido e reconhecido autor, o presidente da Sociedade Martins Sarmento, António Amaro das Neves e o autor do prefácio, ilustre investigador e anti-fascista famalicense Artur Sá da Costa, meu amigo de há muitos anos.

Mesa que presidiu ao evento: Amaro das Neves, Eduardo Ribeiro e Artur Sá da Costa
A obra apresenta-se opulenta, de rico conteúdo informativo, nas suas 400 páginas, que compaginam e resumem a visão do autor sobre os negregados anos do Estado Novo, por ordem cronológica e da luta insana e corajosa dos democratas de diversas tendências para desalojarem o regime que ninguém queria, com base nos apontamentos e elementos que foi coleccionando ao longo da sua luta, a que somou outros colhidos em literaturas que foram sendo tornadas públicas depois do desaparecimento formal do salazarismo.
Na sua génese, segundo o autor, está a indignação face ao controverso programa que a RTP realizou em 2007 para eleição do melhor português de sempre e que elegeu António de Oliveira Salazar, enquanto Aristides de Sousa Mendes, uma das suas mais conhecidas vítimas, se quedou, na sequência da opinião dos votantes, por um mero lugar entre os dez primeiros.
O autor, Eng. Eduardo Ribeiro, lendo um texto sobre o seu livro
Eduardo Ribeiro, opositor inveterado ao anterior regime, indignou-se e sentiu-se insultado, como tanta gente honrada neste país ante tamanha infâmia e resolveu então escrever um conjunto de crónicas no semanário O Povo de Guimarães sob o título “Resistência ao Salazarismo”, começando exactamente pela história de Aristides de Sousa Mendes. As crónicas foram publicadas entre 26 de Fevereiro de 2007 e Outubro de 209, somando mais de uma centena. A reunião do seu conteúdo nesta obra, serve para votar no sentido de que a memória se não apague. É essa a intenção da sua publicação em livro.
A obra abre com um grande e delicioso prefácio de Artur Sá da Costa, sobre os “democratas de Braga”, designação dos resistentes que combateram com coragem e desassombro o salazarismo e o caetanismo e que incluem nomes honrados como Lino Lima, Victor de Sá, Armando Bacelar, Emídio Guerreiro, Miguel Ferreira, Santos Simões, Eduardo Ribeiro, Humberto Soeiro, entre muitos outros. Diz Sá da Costa, que os “democratas de Braga”, hoje “são uma legenda viva, uma referência nos anais da história das lutas políticas contra o Estado Novo”.
Aspecto da assistência ao lançamento da obra
A obra desenvolve-se cronologicamente desde a Ditadura Militar de 1926 ao 25 de Abril de 1974, destacando acções, movimentos e homens que ficam na história pela sua determinação em favor da Liberdade e da Democracia.
Ao longo das páginas, há referências aos lutadores de Fafe, em especial ao Major Miguel Ferreira.
Insubmissão – Resistência ao Salazarismo (não apaguem a memória) é um livro de grande interesse para o conhecimento do Portugal do século XX, entre os anos 20 e os anos 70. Está lá tudo, em especial a luta política dos oposicionistas.

Admiro profundamente e incenso os bravos lutadores contra o fascismo, intrépidos combatentes pelas nobres causas da libertação do povo português do jugo fascista.
No distrito de Braga, eles tiveram nomes honrados e que merecem ser alvo da nossa homenagem e gratidão. Eduardo Ribeiro é um dos últimos abencerragens dessas gerações de portugueses de primeira escolha.
Este livro entra nessa linha de memória e reconhecimento aos lutadores que gastaram a sua vida em prol de um povo livre, solidário e democrático, que foi resgatado pelos capitães em 25 de Abril de 1974.
Os meus mais profundos parabéns ao seu autor e amigo!

