segunda-feira, 30 de abril de 2012

Fafe cada vez mais deserto de serviços públicos: depois do Hospital, o Tribunal

Já aqui falámos da perda de serviços que nos últimos anos tem afectado e empobrecido a cidade de Fafe. Foi o desaparecimento da PSP; depois, da EDP. Mais recentemente, registou-se o esvaziamento do Hospital de S. José, no quadro da sua integração no Centro Hospitalar do Alto Ave, que apenas significou, na prática, destruição e desertificação de serviços, desbaratando-se, num ápice e levianamente, todo um historial de quase século e meio de serviços ao concelho e à região de Basto. Quando o que a situação exigia, face ao brutal e previsível congestionamento do Hospital de Guimarães, era reforçar os meios da nossa unidade de saúde para servir de tampão e de triagem a mais de 100 000 pessoas de todo este espaço territorial…
Em todos os casos estiveram critérios centralistas, de uma mentalidade economicista que apenas olha a números, a cifras e a cifrões, e não ao interesse das pessoas, dos cidadãos.
Agora, é o governo a navegar nas mesmas águas, no quadro da reforma do chamado “mapa judiciário”. Ao que se apurou – e motivou já os protestos veementes do Executivo Municipal e da Delegação de Fafe da Ordem dos Advogados – perspectiva-se a perda (pelo menos) de um juízo no Tribunal de Fafe.
Actualmente, o Tribunal Judicial tem três juízes de competência genérica, abrangendo assim as áreas civil, penal, família, menores, comércio e execuções, sendo que as matérias de direito do trabalho são da competência do Tribunal de Trabalho de Guimarães. A proposta privação dessa competência genérica “importa uma significativa perda para os cidadãos no acesso à justiça que a distância, inevitavelmente, irá acarretar” – subscreve o Executivo.
Na proposta apresentada no “mapa judiciário”, o Tribunal de Fafe ficaria com uma secção de competência civil e outra de competência criminal e apenas dois juízes.
Todos os processos de família, menores, comércio, execuções e colectivos (civil e crime) passarão para Guimarães.
Como considera a Ordem dos Advogados e a Câmara concorda, esta proposta, a ser implementada, “vai sacrificar de forma excessiva os cidadãos do nosso concelho, em especial todos aqueles que não têm transporte próprio, e que assim têm de se deslocar a Guimarães para tratar de qualquer assunto judicial”.
Outro dos receios apontados é o que, face ao reduzido número de processos e volume de trabalho que ficará adstrito ao Tribunal de Fafe, nesta situação, numa nova reorganização do Mapa Judiciário, se extinga o Tribunal de Fafe, à semelhança do que está a ocorrer, neste momento, em outras comarcas.
É, no fundo, o desrespeito do direito dos cidadãos no acesso a uma justiça de proximidade o que está em causa e que pode levar a que os cidadãos sejam forçados a tentar fazer justiça por outras vias, o que nem sempre será legítimo supor.
É lamentável que tal venha a acontecer, com esta reforma enviesada de que se conhecem os contornos.
Repete-se: não porque o que esteja em causa seja servir melhor os cidadãos, tornar mais eficaz e eficiente a justiça, mais céleres os julgamentos, mais justos os actos judiciários; não. O que está em causa é apenas poupar dinheiro. Tão só e apenas. O que se lastima e deplora vivamente!
Como sempre acontece e tem acontecido nesta terra, ninguém faz nada, ninguém diz nada (além das entidades oficiais), como se subtrair serviços ao concelho, forçar os cidadãos a terem de ir a Guimarães para o Hospital ou o Tribunal, fosse a coisa mais normal do mundo, ou uma inevitabilidade inexorável!... Em outros lugares, outras gentes são aguerridas, saltam para as ruas, defendem centros de saúde, hospitais, maternidade, escolas, tribunais, linhas-férreas, e tantas outras mais valias para as populações!
Fafe, na verdade, é constituído por gente demasiado acomodada e anestesiada pela apatia, pela indiferença, pelo conformismo. Já começa a ser atávico, identitário, histórico.
Sendo assim, acaba por ter o que merece!...

domingo, 29 de abril de 2012

O que me faz sorrir neste Dia Mundial do Sorriso que hoje se comemora?



