terça-feira, 11 de dezembro de 2012

A blogosfera é ainda uma cobardia, sobretudo nos comentários!

1. O artigo mais recente do amigo Pedro Sousa, no Povo de Fafe, com o título “a blogosfera está a enriquecer Fafe”, suscita-me algumas considerações. Peço desculpa de ter de contrariar algumas das suas boas intenções.
Nele refere, designadamente, que “Fafe tem uma rede de blogues plural e diversificada”, o que é excelente. Considera depois que, “se até há bem pouco tempo não se olhava para a blogosfera como uma realidade fidedigna, hoje esta barreira está praticamente ultrapassada, devendo-se a dois factores fundamentais: identificação das fontes (indivíduos já conhecidos de outras lides e outros que vão surgindo no mesmo grupo) e a seriedade como são tratados os assuntos”. Nomeia depois três blogues alegadamente interessantes, o que é obviamente subjectivo.
Pedro Sousa considera, por ouro lado, que “é certo que a imprensa escrita é um meio fundamental para a comunicação e divulgação do que se passa no concelho, mas a blogosfera torna-se um complemento por excelência”.
2. Que a blogosfera é, hoje em dia, uma realidade incontornável para quem procura a informação mas, sobretudo, o comentário e a opinião sobre os acontecimentos, sejam numa dada localidade, no país ou no mundo, não há qualquer dúvida.
Praticamente desconhecidos ou escassamente utilizados ainda há poucos anos, os blogues explodem diariamente como cogumelos pelo espaço virtual. São do mais diverso género e pretendem atingir os públicos mais globais, bastando que para tal disponham dos requisitos mínimos, como seja um computador com ligação à internet. Substituindo um pouco o secular diário pessoal das nossas infâncias, em cujas páginas o leitor ia apondo os seus textos, os seus poemas, os seus desenhos, as suas análises ao que se passava à sua volta, os blogues constituem, na actualidade, a forma como os cidadãos vão reagindo ao momento, em cima das ocorrências. Alvitrando, julgando, avaliando, aplaudindo ou censurando. Os blogues acabam por se transformar na voz dos que não têm voz no dia-a-dia dos jornais ou, genericamente, da comunicação social, cada vez mais reduzida ao papel de porta-voz dos grandes interesses políticos, económicos, culturais ou desportivos deste país.
Assim, a blogosfera assume um imprescritível espaço de promoção da cidadania e da própria democracia, enquanto mensageira da representação do pensamento de cada português, que, de outro modo, jamais conseguiria obter a amplificação que aquele meio proporciona.
E quem diz democracia, diz liberdade. É inquestionável que a blogosfera representa a legitimação da liberdade de cada cidadão colocar na net tudo o que lhe vai na alma. E é exactamente no exercício desse sagrado benefício que, paradoxalmente, reside o perigo do sistema, que é enorme.
Ninguém questiona o direito de qualquer cidadão a exprimir, sem peias, num blogue, as suas opiniões, as suas críticas, os seus desejos, os seus fantasmas, desde que assuma, lealmente, a autoria do que escreve e publica. Já se contesta esse direito desde que praticado a coberto do anonimato, ou de falsas identidades, como é comum no mundo virtual.
3. É aqui que eu quero chegar. As pessoas sem escrúpulos transferem para a blogosfera as suas taras, as suas perversões, a sua podre maledicência, a sua desonestidade intelectual, no fundo, a sua cobardia. Que outra designação não pode ter quem, anonimamente, em textos ou comentários, denigre e achincalha respeitáveis pessoas, permite-se julgar quem não conhece, humilha e ofende quem não está de acordo com as suas ideias, vilipendia e insulta quem lhe dá na real gana, porque, no fundo, escreva o que escrever, ninguém é penalizado pela estrumeira que lança na Internet.
Ao contrário do que acontece nos media, que têm directores e coordenadores que filtram devidamente o espaço opinativo, na blogosfera reinam o caos e a anarquia, releva a linguagem de estrebaria, impõe-se a voz do ataque, da injúria, da difamação, dos sentimentos mais primários, na perspectiva de que ninguém descobrirá a respectiva autoria. E ninguém paga pelos delitos que, com a mesma linguagem, seriam penalizados na imprensa. A blogosfera está sem rei nem roque, sem princípios, sem valores, sem disciplina, sem a existência de uma autoridade que vele por comportamentos adequados a uma vida em sociedade, pautada por paradigmas de respeito, de ética, de rectidão, de probidade.
Dão vómitos certos conteúdos que vemos estampados, impunemente, na internet, agredindo gratuitamente pessoas e instituições, com a consciência saloia de quem sabe que nada acontecerá aos seus perversos autores. Porque os comentários são quase sistematicamente subscritos por esse oceano de cobardia e de falta de coragem para exercer a cidadania activa que dá pelo nome de “anónimo”.
A blogosfera tem um imenso défice de seriedade, de honradez, no fundo da responsabilidade que a liberdade deveria conferir. E não a libertinagem que por lá campeia…
4. Em suma, não acredito, por enquanto, na seriedade da blogosfera que, em grande parte, se se reparar bem, se acoberta atrás do anonimato e da cobardia. Se as pessoas mostram a sua identidade e a sua imagem e debatem os assuntos com honestidade e elevação, tudo bem. Mas o que se verifica, o mor das vezes, é lançar a pedra e esconder a mão, ofender, difamar, desvalorizar, a coberto do anonimato. Quem responsabilizar por opiniões ou comentários que não têm a hombridade de se assumir? Se a blogosfera se reconduz, em grande parte, a esta lama, só tenho de pedir desculpa por escrever de cara lavada!...
Faz falta uma entidade reguladora para a blogosfera, mas que exerça, de facto, essa importante missão disciplinadora, e não a farsa que são os reguladores da comunicação social, ou da electricidade, ou dos combustíveis, ou do que quer que seja, e de que ninguém lobriga a utilidade para os cidadãos.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Papiniano Carlos escreveu na morte de Joaquim Lemos de Oliveira, o “Repas”