Fotos: Dr. Amadeu Gonçalves

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Camilo Castelo Branco andou fugido por Fafe há século e meio

O notável romancista Camilo Castelo Branco, consagrado autor de Amor de Perdição, está ligado a Fafe, por diversos laços. Desde logo, através do seu íntimo amigo e confidente José Cardoso Vieira de Castro, proprietário da Quinta do Ermo, em Paços, a quem devotou uma estima imensa e de quem foi confidente insuspeito, apesar da diferença de idades entre os dois (13 anos). Camilo nasceu em 1825 e José Cardoso em 1838.
Como homenagem a Fafe, o “Torturado de Ceide” escreveu o romance Mistérios de Fafe (1868), bem como as duas peças de teatro O Morgado de Fafe em Lisboa (1861) e O Morgado de Fafe Amoroso (1865). O nosso concelho ficou assim perpetuado na extensa bibliografia de um dos maiores vultos da literatura portuguesa contemporânea, ainda hoje estudado e justamente valorizado, pela sua indesmentível singularidade.
Mas Camilo não fala apenas de Fafe, na sua obra, homenageando a terra do seu grato amigo Vieira de Castro. Ele mesmo, em pessoa, esteve em Fafe, em circunstâncias dramáticas, é certo: fugindo à justiça. Estávamos em 1860. O romancista tomou-se de ardentes amores por Ana Plácido, esposa do abastado comerciante portuense Manuel Pinheiro Alves. Na altura, o adultério era crime punido com a pena de degredo temporário, quer para o réu, quer para o co-réu adúltero.
José Cardoso Vieira de Castro, aqui na companhia da jovem mulher Claudina Guimarães, que ele mais tarde assassinaria
Denunciado por Pinheiro Alves, Camilo viu-se obrigado a fugir aos aguazis que o queriam aprisionar. Primeiro, escondeu-se na Samardã, em casa da irmã; depois, em Vila Real. No jogo do gato e do rato com os oficiais da justiça, passou em seguida por Guimarães e pelas Caldas das Taipas, de onde rumou para Fafe, numa altura em que estaria iminente a sua detenção. Aqui esteve um mês escondido, entre Junho e Julho de 1860, na Casa do Ermo, na companhia de José Cardoso, numa altura em que este foi “riscado perpetuamente” da Universidade de Coimbra, por se ter envolvido em mais uma encrenca, em que era tão afeito. Em 1 de Outubro seguinte, Camilo entregar-se-ia voluntariamente à prisão e seria absolvido um ano depois.
Dessa experiência de perseguição e fuga, Camilo deixou-nos páginas deliciosas, no livro Memórias do Cárcere (1862), obra escrita enquanto se encontrava prisioneiro na cadeia da Relação. Vamos segui-lo durante algumas páginas.
Escreve Camilo sobre a morada de José Cardoso Vieira de Castro:

A quinta do Ermo está situada no ponto mais despoético e triste do mapa-múndi. A casa é magnífica: mas os caminhos que a ela vos conduzem são algares, barrocais, trilho de cabras, vielas tortuosas, e aspérrimos desfiladeiros. Os pinhais e arvoredos, que orlam parte da quinta, são enfezados e desgraciosos. Os largos pontos de vista, assim mesmo monótonos, é preciso ganhá-los com grande fadiga de subida. A vizinhança do Ermo são casinhas de jornaleiros, que vieram ali procurar a sombra do afidalgado edifício. (…)
Casa do Ermo, datada de 1805
O escritor relembra que nessa casa nasceram o desembargador Luís Lopes Vieira de Castro e o Ministro dos Estrangeiros e da Marinha António Manuel Lopes Vieira de Castro. E comenta, sibilino: Ora vão lá inferir do local onde o homem nasce os destinos para que nasce! Daquela natureza tão agra do Ermo, daquelas duas crianças, que por ali se criaram entre matagais, quem daria agouro de saídas tão excelentes?.
Camilo aborda depois a relação dos Vieiras de Castro com o jogo do pau, gabando a sua valentia e as suas façanhas, sobretudo nas festas de Antime. Ouçamo-lo:
                  
                   É de saber que Luís Lopes, António Manuel, e José Vieira (pai e tios de José Cardoso), foram, em anos verdes, três denodados jogadores de pau, e tamanho terror incutiram nas cercanias de Fafe que bastaria a qualquer deles, para vencer a sua, mandar o pau e não ir, como o rei da Suécia fazia às botas. As mais memorandas façanhas dos Vieiras de Castro tinham o seu teatro na celebrada romaria da Senhora de Antime.