* Os meus filhos, obras de arte maiores e mais belas, pela sua juventude sadia, pela verticalidade, pelo inconformismo, pelo amor à vida, pela exemplaridade, pelo carácter, pelo respeito, pelo exercício da cidadania e do civismo, por serem os melhores filhos do mundo;

* A minha mulher, pelo seu amor, pela sua compreensão, pelo carinho, pelo afecto, pelo caminho que percorremos, lado a lado, há três décadas, de mãos dadas, como se não tivéssemos mais de 20 anos;

* A memória de meus pais, sobretudo quando os “vejo” a “pegarem-se” pelos motivos mais fúteis ou a contarem histórias de outros tempos e outras gentes, como se o fio do tempo não tivesse fim;

* Os meus livros e escritos, que acabam por ser a razão de tantas alegrias e de imensas descobertas, da poesia à investigação, das nascentes plurais à história da nossa terra e das nossas gentes;

* A minha infância, pátria sagrada que regressa a cada momento ao meu coração; as brincadeiras, as tropelias, as subidas às árvores para assaltar os ninhos, os banhos no rio em Fevereiro, as investidas atrás das raparigas, os “assaltos” aos quintais dos vizinhos da aldeia para furtar laranjas ou maçãs, as deslocações para a escola, que duravam uma hora quando se podiam fazer em 20 minutos, as fugas à doutrina, e tantas outras travessuras que ficaram lá atrás na meninice e hoje me fazem sorrir, só de as recordar;

* A minha terra, a terra em geral, o campo, a lavoura, o espaço rural: sou um homem estruturalmente do campo, sem dúvida, embora moldado pela cultura urbana, que leva já mais de três décadas de trabalho sobre o meu espírito;

* A Primavera, o sol, o calor, o voo dos pássaros, o verde dos campos e das árvores;

* O canto das cotovias;

* As rolas: adoro as rolas, a sua elegância, o seu porte, o seu canto, a sua fidalguia popular;

* O mar, a praia, o mar, a praia: multiplicadamente…

* Tantos livros, tantos discos, tantos filmes, tantos amigos íntimos do espírito e das coisas mais sedutoras da vida;

* Ah, claro, e o glorioso SLB. Pode não ganhar sempre, ou quase sempre, mas dá-me imensos sorrisos e bastas alegrias. É uma impenitente paixão, uma chama intensa a arder no coração. Por ele torço, por ele sofro, por ele vocifero, zango-me, enervo-me, bato palmas, dou murros na mesa, grito “goooooooolo!”. É uma perdição, uma loucura, um permanente saudável desatino!...

São estas e outras maravilhas que me fazem sorrir.

Sobre o que não me faz sorrir, nem vale a pena falar. Basta ler os jornais, ver a televisão, ouvir o rádio. Não é preciso ir mais longe, aos cafés, aos mercados, às paragens dos autocarros.
Como diria o poeta, “vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar”!...
E lá vai o sorriso!...

sábado, 28 de abril de 2012

“Digam à Humanidade”, de Maria Aurora Guimarães, apresentado esta tarde em Fafe



O livro Digam à Humanidade, de Maria Aurora Guimarães, foi apresentado esta tarde na Biblioteca Municipal de Fafe, perante mais de quatro dezenas de amigos e convidados.
Na mesa de honra, além da autora, estiveram Artur Coimbra, em representação do município e que fez a apresentação de Aurora Guimarães, e Ana Lemos, da Papiro Editora, que abordou algumas linhas gerais da obra editada por aquela casa.
Maria Aurora Guimarães, que nasceu em Sobradelo da Goma (Póvoa de Lanhoso), em 1936 e reside em Medelo (Fafe) há já bastantes anos, foi parca nas palavras e referiu que a obra já havia sido escrita há 13 ou 14 anos, apenas agora tendo surgido a oportunidade de ter vido a lume.
Professora do ensino básico aposentada, tem trinta anos de experiência em psicografia. E é exactamente num exercício de psicografia que enquadra esta obra. Autora Guimarães limitou-se a pegar na caneta e a escrever. Foi apenas a mensageira de “alguém” que quis “escrever o livro”.
Até porque, fez questão de referir, apesar de professora, até aos 50 anos, não escreveu nada de jeito. Depois, já publicou as obras Pétalas de uma Vida (poesia) e A Força do Amor (romance).