 
Morreu esta semana, no Porto, o consagrado escritor Papiniano Carlos, um dos últimos representantes do neo-realismo português. Muito escreveu e publicou mas o que o tornou mais conhecido foi o livro ‘A Menina Gotinha de Água’, que todos lemos na infância.
O poeta, autor de "a Terra livre e insubmissa", que somava mais de 60 anos de militância comunista, contava 94 anos.
Papiniano Manuel Carlos Vasconcelos Rodrigues nasceu em Lourenço Marques, actual Maputo, Moçambique, a 9 de Novembro de 1918, fixando-se no Porto, aos 10 anos, onde estudou.
Publicou o primeiro livro de poesia em 1942, ‘Esboço’, quatro anos antes de ‘Terra com sede’, a sua estreia na ficção, e de ‘Estrada Nova’, com capa de Júlio Pomar, obra que seria apreendida pela PIDE, a polícia política da ditadura.
A adesão do escritor ao PCP remonta ao final da década de 1940, no pós-guerra, actuando na clandestinidade com o nome Garcia, numa alusão ao poeta andaluz Federico Garcia Lorca.
Na mesma altura, depois de ter frequentado a Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, dedicou-se ao ensino, que teve de abandonar, por se ter recusado a subscrever a "declaração anticomunista", imposta pelo regime aos funcionários.
Deu explicações e foi delegado de propaganda médica. O escritor português foi preso três vezes pela PIDE.
Com Egipto Gonçalves, Luís Veiga Leitão, António Rebordão Navarro e Daniel Filipe, dirigiu "Notícias de Bloqueio", série de "fascículos de poesia", publicados no Porto entre 1957 e 1961, designação da revista, retirada do título de um poema de Egipto Gonçalves.
Colaborou nas revistas Seara Nova e Vértice e integrou os corpos dirigentes do Círculo de Cultura Teatral do Teatro Experimental do Porto.
‘A Menina Gotinha de Água’, para a infância, que viria a marcar o ressurgimento do género, a par das obras de Matilde Rosa Araújo, foi editada na década de 1960 e constitui um dos seus maiores êxitos editoriais.
Entre outros livros, Papiniano Carlos escreveu ‘Mãe Terra’ (1948), ‘As Florestas e os Ventos’, ‘A Rosa Nocturna’ (1961), ‘A Ave sobre a Cidade’ (1973), ‘O Rio na Treva’ (1975).
Há na sua obra um poema que o associa a Fafe e concretamente ao mártir do fascismo Joaquim Lemos de Oliveira, o “Repas”, cujo nome está perenizado na Praça Mártires do Fascismo, no centro da cidade.
Em 1957, por ocasião da morte de “Repas”, nos calabouços da PIDE, no Porto, Papiniano Carlos publicou o poema seguinte:
 
