Porque é que me abandonaste, mãe, assim de repente, sem um sinal, um aceno, uma emoção, uma última palavra de despedida?
Como posso perdoar-te uma partida assim, súbita, radical, definitiva, absurdamente pungente, deixando-me inusitadamente mais pobre, mais vazio, como uma primavera sem andorinhas?
Porque é que me deixaste com uma dor tão funda no coração, uma noite escura de breu a toldar-me a alma, que não sei mesmo como ultrapassar?
Porque não me avisaste, mãe, que estavas cansada deste mundo, que te era insuportável a solidão, que desististe da vida desde que a tua paixão, o meu pai, partiu para as estrelas, há dois anos?
Porque é que tinhas de te juntar ao pai para passarem o Natal no reino da luz, exactamente nestes dias, sem a presença dos que tanto amavas, os teus filhos, netos, nora e genro?
Que vai ser de mim, minha mãe, que eras o meu farol, a minha referência incontornável dos bons e dos maus momentos, mesmo quando não concordava contigo, mesmo quando achavas que eu não tinha razão?
Que vai ser do meu futuro sem a tua alegria, os teus telefonemas a perguntar como vão as coisas, as tuas vindas à feira semanal, primeiro da vila e depois da cidade, mais para espairecer do que por necessidade?!...
Como vou conseguir suportar a tua intransponível ausência quando for a Serafão, revisitar as raízes da infância, que é o único verdadeiro lugar da felicidade? A casa estará vazia de ti, do teu olhar verde de imensidão, das tuas palavras quentes e boas, do teu bolo de milho, dos teus cozinhados, com o sabor singular que sabias emprestar-lhe. Da tua bondade, das tuas zangas amistosas com o Tico, o fiel companheiro das tuas jornadas, que ontem estava anormalmente triste, cabisbaixo, adivinhando o triste desenlace.
É frase feita considerar que os nossos pais são imortais, eternos, imperecíveis, que para nós jamais envelhecem, perpetuando uma juventude de santidade, seja qualquer for a sua idade ou saúde.
Perdê-los é descer à dor maior, mais lancinante, cruciante, atroz.
Mas as generalidades são supérfluas. O que dói, e fundamente, são as especificidades.
Dói-me a mãe que me acompanhou ao longo dos 55 anos que levo de vida e da qual nunca me separei, afectivamente.
Levou-me ao baptismo, à comunhão, à escola, à universidade, ao casamento, ao baptismo dos meus filhos. Esteve sempre presente nos momentos estruturantes da minha formação. Educou-me, com disciplina, respeito e sentido da responsabilidade, enquanto o meu pai mourejava por terras de França. Conduziu a minha infância e juventude, com muito amor e com a aplicação dos necessários correctivos, quando as minhas traquinices descambavam para a asneira, ou para as brincadeiras de mau gosto. Nunca lhe levei a mal as tareias que me dava quando as merecia, pois fizeram parte do meu crescimento.
Nos verdes anos, ajudava-a a amanhar as terras, levantava-me no Verão, sob sua rigorosa insistência, às cinco horas da manhã para regar os campos, ajudava a malhar o centeio, a plantar as batatas, a podar, a sulfatar e a vindimar. No tempo em que fabricar a terra era fundamental para a subsistência das famílias.
Fazíamos parte integrante do ciclo agrário, sobretudo ela e eu. Agradeço-lhe ter-me feito um homem de trabalho, disciplinado, que em cada tarefa que faz dá o melhor que pode e sabe, como penso já ter demonstrado à saciedade.
Mãe, porque me fizeste esta desfeita de nunca mais te ver, a não ser pelos olhos ternos do coração e da memória?!...
Já não tenho lágrimas para expressar a dor que me rebenta as entranhas à procura do teu rosto, da tua voz, da tua identidade de tanto amar a família!...
Que bom foi ser teu filho, mãe. Ter tido o privilégio de te ter amado durante os anos em que aqui andaste a meu lado!...
Que saudades me roem já o coração, meu Deus, dois dias apenas de me teres deixado!...
Como vou conseguir superar a tua perda irreparável, mãe? Como?
Como tiveste a coragem de me deixar sem ti, nestas condições, nestes dias, minha mãe eternamente adorada?
Até sempre, mãe! Dá um grande beijo por mim ao pai, a quem seguramente já encontraste, pois o amor vos unia profundamente e a crença na vida para além da vida!
Que sejam felizes, novamente!
PS – A minha amada mãe, Zélia Vieira Ferreira, faleceu subitamente na noite de 23 de Dezembro, aos 76 anos, indo ontem a sepultar no cemitério paroquial de Serafão, perante uma imensidão de amigos.
A todos quero agradecer a presença, que mitiga de alguma forma a imensa dor que atormenta a família mais próxima.
A missa do 7º dia é na próxima quinta-feira, pelas 19h00, na Igreja de Serafão.






