Digam à Humanidade “é uma mensagem ditada pelos espíritos” – escreve-se na capa, enquanto na contracapa de expressa que, nesta obra, “Maria Aurora Guimarães torna-se, mais uma vez, o veículo entre o mundo espiritual e terreno, numa psicografia que nos faz chegar as palavras de incentivo e esperança dos que já não se encontram entre nós”.
É por isso que o “autora” (poderemos chamar autora a quem assim declina a autoria da obra?) declara que o livro deve ser lido em si e por si e não tendo em conta quem o escreveu. Desde logo, a uma pergunta nossa, referiu: “não fui eu quem escolheu o título, Digam à Humanidade. Ele apareceu-me na ponta da caneta quando comecei a escrever…”.
De resto, “eu não conseguia escrever o que escrevo” – confessa Maria Aurora Guimarães, uma personalidade diferente, forte, singular.
Uma “médium pelo menos da escrita”, como alguém a caracterizou, para ela lembrar que também Fernando Pessoa foi um grande médium.
De todo o modo, trata-se de um livro bem simples, pequeno em dimensão, com pouco mais de três dezenas de páginas, que deve ser sorvido lentamente, pensado, reflectido. Um livro perturbador, inquietante, questionador da nossa consciência, onde cabem todas as religiões e onde a espiritualidade está presente, em permanência.
Um livro onde Aurora Guimarães sonha que “daqui a uma centena de anos o mundo possa preocupar-se menos com a materialidade e mais com o seu futuro eterno. Então o amor vencerá”.

Fotos: Manuel Meira Correia

sexta-feira, 27 de abril de 2012

GRACINDO JÚNIOR TRAZ A FAFE A PEÇA "CANASTRÕES" NA NOITE DE 5 DE MAIO

Sábado, 21h30
Preço: 5 €
Duração:90’
Classificação: M/12

O consagrado actor brasileiro Gracindo Júnior, filho do carismático Paulo Gracindo, acompanhado dos seus filhos Pedro e Gabriel Gracindo, estará no Teatro-Cinema de Fafe na noite de 5 de Maio para apresentar a peça CANASTRÕES, original do nosso grande amigo Moncho Rodriguez.
Um espectáculo de alta qualidade, a não perder!

Sinopse:

Contraditórios, patéticos, divertidos, dramáticos, intérpretes e músicos, estes actores/personagens, usam todos os truques e artimanhas que guardam nos seus “canastros” na busca de uma verdade cénica que possa transformar a relação do actor com o espectador. Nesta aventura poética, transformam a emoção num instrumento precioso para tocar a alma dos espectadores.
O ENVIADO, O ACONTECIDO e O INEVITÁVEL, actores sem tempo definido, questionam o sentido de existirem, de ainda permanecerem como vivos no sonho diante da realidade.

Família Gracindo
Este ano Paulo Gracindo completaria 100 anos. Nesse tempo que viveu ele deixou uma grande herança. Um “Baú” repleto de memórias e personagens inesquecíveis. A história que se repete de pai para filho. História essa que se confunde com a história do teatro e porque não com a invenção do mundo? Seu filho, o actor Gracindo Jr., reuniu-se com os seus filhos, Gabriel Gracindo Pedro Gracindo e Daniela Gracindo, nessa vontade de homenagear o patriarca e falar sobre esse ofício que tanto está presente nesta família há...100 anos.
O espectáculo teatral CANASTRÕES conduz o espectador pelo universo mágico da poética teatral de todos os tempos e tem como principal fonte de inspiração a arte de um dos maiores actores do teatro brasileiro, Paulo Gracindo.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Monumento homenageia em Fafe o Poder Local na altura em que é mais atacado e humilhado