Glória a Joaquim Lemos de Oliveira
 
Em Fafe
O cemitério
ficava entre campos lavrados
a meio da colina.
 
Aí iria descansar o herói anónimo
de sua tarefa, sofrimento e morte.
Sentindo bem junto à violada face
a carícia das madrugadas.
O sorriso das espigas,
a frescura do orvalho de manso
gotejando entre as raízes
de seu coração.
 
Entre alas de povo
o caixão atravessava lentamente
o pequeno cemitério.
Entre dezenas de polícias armados
de metralhadoras
Joaquim Lemos de Oliveira
ia agora descansar no seu coval.
Foi quando, no silêncio da colina,
a voz dum menino atravessou os ares,
atravessou o fogo, o chumbo, a violência,
o terror, a morte.
O menino gritava:
- Eu vou crescer, vencer contigo, meu pai!

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

República e Incursões Monárquicas - Um Padre Guerrilheiro de Barroso

Com o título em epígrafe, foi publicado pela Âncora Editora um interessante livro dos investigadores barrosões António Chaves, Barroso da Fonte (distinto amigo e colaborador do jornal local Povo de Fafe), Bento da Cruz e José Baptista.
A obra teve como pretexto a passagem do centenário da segunda incursão monárquica (1912), a qual causou grande impacto e repercussão nesta região, de Fafe a Vinhais, passando por Cabeceiras de Basto, Chaves, Valença do Minho e Porto. Mas também os 150 anos sobre o nascimento do que viria a tornar-se o “Padre Guerrilheiro”, em plena I República, o Padre Domingos Pereira, um dos mais destacados promotores da contra-revolução monárquica nesta zona, que viu a luz do dia em Vilarinho de Negrões (Montalegre), em 9 de Agosto de 1862.
Ordenou-se sacerdote, aos 24 anos, em 1886 e foi colocado na paróquia de Outeiro, em Cabeceiras de Basto, por influência familiar, sobretudo de seu tio, Padre João Albino Carreira, pároco de Refojos. “Cedo o atormentou a verruma da política que então era mesmo política activa e fervorosa mesmo entre o clero” (José Baptista). Filiou-se então no Partido Regenerador, cuja paternidade ideológica se deve a Alexandre Herculano e do qual fizeram parte o Marechal Saldanha e Fontes Pereira de Melo, entre outros.
Próximo de 1900, milita activamente no Partido Regenerador e entra com afinco na campanha eleitoral desse ano. É chamado ao Paço Arquiepiscopal de Braga, onde o arcebispo, D. Manuel Baptista da Cunha, o incita a aderir ao Partido Progressista, sob a ameaça de perder a sua situação privilegiada. O prelado advertiu-o de que, em caso de recusa, seria transferido para uma paróquia sertaneja.
O Padre Domingos Pereira não aceitou a imposição, que ia contra a sua liberdade e integridade de carácter.
De imediato devolveu o mandato da paróquia de Outeiro, retirou o cabeção e a sotaina e abandonou o magistério sacerdotal, após apenas 13 anos de pároco.
Regressou a Cabeceiras, trocando o sacerdócio pela política local, “onde alcançou grandes vitórias em todo o distrito bracarense a favor dos regeneradores”. E foi nesta linha que, sempre que os regeneradores ganhavam as eleições, Domingos Pereira era nomeado administrador concelhio. Por isso, chegou a ser administrador em Fafe e em Cabeceiras de Basto, pelo Partido Regenerador, o mesmo de Paiva Couceiro, em cujas hostes acabaria por tornar-se guerrilheiro.