José Cardoso é que parece ter degenerado desta tradição de valentes manejadores do pau de marmeleiro. Vejamos o que nos diz Camilo a propósito desta faceta do seu amigo:

O meu amigo Vieira de Castro, no que toca a jogo de pau, é o invés completo de seus tios. José Vieira, quando fala dele, diz: «Isto não presta para nada: não tem mais força que um canário”.
Se vinha a talho eu florear um marmeleiro inofensivo diante do meu amigo, para logo exclamava ele: «Está quieto, olha que me dás!»

Camilo Castelo Branco fala depois no Rio Vizela, que corre a pouca distância do Ermo e da Ponte do Barroco, onde o excelente romancista mas fraco poeta escreveu duas quadras.
Ponte do Barroco, ligando Golães e Fornelos
                   Ao fundo de uma colina, sobre a qual assenta a casa de Vieira de Castro, serpenteia uma ribeira de claras águas, que vão juntar-se ao Ave. As margens penhascosas deste córrego eram o nosso passeio de forçada predilecção, que não tínhamos outro.
Há naquele ribeiro uma catadupa em que a torrente referve, estrondeia, e quebra com grande fragor numa bacia eriçada de rochas. As árvores marginais enredam-se em pavilhão escuro sobre a bacia, deixando pequenas margens de relva sobre escamos de granito em que nos sentávamos, eu, pelo menos, enquanto Vieira de Castro dialogava em estilo de Fafe com a moleira da vizinha azenha. Denomina-se o pitoresco sítio a Ponte do Barroco. Na minha carteira tenho oito linhas lá escritas no dia 15 de Junho de 1860. Diziam assim:

                        Ruge a tormenta espumosa.
                        Mas no mar serena entrou;
                        Tal a vida tormentosa:
                        Chega à campa, e serenou.

                        Triste imagem desta vida.
                        Que me Deus fadou a mim!
                        Diz-me, ó onda enfurecida,
                        Qual teu principio e teu fim?

Camilo informa também das suas idas à então Vila de Fafe, onde se encontrava com os cavalheiros da terra num “botequim” (seria o Bal Estevão, como parece rezar a tradição?):

                   Algumas vezes fui à vila de Fafe, cujos cavalheiros conheci no botequim da terra, estabelecimento indeciso entre o modesto e o sujo. Os cavalheiros alternavam as suas horas de ócio com o dominó e a sueca. Conheci aí o senhor José Maria Peixoto, moço de prestantes dotes, que exercia a administração do concelho, e o senhor Joaquim Ferreira de Melo, antigo e consecutivo deputado às cortes, e sujeito de muitos serviços à liberdade.

Como estamos próximo das Festas de Antime, terminamos com um apontamento recolhido das Memórias do Cárcere:

Romaria em honra de Nª Sª de Antime já vem de há séculos

A Senhora de Antime é de pedra, e pesa com a charola vinte e quatro arrobas. Os mais possantes moços da freguesia pegam ao banzo do andor. Aconteceu, anos há, ser um dos que puseram ombro ao andor mal visto dos outros, e de um principalmente. Ao dobrar de uma esquina o moço odiado sentiu-se vergar sob as vinte e quatro arrobas de pedra, e morreu instantaneamente esmagado. O principal inimigo do morto foi logo conhecido, e varado por uma choupada, que lhe fez espirrar o sangue e a vida à charola da imagem. Tirem disto a limpeza de consciência e religiosidade daqueles sujeitos, que ali vão dar testemunho de seu fervor, com a Senhora de pedra aos ombros!
Nesta romagem é que os Vieiras, em diferentes anos, quando moços, escreveram com um pau a sua crónica imorredoira.
A proposta que aqui deixo é para que os leitores interessados não deixem de ler esta saborosa obra autobiográfica Memórias do Cárcere, desse imortal escritor que foi Camilo Castelo Branco.