Englobado nas comemorações do 38º aniversário do 25 de Abril, foi inaugurado formalmente, na chamada rotunda da “Rua de Baixo”, o Monumento ao Autarca e ao Poder Local, que fica como homenagem ao que todos os autarcas de todos os partidos, nas freguesias e na câmara, desde o 25 de Abril, fizeram pelo concelho, conferindo-lhe o “rosto” que hoje tem e que nada tem a ver com o que apresentava em 1974.
O próprio presidente da Câmara, José Ribeiro, evidenciou que o Poder Local é consagrado para a posteridade, com alguma ironia, numa altura em que sofre os maiores ataques por parte do poder central, à autonomia financeira e administrativa das autarquias, visando reduzir os autarcas a “mangas-de-alpaca”. Identificou, nessa ofensiva contra a autonomia local consagrada pela Constituição e pela lei, claramente, a polémica lei da reforma administrativa, que tanta tinta tem feito correr e se destina apenas a extinguir freguesias e municípios e a lei dos compromissos, que tem em vista paralisar a administração local.

A placa inaugurativa foi descerrada pelo presidente da Câmara e pelos presidentes de Junta mais antigos do concelho, no caso, os de Fafe e de Ardegão

Rogério Almeida, autor da ideia, o segundo a contar da esquerda
O Monumento ao Autarca e ao Poder Local, que não é de fácil leitura, e tem suscitado as mais variadas apreciações, nasceu de uma ideia do fafense Rogério Augusto Rebelo Almeida, que venceu um concurso de ideias lançado para o efeito.

O projecto original, que sofreu alguns ajustamentos, quanto aos materiais, tem as seguintes linhas de força, nas palavras do seu autor:

“Procurei criar um conjunto de tês peças (elementos) que esteticamente simbolizem – quer através da composição dos elementos e os contrastes que lhe são inerentes, entre si, quer com a sua integração no local da sua implantação – a terra (concelho), o Poder Local e os Autarcas.

1. Peça Central: Coluna “Obelisco” em granito (pedra da região) representa a Localidade, a Região – o concelho de Fafe.

- Entre os elementos representados, a localidade é o elemento mais antigo porque a realidade da “terra” é anterior à ideia do “poder” – e foi assim representada através de uma Coluna (tipo obelisco monumento que vem da antiguidade)
- A pedra do obelisco, que é um elemento natural, demonstra que o trabalho do homem sobre a sua superfície, altera apenas a sua forma mas não altera as suas características – de força, de vigor, de tendência para o eterno.
- Sobre a superfície do granito serão gravados o nome de Fafe, sede do Concelho e, em seu redor, os nomes de todas as freguesias de Fafe, sendo que os caracteres da primeira deverão ter o dobro da dimensão dos caracteres das restantes.
- A parte superior do obelisco afunila em forma de chama representativa da expressão máxima de liberdade.

- Peça intermédia Folhas em ferro (material que tem uma relação intrínseca do homem com a natureza, sendo um elemento com um papel essencial no processo de criação estética e funcional do homem) que envolvem a coluna central de uma forma protectora: representam os dois poderes de administração autarca (Câmara Municipal e Juntas de Freguesia) que serão gravadas em cada uma das placas.

Peça Exterior – Figuras humanas interligadas em inox (material que oferece mais luminosidade e conservação no tempo) “dando forma” à interligação dos poderes, como uma característica da actividade humana. Esta peça ficará em redor das outras peças, não partindo da base mas sim do jardim, dando à ideia de ligação incidível à origem (terra) e ao mesmo tempo a continuidade da espécie humana.
Representam os autarcas interligados no interesse e no bem comum do concelho, e sem as cabeças invocando a ideia da pluralidade, interacção de valores e objectivos e anonimato”.

Algumas concepções ficaram; outras foram diluídas nos elementos que foram trabalhados, nos materiais seleccionados para dar maior beleza e enquadramento ao grupo escultórico.
Está de parabéns o autor da ideia, como de parabéns está a autarquia, por embelezar e enriquecer mais uma rotunda de acesso à nossa bela cidade de Fafe!