Sem outros meios de subsistência, passou a dedicar-se ao ensino, como professor de História, Geografia, Português e Latim, no liceu de Cabeceiras, o que acabou em 1908. O Padre Domingos Pereira (que manteve a designação de “Padre” por toda a vida, apesar de nunca mais ter exercido o sacerdócio) passou por algumas dificuldades, mas manteve o seu “mandato monárquico”, incitando vizinhos e amigos a manterem-se fiéis a Deus, à Pátria e ao Rei.
Após o 5 de Outubro de 1910 e a instauração da República, o Padre Domingos Pereira toma o “partido” da resistência monárquica ao novo regime, enfileirando nas hostes de Paiva Couceiro, que foi praticamente o último e único monárquico a combater os republicanos, na Rotunda.
Tornou-se, assim, um “agitador monárquico, com forte implantação regional e de reputação nacional” (António Chaves).
Participou nas incursões monárquicas, sob a inspiração de Paiva Couceiro, ao lado dos paladinos da “Monarquia e da Santa Religião”. Aliás, o clero era o principal instigador da rebelião das populações, na sequência das polémicas medidas decretadas pelo Governo Provisório, e em especial por Afonso Costa, contra a Igreja e as ordens religiosas.
Pela participação na rebelião apanhou duas décadas de penitenciária, à revelia, mas nunca cumpriu, por se ter homiziado na Galiza ou andar pela sua terra, clandestinamente.
Voltaria a participar na contra-revolução monárquica de 1919, concretamente na “Monarquia do Norte” (19 de Janeiro/13 de Fevereiro), popularmente conhecida por “Traulitânea”, dados os abusos cometidos sobre os republicanos. Domingos Pereira servia de elemento de ligação entre os combatentes no terreno e o chefe Paiva Couceiro, presidente da Junta Governativa, que estava no Porto.
Frustrada a restauração monárquica no norte, o Padre Domingos Pereira volta a exilar-se na Galiza (como Paiva Couceiro e a generalidade dos conspiradores). Julgado à revelia no Tribunal Militar do Porto, foi condenado a 20 anos de prisão maior, como tinha acontecido sete anos antes.
Porém, embora condenado a 40 anos de cadeia, pelas duas vezes em que participou na alteração da ordem republicana, o conhecido “guerrilheiro” não cumpriu um único dia de prisão.
Conhecido como “cabecilha das incursões monárquicas na zona de Basto” (Barroso da Fonte), Domingos Pereira teve mulher e no mínimo seis filhos e passaria os últimos vinte anos da sua vida em maior acalmia, embora com dificuldades materiais. Faleceria em 1945, com 83 anos de idade.
José Baptista considera que “O Padre Domingos foi homem de convicções e nobilitante dignidade pessoal”. Já o amigo Barroso da Fonte refere que “A sua vida foi uma luta constante pela defesa das suas ideias” e conclui o seu texto, “Domingos Pereira – Glória e Martírio de um Padre Guerrilheiro”, com estas palavras: “A firmeza do seu carácter, a frontalidade da sua conduta, a obstinação irrepreensível da sua teimosia, mesmo correndo todos os perigos pessoais e familiares, podem merecer censuras. Mas são essas algumas das virtudes que diferenciam os homens e conduzem à epopeia da liberdade”.
Enfim, estamos em presença de uma excelente biografia, em diversos tons, diria, a oito mãos, sobre um dos personagens mais emblemáticos da guerrilha nesta região, na primeira década da I República.
 
(Povo de Fafe, 07 Dezembro 2012)

Uma crónica de (expressivas) citações!


