quarta-feira, 6 de março de 2013

Um livro de vez em quando: "O Teu Rosto Será o Último"


 
Deixamos hoje algumas palavras sobre um livro fascinante, o primeiro romance de um jovem autor, João Ricardo Pedro, com o título “O Teu Rosto Será o Último”.
Trata-se do livro vencedor do Prémio Leya 2011 e que foi editado o ano passado e conta com uma mão cheia de edições.
O escritor João Ricardo Pedro nasceu em 1973, na Amadora, licenciou-se em Engenharia Electrotécnica e durante mais de uma década trabalhou em telecomunicações.
Em 2009, em consequência da crise que se abateu sobre o mercado de trabalho, achou-se na situação de engenheiro desempregado, casado e pai de dois filhos, e que, no mesmo dia em que ficou sem trabalho, resolveu sentar-se ao computador para começar a escrever. Deu a volta ao destino e compôs um notável romance.
A situação de desemprego inesperado, sem dúvida, sendo martirizante para o profissional, acabou por ser benéfica para o autor, que assim conseguiu tempo e disponibilidade criativa para construir um romance de mais de duas centenas de páginas de pura literatura.
Extraordinariamente bem escrito, lançando mão dos recursos estilísticos e imagéticos de grande pertinência, o livro impõe-se como uma das revelações literárias dos últimos anos.
O escritor e poeta Manuel Alegre presidiu ao júri que atribuiu o Prémio Leya 2011 e apresentou o livro vencedor, em cerimónia que contou com a presença do Presidente da República.
Para Alegre, “A história de Duarte, personagem principal do romance, é, ao fim e ao cabo, a de uma geração cujos pais foram à guerra, viveram o 25 de Abril, tiveram sonhos, assistiram à queda do muro, ao desmoronar de utopias e ao início de uma nova era de incerteza e insegurança. É o país recente e de agora que perpassa nas páginas deste belíssimo romance. Composição de histórias autónomas, que se traçam em fios secretos, “O Teu Rosto Será o Último” é um romance apoiado em imagens fortes que nos dá um perturbador painel do presente português. Nenhum leitor ficará indiferente à sua linguagem marcada pelo lirismo e pela violência do quotidiano.
João Ricardo Pedro mostra que mesmo numa situação de desamparo é possível encontrar caminhos novos. E que um desses caminhos passa pela criação, pela arte, pela cultura. Tal como em outras épocas difíceis, o mundo volta a precisar dos filósofos, dos escritores e dos poetas.
Contra a crise, atrevo-me a recomendar aos políticos, tanto aos do governo como aos das oposições: ler todos os dias um poema e algumas páginas de um bom romance como o de João Ricardo Pedro. Faz bem à saúde e ao espírito. E até à política”.
“O Teu Rosto Será o Último”, de João Ricardo Pedro, é um livro fantástico e um hino à língua portuguesa!

terça-feira, 5 de março de 2013

O POVO NA RUA E O PS ESCONDIDO!