Abril voltou a ser festejado em Fafe

O Salão Nobre encheu para celebrar o 25 de Abril!
Num dia de chuva intensa, sobretudo na sua parte matinal, o 25 de Abril voltou a ser devidamente festejado em Fafe, por iniciativa do município. Em Fafe Abril não morre; Fafe não se verga para que Abril seja desprezado; em Fafe, Abril, continua a ser uma festa da Democracia e da Liberdade, como todos os quadrantes ideológicos tiveram oportunidade de reconhecer e valorizar ainda ontem. E ainda bem, neste tempo selvagem de ataques reaccionários perpetrados por gente cinzenta sem alma, sem coração e sem história. E sem sentido da História. Digo eu, e reafirmo.
Pois, a sessão solene centrada nos Paços do Concelho encheu por completo a sala, de gente das mais diversas extracções sociais, políticas e culturais, o que surpreende dadas as condições climatéricas registadas na manhã de quarta-feira.
Abriu o presidente da Assembleia Municipal, Laurentino Dias, num improviso pausado e incisivo; falaram pluralmente os representantes dos cinco grupos com assento naquele órgão; interveio ainda a professora Isabel Pires de Lima, para falar das diferenças do país entre o antes e o pós 25 de Abril, e são imensas; foi entregue o Prémio Maximino de Matos a Lídia Carina Lopes Teixeira, bem como a medalha de bronze de mérito concelhio a Carlos Afonso e a de ouro à Santa Casa da Misericórdia, pelos seus 150 anos de actividade.
Finalizou a sessão, este ano bem mais longa que o habitual, o presidente do município, José Ribeiro, para fazer os agradecimentos e realçar o mérito dos premiados na cerimónia.
Para além da inauguração do Monumento ao Autarca e ao Poder Local, registou-se ainda a inauguração da estrada municipal 610, entre a EN207 e Vilarelho, em Serafão.
Aqui ficam algumas imagens, da autoria de Manuel Meira Correia.

Intervenção de Laurentino Dias, a abrir a sessão

José Ribeiro entrega o Prémio Maximino de Matos à jovem Lídia Carina Teixeira

O vereador Antero Barbosa entregou a medalha de bronze de mérito concelhio ao filho de Carlos Afonso, Luís Carlos, por impossibilidade daquele

Laurentino Dias entregou a medalha de ouro de mérito concelhio à Santa Casa da Misericórdia
Intervenção da professora Isabel Pires de Lima, lembrando o conceito "reivindicar" tão caído em desuso

   

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Falsos liberais, ou verdadeiros ditadores?...