Hoje deu-me a preguiça. Vou entreter-me com duas citações, interessantes referências de artigos que andam por aí e a que certamente alguns dos nossos leitores não tiveram acesso.
No fundo, é aquilo que eu gostaria de escrever na crónica de hoje, mas que os seus autores conseguem expressar bem melhor e mais convincentemente que eu. Por isso, o melhor é não ser redundante e poupar os leitores ao massacre semanal. Vamos a isso.
1. Domingos Amaral, filho de Diogo Freitas do Amaral, já conceituado jornalista e escritor, autor de obras consagradas e muito interessantes (já li algumas) como “Enquanto Salazar Dormia” (2006), “Já ninguém morre de amor” (2008), “Quando Lisboa tremia” (2010) e “Verão Quente” (2012), publicou um significativo artigo de opinião que circula nas redes sociais sobre o que exige a troika e o que está a impor o governo de Passos Coelho. E não tem nada a ver, como se verá já a seguir. Aqui se expressa, e bem, mais uma vez, o descaramento de um governo sem os níveis mínimos de competência, aptidão e capacidade e que em tudo o que decide se escuda, miseravelmente, no “memorando” assinado com a malfadada troika, que há muito foi ultrapassado e desvirtuado:
 2. A segunda citação é de um outro texto de opinião da autoria do jornalista Pedro Tadeu e que foi publicado no “Diário de Notícias” desta terça-feira, com o título “Passos Coelho não sabe nada de Constituição”. Eis um excerto:
 
Passos Coelho, na TVI, disse: "A Constituição trata o esforço na educação de forma diferente do da saúde. Isso dá-nos, do lado da educação, alguma margem de liberdade para um financiamento mais repartido entre os cidadãos e a parte fiscal, directa, assegurada pelo Estado".
Li a Constituição. Determina que o Estado assegura o direito à protecção da saúde "através de um serviço nacional de saúde universal e geral e, tendo em conta as condições económicas e sociais dos cidadãos, tendencialmente gratuito" e que deve "garantir uma racional e eficiente cobertura de todo o país em recursos humanos e unidades de saúde".
Na educação o Estado tem de "assegurar o ensino básico universal, obrigatório e gratuito" e para isso "criará uma rede de estabelecimentos públicos de ensino que cubra as necessidades de toda a população".
 
Conclusão 1: A Constituição dá alguma margem de manobra para o financiamento do sistema de saúde (com as frases "tendencialmente gratuito" e "garantir racional e eficiente cobertura") enquanto na educação fecha o critério (utilizando expressões como "universal, obrigatório e gratuito" ou para cobrir "toda a população").
Conclusão 2: O primeiro-ministro não conhece a Constituição.
 
("Escrita em Dia", Povo de Fafe, 7 Dezembro 2012)
 

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Pompeu Miguel Martins apresenta o seu novo romance

Dez anos depois de ter escrito o romance Contigo para um último dia, Pompeu Miguel Martins retoma este género literário e apresenta no próximo dia 13 de Dezembro, pelas 21.30, na Biblioteca Municipal de Fafe, o seu novo trabalho intitulado Ficar. Neste livro, é contada a história de um homem em diferentes tempos, contando-se, percorrendo as vivências da infância numa vila do interior durante a década de trinta.
Uma criança experienciando a privação causada pela perda da mãe e as limitações físicas do irmão, devolvendo-lhe um sentido de sobrevivência e de reconstrução de afectos.
A juventude tocando os limites impostos por um fundo sentimento de Liberdade. Um tempo dividido entre a vida em Paris e o retorno a Portugal, a seguir à Revolução, entre decisões que confrontam a ética, a estética e as emoções mais íntimas.
Por fim, a velhice, numa clara imagem de balanço, de resistência e de recomeço, revisitando lugares, memórias, usando o vivido como a garantia última para combater a solidão, manter a dignidade e acrescentar, sem importar o tempo que resta.
Uma história sobre a não resignação nas diversas revelações do amor, da liberdade, de Deus, da vida ou da morte. Ficar é uma espécie de longa carta a um «eu» levantado na magnífica experiência do coração repartido.
Nesta obra, Pompeu Miguel Martins percorre um imaginário de época, com uma série de elementos que nos remetem para vivências similares àquelas que se viveram no mesmo período em vilas como Fafe. Sem deixar de ser um texto de ficção, causará certamente no leitor um reconhecimento interior que o não limita mas antes que o poderá libertar para uma fruição e reflexão em torno das temáticas abordadas, essas universais e que tocam os processos de formação da identidade humana.
Pompeu Miguel Martins é um escritor nascido e residente em Fafe. Licenciado em Sociologia pela Universidade Autónoma de Lisboa e com pós-graduação em História das populações pela Universidade do Minho. A sua obra dispersa-se por vários géneros literários, como a poesia, texto dramático, prosa, entre outros. No plano profissional, tem trabalhado no âmbito das políticas públicas de juventude, tendo sido Director da Agência Nacional para a Gestão do Programa Juventude em Acção (2007 - 2012), Delegado Regional de Braga do Instituto Português da Juventude (2005-2007), membro do Comité para a Juventude do Eixo Atlântico (2005-2007), sendo actualmente vereador da Cultura, Desporto e Juventude da Câmara Municipal de Fafe. Das obras publicadas constam os seguintes títulos: Lugar dos dias (poesia); Tempo de Habitar o Quase Corpo (poesia); O Livro do Anjo (poesia); As Mulheres (teatro/libreto); O jornal que não falava de mim (conto); Tambor do Mundo (poesia); Contigo para um último dia (romance); Máquina Royal (diário); Caderno de Orações (prosa); Do Intangível (poesia); 7 retratos de Natal (conto) e Ficar (romance).