sábado, 2 de julho de 2011

Conhecer Fafe para o amar

Foto de conjunto, em Santa Rita
Há alguns dias, os alunos dos cursos EFA da Escola Secundária de Fafe, acompanhados pelos respectivos professores, percorreram o roteiro camiliano em Fafe.
Tive o privilégio de acompanhar e “guiar” a visita e fiquei surpreendido (ou talvez nem tanto…) pelo facto de diversos alunos, e até docentes, habitando em Fafe, nunca terem ido à Casa do Ermo ou a Santa Rita, ficando assim admirados pelo valor e pela beleza daqueles locais (e de outros que integraram o percurso, e de que daremos conta em futuro post).
Tal facto fez-me voltar a uma verificação antiga, qual seja a de que os fafenses não conhecem verdadeiramente a sua terra, não penetram na sua formosura, nos seus lugares de eleição, nos seus recantos de excelência natural, ou construída.
Muitos de nós vangloriam-se das viagens que fizeram a terras distantes, a locais exóticos, ou orgulham-se de terem visitado os museus de Paris, os monumentos de Madrid ou as catedrais de Varsóvia. O que é estrangeiro é que é bom, ao contrário do que a nossa publicidade tenta fazer acreditar! O que é internacional é que é bonito, atraente, digno de uma visita, para a concretização da qual muitos gastam o que têm e o que não têm, ao que se ouve dizer!
Mas não é isso o que está em causa, porque as finanças de cada um só a cada um dizem respeito. E se deve ou deixa de dever, não é a nós que compete pagar!
O que gostaria de deixar evidenciado nesta crónica é que não se entende que tantos dos que eventualmente nos lêem se ufanam de conhecer mundos e fundos, de terem ido para aqui e para acolá e não conhecem, afinal, a sua terra, o que está à sua volta. Viajam pelos países europeus ou americanos, em busca de emoções e de belezas importantes mas não descobriram ainda, não se sabe porquê, que em seu redor há inúmeros motivos de interesse a desbravar. Demasiados fafenses, por certo, já viajaram pelo mundo mas nunca saíram para fora cá dentro – passe a publicidade – ao encontro do que Fafe tem de singular e de belo e que, seguramente, não se consegue descobrir em outros lugares.
Quantos fafenses já visitaram a Torre Eifell mas nunca foram ver a Central Hidroeléctrica de Santa Rita, uma das mais interessantes montras de equipamentos de produção eléctrica dos primeiros anos do século XX?
Quantos já se deslocaram à Grécia, antes da crise, para descobrir o berço da civilização europeia, mas nunca quiseram saber dos primórdios da civilização fafense, patente nos monumentos megalíticos do norte do concelho, nas antas e nas mamoas, ou na civilização castreja, de que é paradigma o castro de Santo Ovídio, às portas da cidade?

À entrada da Quinta do Ermo, em Paços, falando de Camilo e de Vieira de Castro
Quantos fafenses – não residentes em Arões – já visitaram, por exemplo, a Igreja Românica da freguesia, único monumento nacional do concelho e – segundo os especialistas – um dos mais belos exemplares da arte românica do noroeste português?
Quantos já visitaram o Museu da Imprensa? Ou a Igreja Matriz? Ou o Solar da Luz? Ou as pontes medievais? Ou a memória de Camilo, patente em edifícios e lugares? Ou as magníficas paisagens de Moreira do Rei ou de Várzea Cova, ou os miradouros de São Salvador ou de Santa Marinha? Ou esse espectáculo de recuperação arquitectónica que é a Aldeia do Pontido, em Queimadela?
Muitos não conhecem minimamente a sua terra, mas fazem gala de já terem estado no Morro do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro ou de terem jantado na Quinta Avenida em Nova Iorque.
Todos têm direito, obviamente, a irem onde quiserem, desde que as possibilidades económicas o permitam. Entendo é que, paralelamente, não devemos deixar de conhecer o que está mais próximo de nós. Porque só se ama de verdade o que se conhece. E para gostarmos da nossa terra temos que a conhecer, em profundidade.
O apelo que faço é para que os fafenses comecem a descobrir e a apreciar melhor a sua terra, que tem muitas e muitas fontes de beleza e motivos de interesse. Aproveitem para isso as férias, os feriados, os fins-de-semana, as “pontes” e outras oportunidades de lazer. E sejam felizes!

(Texto publicado na rubrica "Escrita em Dia" do jornal Povo de Fafe, de 01 de Julho de 2011)