1. Este sábado, 2 de Março, entra na História como mais uma oceânica manifestação nacional que levou centenas de milhares (há quem fale em milhão e meio) de portugueses às ruas de 40 cidades do país, para protestar contra a odiosa e reiterada política de austeridade do actual governo, servil executor dos ditames da tríade internacional que nos empresta dinheiro a troco de inqualificável exploração especulativa.
Promovida pelo movimento «Que se lixe a troika, o povo é quem mais ordena», que começa a mexer com o coração e a raiva dos cidadãos causticados por uma crise financeira de que não se julgam culpados, e não o são, a contestação juntou pelos menos 800 mil pessoas em Lisboa, 400 mil no Porto, dez mil em Braga e inúmeras em outras cidades portuguesas e até em capitais estrangeiras.
Eram novos e velhos, desempregados e profissionais dos mais diversos sectores, reformados, gentes de diversa proveniência económica e social, a dar voz e rosto ao protesto contra a situação económica e as perspectivas dramáticas que se antevêem para o país. Toda a nação esteve representada!
Em todas elas, o povo se trajou de cartazes, telas, slogans e tarjetas contra as políticas selvagens do governo, que estão a destruir o tecido social e humano deste país, ao resultarem no aumento diário do desemprego para números absolutamente pornográficos, ao provocarem falências em série, ao evidenciarem uma estratégia de destruição do Estado Social, lesando os direitos da generalidade dos portugueses no legítimo acesso aos serviços de saúde, educação e segurança social, em condições de dignidade e justiça, como manda a Constituição da República, que tantos engulhos provocam a alguns, que mais gostariam de não haver constituição alguma.
Em fundo, e por todo o país, entoou-se até às lágrimas e ao mais fundo da alma revoltada a mítica canção «Grândola, Vila Morena», que Zeca Afonso escreveu em momento de épica inspiração, que foi santo-e-senha do 25 de Abril de 1974 e que volta a constituir lema icónico neste tempo de negrume e desesperança, de tristeza e rejeição do vampirismo, de justa e serena contestação. Por muito que custe a ministros incompetentes e a patrões que vivem à custa do povo, como Alexandre Soares dos Santos, que parasita os consumidores portugueses. O 25 de Abril está de novo no coração dos portugueses, sem dúvida!
Foi pedida a demissão do governo, a quem foi apontada a rua por quem na rua estava!
Enfim, um protesto enérgico, expressivo, eloquente para quem o queira “ler”, que não pode ser, por isso, desvalorizado nem menorizado pelo governo e pela tróica, que são os algozes dos cidadãos, de um povo que está farto de ser espezinhado, calcado, maltratado, espoliado e que, na hora certa, saberá responder cabalmente à situação, não tenham dúvidas os políticos bulldozers dos nossos aziagos dias!
É que estamos fartos de ser bem comportados, alinhadinhos com uma Europa que não nos liga nenhuma, que se borrifa para os mais fracos, que apenas quer prosseguir os seus interesses capitalistas e financeiros, que não são rigorosamente a nossa praia.
 
2. Enquanto o povo se manifestava exuberantemente na rua, com toda a sua paixão, com a sua justa indignação, com o furor do seu descontentamento, o secretário-geral do PS não teve mais que dizer aos portugueses, em Campo Maior, que “têm muitas razões para estarem indignados». E que o governo devia ter a inteligência de reconhecer que falhou.
António José Seguro acusou o primeiro-ministro de praticar uma política baseada na «inconsciência» social, e que «só quem não conhece a realidade e o sofrimento por que passam os portugueses, é que pode dizer, perante o maior aumento do desemprego que nós conhecemos na história do nosso país, que esses dados estão em linha com as previsões do Governo». «Nunca vi tamanha inconsciência do ponto de vista social num governante no nosso país», sentenciou o líder socialista.
É claro que o que António José Seguro tinha obrigação de fazer era estar na rua, na tarde deste sábado, com a justa indignação dos portugueses. O PS só será poder quando se demarcar decisivamente, claramente, cristalinamente, do governo, da ignorante tróica e de um memorando que não tem nada a ver com o que foi assinado há quase dois anos. Só um líder fraco, demasiadamente light e sem a mínima convicção, diz o que diz e não sai para junto do povo, para manifestar a revolta contra uma situação de destruição ideológica de Portugal. Pode estar à vontade e sem peso de consciência, que os portugueses já perceberam que o memorando que o actual governo tanto acena ter firmado com o BCE, o FMI e a Comissão Europeia do grande patriota Durão Barroso, que é quem mais se entesa para o endurecimento das condições impostas ao povo do seu país, tem tanto a ver com o que o PS assinou como algumas lasanhas têm a ver com a carne de vaca!
Inacreditável, simplesmente, esta submissão aos fantasmas de um socratismo que é pura imaginação do poder vigente, para melhor domesticar um Partido Socialista que não se consegue libertar das suas sombras recentes!
Razão tem o antigo presidente do Governo Regional dos Açores, Carlos César, ao considerar que o PS «ainda não concretizou o grande desafio» de «corporizar» o descontentamento dos portugueses contra o governo.
Proclamou ele, este fim-de-semana: «Tenho dito que o Partido Socialista tem feito um grande esforço para corporizar, dar dimensão e interpretar este descontentamento que há no nosso país e construir uma política alternativa, mas, verdadeiramente, o PS só será eficaz se o crescimento do descontentamento em Portugal tiver uma proporção no crescimento da influência do PS e do seu potencial eleitoral. Enquanto o descontentamento crescer mais do que a confiança no PS, ainda não somos suficientemente fortes para responder afirmativamente e com credibilidade aos anseios do povo português».
Este é o julgamento de António José Seguro, que se tem mostrado incompetente para capitalizar o justo descontentamento que grassa na sociedade portuguesa. Com a sua atitude passiva, de mero criticismo comicieiro, não vamos a lado nenhum. Ou rompe com a situação ou não chega a S. Bento. Ele é que tem de escolher, e urgentemente!
Os portugueses não podem esperar mais!