O ministro da Saúde, que saberá muito de contas mas pouco ou nada de antibióticos, acaba de lançar uma discussão estéril, ao pretender radicalizar, com evidente dose de fundamentalismo, a lei anti-tabaco. Paulo Macedo anunciou no Parlamento a intenção de apertar as restrições ao tabaco, designadamente decretando a penalização do acto de fumar em veículos automóveis particulares que transportem crianças. A iniciativa legislativa do governo, ao que escrevia o Expresso do outro fim-de-semana, será certamente votada ao fracasso, porque não é sequer consensual na área da coligação governamental.
Nem é, nem deve ser. E ainda bem que por lá há pessoas inteligentes e sensatas! Porque o que está em causa é um acto ditatorial de um governo que se ufana do seu presumível liberalismo.
Ou seja, o governo passa a vida a encher a boca com a bandeira “Menos Estado – melhor Estado”. O que significa que, em termos económicos, o Estado se libertaria, como está a acontecer, de sectores básicos e fundamentais da economia portuguesa (transportes, energia, água, telecomunicações, etc.). Um Estado liberal, ou neo-liberal, deixa, alegadamente, o mercado funcionar, nem que seja na mais rutilante selvajaria, incumbindo-lhe apenas, nessa base, “regular” o funcionamento daquele. Aliás, o que, neste contexto, significam as entidades reguladoras, está bem à vista de todos os consumidores, que sofrem na pele os constantes e incontrolados aumentos dos combustíveis, da electricidade, da água e do gás, porque os reguladores não passam de “advogados” dos vendedores de serviços. Existirem ou não vai dar ao mesmo!...
Um Estado liberal nas políticas económicas está a concretizar-se, sem dúvida, em prejuízo dos cidadãos e em claro benefício dos grandes grupos económicos que são quem, de facto, condiciona as estratégias políticas. Basta ver quem são os “boys” do arco do poder que estão nas grandes empresas, nos decisivos lóbis, nos conselhos de administração pagos principescamente para explorar os consumidores …que os reguladores deveriam defender!...
Ou seja, que há “menos Estado” nesta era de deriva tróico-direitista está a ser um facto indesmentível, mas não consensual; que haverá um “melhor Estado” é que falta provar. Por mim, não acredito nem um pouco nessa asserção. O que se tem visto é o Estado vender os anéis para tentar salvar os dedos, não para se reformar e prestar melhores serviços aos cidadãos, como é seu dever!
Agora, em termos sociais, o que assistimos é à proliferação dos “falsos liberais”. Os “falsos liberais” são aqueles que, em vez de outorgarem aos cidadãos a liberdade de serem responsáveis pelos seus actos, afastando o Estado da esfera privada, querem controlar o que os cidadãos fazem, não no domínio público, mas no reduto da sua autodeterminação.
O que o ministro Paulo Macedo propôs é inqualificável, inadmissível e impróprio de um democrata. Não é minimamente legítimo ao Estado imiscuir-se na esfera pessoal dos cidadãos.
O Estado não pode nem deve meter-se no automóvel de um cidadão para proibir o condutor de fumar, seja qual for o pretexto. Já não estamos nesse tempo soviético ou nazi-fascista, em que tudo se controlava, do universo público ao estritamente privado. Nem estamos na era do “Big Brother is watching you!”, o que quer dizer, “O Grande Irmão está a vigiar-te!”. Não estamos nem podemos estar!...
Estamos, assim, a falar de uma ameaça à liberdade individual dos cidadãos. Uma intrusão inaceitável nos seus direitos fundamentais. Uma violação à Constituição da República Portuguesa e à Convenção dos Direitos do Homem e do Cidadão.
Que os cidadãos sejam sensibilizados pelo Estado para os perigos de fumarem nos seus carros particulares, quando transportem crianças no seu interior, compreende-se, aceita-se e aplaude-se. Agora que o Estado se arme em polícia e se arrogue o direito de controlar (e penalizar) o que os cidadãos devem ou não devem fazer no espaço da sua soberania individual, nunca, jamais, em tempo algum!
O mesmo governo que quer tirar o Estado da actividade económica, pelo seu alegado “liberalismo”, quer meter-se no carro dos cidadãos para os proibir de fumar, numa opção que não tem outro nome senão tique ditatorial.
Nesta lógica de ideias, qualquer dia, se não nos opusermos, o governo quer que o Estado se meta na nossa cama, para saber quantas vezes fazemos amor por semana e se essa cifra está na média europeia. Ou se sente à nossa mesa para saber se comemos gelados, pão-de-ló ou pastéis que contribuam para o aumento da obesidade ou do colesterol.
Um dia destes, o governo quer que o Estado decida o carro que queremos comprar (quando podemos), o banco em que devemos depositar o nosso dinheiro (quando o temos), o clube que devemos apoiar, as canções que devemos ouvir, os programas de televisão que devemos ver, a pasta de dentes que devemos usar, o hipermercado onde devemos fazer as compras, o jornal que é para ler, o café que deve ser frequentado.
Dir-se-à que é uma caricatura. Mas não é a caricatura uma imagem, embora deformada, da realidade?
Preocupa-me sinceramente que tanta gente se despreocupe do que deveria constituir uma séria inquietação colectiva!...
Estes tiques ditatoriais que, aqui e ali, afloram na prática política vigente, não deveriam deixar nenhum cidadão indiferente, 38 anos depois da data redentora do 25 de Abril de 1974, que esta semana se comemora!...