COMÉDIA “A BOCA DO INFERNO” ESTE SÁBADO NO TEATRO-CINEMA DE FAFE PELA JANGADA TEATRO





 
A programação do mês de Dezembro do Teatro-Cinema de Fafe abre na noite deste sábado, dia 8, com a apresentação da mais recente produção da Jangada teatro, a comédia “A Boca do Inferno”, com texto original do escritor António Torrado.
O espectáculo, para maiores de 12 anos, está marcado para as 21h30. Os ingressos custam apenas 3 € e estão disponíveis no Posto de Turismo, na Praça 25 de Abril ou à hora do espectáculo no próprio Teatro.

Sinopse:
D. Afonso Henriques nasceu frágil, nunca tendo conhecido o pai, que morreu prematuramente. D. Teresa, viúva de D. Henrique dá largas às suas aventuras amorosas. Afonso Henriques, entregue aos cuidados de Egas Moniz, transforma-se num garboso mancebo, resultante do milagre ocorrido após a passagem pela água milagreira da pia baptismal. Esta é uma história de Portugal, a qual se terá fundado sobre uma fraude. O nosso país é fértil em episódios, entre o burlesco e o trágico, pleno de teatralidade.
 
Ficha artística e técnica:
 
Texto – António Torrado
Encenação – José Carretas
Interpretação - Bruno Martins; Cláudia Berkeley; Luiz Oliveira; Patrícia Ferreira; Vítor Fernandes e Xico Alves
Figurinos – Margarida Wellenkamp
Cenografia – José Carretas
Desenho de luz - Nuno Tomás











 Fotos: Manuel Meira Correia

sábado, 1 de dezembro de 2012

Subsídios para a "refundação"! Ou "afundação"?