segunda-feira, 4 de março de 2013

Fafenses passearam por Montalegre


 
O Centro Cultural, Social e Desportivo dos Trabalhadores da Câmara Municipal de Fafe rumou este sábado até Montalegre, terra que me diz muito. Cerca de meia centena de funcionários de diferentes serviços e categorias conviveram ao longo do dia, fraternalmente.
Começámos por parar nos cafés de Salto, freguesia onde nasci e próximos da igreja onde fui baptizado, para o “cafezinho” da manhã. Que bem que soube!
Seguiu-se um momento histórico: a visita à Central Hidroeléctrica dos Pisões (Alto Rabagão). Descemos até à cota de 188 metros abaixo da superfície, visitando a maquinaria que bomba a água até à barragem da Venda Nova. Um privilégio certamente irrepetível!
O almoço, ao lado do paredão da albufeira, foi o máximo, culminado com um cozido de truz! Muita animação musical, pelo acordeão do Albano Pereira e acompanhantes de viola (Ana Maria, Pinto e Tó), deu para passar algumas horas no conforto do restaurante, rodeado de um frio de neve.
O último marco miliário da visita foi Montalegre, a vila do famoso Ecomuseu – Espaço Padre Fontes, do carvalho da Forca, da estátua do João Rodrigues Cabrilho, que descobriu a Califórnia em 1542 e do seu ícone maior, o Castelo, onde se tirou a foto de grupo, para a posteridade, e se voltou a contactar a neve, ainda em abundância.

Um dia em grande, sem dúvida, com frio, qb, mas com o calor da maior amizade!




 

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

“FAFE CIDADE DAS ARTES” – PROJECTO PARA DINAMIZAR AS ARTES E A CULTURA NO MUNICÍPIO





O projecto “Fafe Cidade das Artes” foi apresentado publicamente, esta segunda-feira, à comunicação social e aos parceiros e interessados.
Na mesa, estiveram o presidente da Câmara, José Ribeiro, o vereador da Cultura, Pompeu Martins e o director artístico, Moncho Rodriguez. Na plateia, dezenas de pessoas, entre as quais alguns dos protagonistas, sobretudo os agentes que vão corporizar este grande desafio a desenrolar ao longo deste ano os atores Cristina Cunha, Pedro Giestas, Fernanda Pimenta, Marta Carvalho e Wagner Kosisck e o compositor Narciso Fernandes, entre outros).
Projecto aberto a toda a população, “catalisador das sinergias criativas, pretende promover a fusão de saberes entre especialistas profissionais e amadores da arte e da cultura local”, nas palavras de Moncho Rodriguez.
Pretende ainda, segundo o vereador Pompeu Martins, “projectar o município de Fafe como exemplo de Cidade das Artes, do Teatro, da Dança, da Música, da Literatura, da Cultura”. Trata-se de um plano que quer também atrair e acolher em residências artísticas temporárias criadores do mundo inteiro com diferenciados saberes e experiências, para que promovam intercâmbios e parcerias entre as gentes de Fafe e outras culturas, sobretudo do Brasil.
Trata-se, na verdade, de um grande projecto de cultura participada, aberto a toda a comunidade, nas áreas da música, do teatro, do bailado, cruzando e fazendo dialogar a arte popular e a arte erudita e juntando todas as faixas etárias, dos mais pequenos, aos seniores.
O projecto faz uma convocatória à sociedade fafense, para embarcar na cultura comum, entrecruzando criativamente a modernidade e a tradição, fazendo convergir nele a memória, o imaginário, a história e a criatividade.
Pedro Giestas, em nome dos atores presentes, agradeceu à Câmara de Fafe “o ter abraçado este projecto”, de portas abertas, em que ninguém é excluído, em função dos seus talentos e artes e “que não se faz sem os fafenses”.
O presidente da Câmara, José Ribeiro, começou por defender que “o mais fácil, neste momento de crise, era não ter projecto nenhum”. Porém, a autarquia dinamiza este “projecto de utopia, de grande fé, aberto à sociedade, envolvendo as forças das colectividades, da cultura e da sociedade civil”, para que este caminho se venha a tornar “uma auto-estrada de afirmação dos fafenses”.
“ Fafe Cidade das Artes” pretende, assim, segundo o coordenador d director artístico, Moncho Rodriguez, constituir-se em “espaço privilegiado de criatividade, que incentive a participação activa da população em projectos e realizações culturais, fortalecendo os interesses autóctones e promovendo renovação nas artes da tradição ao contemporâneo. A sua proposta de programação tem como principal objectivo contribuir para que as criações culturais e artísticas na cidade de Fafe possam ter um maior envolvimento por parte da população, um elevado nível de qualidade artística e que propiciem a formação e descentralização cultural dentro do próprio Município”.
Projecto de desenvolvimento comunitário, integra oficinas de formação teatral, para todos os públicos, residências artísticas em regime de intercâmbio (a actriz brasileira Fernanda Pimenta, está já entre nós, entre Fevereiro e maio, enquanto o Teatro Andante de Minas Gerais – Brasil, estará entre Março e Junho, incluindo, em ambos os casos a apresentação de espectáculo, criação de espectáculo inédito, pesquisa nas tradições e encontros com a comunidade), espectáculos no Teatro-Cinema e nas freguesias (21 eventos), um grande espectáculo “Saudade do Futuro”, em 10 de Junho, na Praça 25 de Abril, o primeiro encontro de palhaços do mundo (Julho) e múltiplas outras acções que pretendem transformar Fafe num centro de criatividade e dinamização cultural para todos os fafenses!

Fotos: Manuel Meira Correia






sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

A respeito da falta de respeito!


1. Na última semana, vários governantes foram interrompidos pelo pulsar mais profundo da sociedade portuguesa. E queixam-se amargamente de que a situação já está a passar das marcas.
Esta quinta-feira, no final da reunião do Conselho de Ministros, o secretário de Estado da Presidência do Conselho, Luís Marques Guedes, não foi vaiado, porque a coisa se faz em sala fechada, para as televisões, atribuiu a alegados «grupos minoritários», a perturbação que tem ocorrido em iniciativas onde participam membros do Governo.
E o homem até falou na falta de respeito que estará a haver por parte desses portugueses para com o governo.
 