1. Sem que se veja o mínimo sentido de oportunidade para o debate do tema, o qual não pode nem deve ser feito em cima do joelho, não nos largam um minuto sem que coloquem em cima da mesa a malfada “refundação”: um estúpido conceito que não diz nada do que pretende, sendo que o que visa é saquear mais 4 mil milhões de euros aos bolsos cada vez mais depauperados dos portugueses. Quando nos acenam com a redefinição das funções do Estado, também gostaria de dar a minha pequena contribuição para o que não passa de um mero expediente para reduzir custos, se possível radicalmente, num momento particularmente difícil da nossa vida colectiva. Ninguém cura de saber se estamos a tentar servir melhor e mais condignamente os cidadãos. Não estamos, manifestamente.
2. Desde logo, importa definir que país é este, que governo é este, que situação é esta em que nos encontramos.
Interessa, mas interessa mesmo, saber se quem nos governa é Passos Coelho e Vitor Gaspar, ou se somos efectivamente um protectorado da troika. Porque se são os primeiros que decidem, acabem lá com a ladainha permanente de que “temos de cumprir”, de que o “ajustamento” para aqui e a “consolidação” para acolá. Foram eleitos, são responsáveis, têm de ser responsabilizados pelos seus erros (e são muitos), as suas incompetências (oh, meu Deus, quantas!...), as suas inúmeras carências.
Se é a troika que, verdadeiramente, governa, o caso muda de figura. Então que mande para cá um contabilista e dispensamos o pessoal político. Nessa situação, o governo não tem qualquer sentido, os deputados são apenas uma absurda encenação, o Presidente da República é o supremo magistrado de uma nação que não é independente, logo, não existe. Imaginemos o quanto se pouparia com a dispensa de toda esta gente, mais os seus séquitos, as suas mordomias e prebendas. Os cidadãos agradeceriam, até porque os tributos que têm de suportar pelos erros alheios baixariam consideravelmente.
Julgo que há que definir, muito concretamente, quem manda. A sobredita “refundação” tem de começar por aí: ou temos soberania, e o governo faz sentido; ou não temos, e podemos receber ordens directamente do directório em Bruxelas ou em Berlim.
3. Outra hipótese é suspendermos a democracia. Já alguém ventilou essa possibilidade e na altura foi muito atacada. É que a democracia tem imensos custos de toda a espécie, sobretudo financeiros. Uma ditadura sempre fica mais barata: os dirigentes eternizam-se no poder e a coisa vai rolando, pacificamente, como num cemitério. E não havendo democracia, não teria de haver essa chatice das eleições periódicas, para o parlamento e para as autarquias locais e não se gastava uma pipa de massa na campanha eleitoral, nos tempos de antena, no pagamento aos membros das mesas, que são aos milhares pelo país além, etc. Era uma enorme poupança, sem dúvida. Uma alegria para os portugueses, sobretudo para aqueles que nem se dignam ir às urnas.
4. E já nem falamos de outras radicalidades, que têm em vista baixar drasticamente o défice. Poder-se-ia começar por empurrar os jovens e os adultos para o estrangeiro. Tornava-se a emigração obrigatória, entre os 20 e os 60 anos. Pelo menos eram milhões de portugueses que não dependiam do erário público. Quanto aos seniores, que é uma palavra mais fixe, ia-se-lhes cortando a reforma (como já se está a fazer), cada vez mais, até que não tivessem dinheiro para comer, nem para irem à farmácia. E como os mais novos não estavam cá a produzir, não havia recursos, logo, a solução não parecia assim tão draconiana. Sem velhos e sem adultos, restavam as criancinhas, e elas é que são o futuro. Por conseguinte, passávamos directamente do presente para o futuro, sem grandes convulsões.
Quantos milhões se não poupariam com esta “solução final”!...
5. Há sempre ainda outras ideias, mas estas não parecem agradar muitos ao pessoal que nos governa ou que senta o republicano traseiro nas almofadas do Parlamento. Por exemplo, despedir os gabinetes onde se hospedam boys e girls, ditos “especialistas”, não se sabe bem do quê, cuja competência se mede pelo cartão de militante. Da cor dos actuais inquilinos, mas também dos outros. Se é para cortar, reduzir, poupar – deve tocar a todos. Não como a pouca vergonha que se tem verificado, com essa gente a receber subsídios e ordenados como se estivéssemos na América. Reduzir significativamente o número de deputados, sujeitando-os à limitação de mandatos e subordinando-os aos esquemas de saúde e de segurança social, exactamente como todos os outros portugueses, seria outra medida que pouparia imensa nota.aos cofres do Estado.
6. O que acima fica sugerido, são apenas propostas que são seguramente demagógicas, irrealistas, absurdas, sem pés nem cabeça. Mas não é de demagogia que estamos diariamente mergulhados, até à ponta dos cabelos? E a demagogia feita à maneira não é como queijo numa ratoeira – como cantava a Lena D’Água?!
São os meus contributos para “refundar” ou para “afundar” este Estado de coisas!...
 
(Povo de Fafe, 30/11/2012)