2. Na verdade, os governantes estão no seu pleno direito de lamentar a falta de respeito dos portugueses. Estou com eles, com o seu esforço descomunal e hercúleo para elevar o país que cada vez mais afundam.
Têm razão os governantes ao pedir respeito, esse mito sagrado de que todos gostam e ninguém cumpre. Afinal, o respeito que merecem é o respeito que advém do estrito cumprimento dos compromissos que assumiram vai para dois anos:
- o de não aumentar selvaticamente os impostos,
- o de não cortar criminosamente salários e pensões,
- o de não empobrecer barbaramente os portugueses,
- o de não cortar o apoio social aos mais pobres,
- o de não facilitar os despedimentos e fazer explodir as falências,
- o de não aumentar em mais 300 mil o exército de desempregados,
- o de não desertificar ainda mais o país,
- o de não incentivar milhares de jovens e menos jovens a emigrar, como único recurso para subsistirem,  
- o de olhar mais para os interesses dos cidadãos portugueses que para os especuladores financeiros nacionais e internacionais,
- o de não contribuir, nem de perto nem de longe, para que milhares de portugueses fiquem sem casa, que é o último reduto da dignidade, sem emprego, sem possibilidades de continuar a estudar no ensino superior ou até a frequentar o jardim de infância, ou o lar de idosos,
- o de ser forte para com os fortes (os interesses económicos, o sistema financeiro, o alto capital) e protector dos mais fracos e desprotegidos,
- o de não mentir aos cidadãos, cumprindo promessas eleitorais!
Como cumpriram, e respeitaram escrupulosamente todos e cada um destes compromissos, e de outros que aqui se não enumeram, por fastidiosos, os Passos, Relvas e Macedos têm inteira razão para se indignarem com os portugueses que os contestam, interrompem e silenciam, porque afinal demonstram ser uns ingratos e mal-agradecidos para quem quer o melhor para os cidadãos, para quem afanosamente combate pela melhoria do acesso de todos à saúde, à educação e à segurança social, em condições de justiça e de qualidade, como é timbre do Estado Social, que vertebra a Europa civilizada!
Na verdade, este povo está a passar das marcas! Quer dizer, a ganhar consciência política e social, a concluir que a democracia representativa e do voto rotineiro e descomprometido é fundamental mas não suficiente para acalentar a mundividência de uma sociedade cada vez mais exigente, apesar de espezinhada por impostos e alienações.
Quem não consegue perceber essa realidade, vai passar a vida a queixar-se da ingratidão dos portugueses e da falta de respeito de alegados “grupos minoritários”, que seguramente não o são e vão crescendo dia a dia, apesar da convicção de que estamos numa “democracia madura e estável”, como apreciam os políticos que mais contribuem para a denegrir! 

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Um povo que não consegue sentir a mínima esperança!

 
1. Neste sábado, incontáveis milhares de portugueses saíram à rua, um pouco por todo o país, Braga incluído, para demonstrar a sua indignação, agastamento e revolta pelo rumo que a governação está a tomar.
Gritaram-se palavras de ordem contra um governo “que se ajoelha perante a tróica e inferniza a vida aos portugueses», como foi sublinhado, chegando o líder da Intersindical, Arménio Carlos, a acusar o executivo de estar a afundar o país e reafirmando o pedido para que “Passos Coelho se vá embora”.
O dirigente máximo da CGTP classificou a ofensiva governamental contra os portugueses de “ajuste de contas com Abril» e acabou por pedir que o Governo tenha a coragem de cortar com a «despesa inútil e parasitária», sugerindo um corte nos «8.000 mil milhões de juros pagos aos usuários que fazem negócio com a dívida soberana», um corte «nos milhões desperdiçados nas negociatas das Parcerias Público Privadas», um corte «nos chorudos benefícios fiscais aos grandes grupos económicos» ou aos «gestores que auferem salários multimilionários». Inteiramente de acordo. Haja moralidade!
2. Os portugueses têm inteiro direito de estarem indignados, revoltados, desiludidos com o estado a que as coisas chegaram. Estamos em presença de um governo que, sistematicamente, erra previsões, falha objectivos, não atinge os mínimos estabelecidos para as metas. Um governo que, estando a actuar ao contrário de tudo o que prometeu, pondo em causa a sua legitimidade política, sem qualquer dúvida, demonstra uma insensibilidade social atroz, chocante, tanto se lhe dando que haja um milhar como um milhão de desempregados, o que não é bem a mesma coisa.
As medidas que têm sido tomadas nos últimos tempos para enfrentar a crise têm gerado monstros de imensas cabeças. A paixão da austeridade tem somado mais desemprego, mais pobreza, mais dependência externa.
Soube-se nos últimos dias que a taxa de desemprego em Portugal deverá continuar a subir este ano, até atingir os 17%, número bem pior que o governo temia. Porque o governo pensa estancar o desemprego e as falências com o alentejano dinamismo de Gaspar, mas a doentia “receita” da tróica não pode dar outro resultado. Por isso, há que mudar urgentemente de política, como bem sublinhou este fim-de-semana António José Seguro, e que a sétima avaliação dos sanguessugas da tróica seja feita a nível de “políticos” e não de “técnicos”, cuja incompetência para conhecer, sentir e avaliar Portugal já está mais que demonstrada!...
Trocado por miúdos: mais de 923 mil pessoas estão oficialmente sem trabalho em Portugal. O que representa mais 20% relativamente ao ano anterior.
O caso dos jovens é o mais grave, com uma taxa de desemprego nos redondos 40%, no último trimestre de 2012. Estamos a falar de 164,9 mil pessoas entre os 15 e os 24 anos. Uma enormidade.
Outro dado relevante, prende-se com o número de pessoas sem trabalho com habilitações superiores: quase 150 mil. Diria: uma atrocidade, aqui ou em qualquer lugar do mundo!
3. Outro dado absolutamente aterrador: a taxa de risco de pobreza em Portugal atingiu os 18% em 2011, segundo revela o relatório «O impacto da crise europeia», da Cáritas Europa, conhecido na passada semana. Um número muito acima da média da União Europeia a 27. Significa que o risco de pobreza no nosso país atinge mais de 1,9 milhões de pessoas, que viram os seus rendimentos degradados nos últimos anos e não conseguem fazer face às exigências da sua vida diária, nos seus diversos sectores.
Essa inacreditável e indigna taxa de pobreza desdobra-se em números impressionantes: a pobreza infantil atinge os 29%, o que só pode envergonhar quem tem e teve responsabilidades políticas neste país e que não é nem foi capaz de estar à altura das suas exigências; a taxa de pobreza entre os idosos regista os 20%. É o resultado visível e imediato das férreas políticas de austeridade dos últimos anos e em especial no último ano e meio, em que foram destruídos postos de trabalhos como não há memória.
Além da destruição de empregos e do empobrecimento generalizado da população, os portugueses são os líderes europeus no pagamento de impostos. Só no IRS pagamos 10% mais que a média europeia. Nós que recebemos, genericamente, ao fim do mês, bem menos que a média dos europeus!
4. No meio desta pouca-vergonha, vem Pedro Passos Coelho, ao seu pior nível, como sempre, insultar os cidadãos, numa estratégia de insensibilidade aterradora: «Os portugueses podem estar confiantes de que o Governo não exigirá mais do que aquilo que é necessário para que se cumpram os objectivos, sem que a corda que está esticada possa vir a partir”.
O primeiro-ministro não disse, como seria exigível a um estadista, que o governo não exigirá mais que os portugueses podem legitimamente dar. Disse, como não devia, que o governo se está marimbando para o que os portugueses podem pagar. O governo vai exigir-lhes o coiro e o cabelo, o que podem ou não podem, reduzindo-os à miséria, se necessário for, porque o que interessa é cumprir os objectivos estabelecidos pela malfadada tróica. Mesmo que para os concretizar seja necessário reduzir os portugueses a escravos ou a emigrantes. Esta gente que ocupa provisoriamente S. Bento borrifa-se para que haja milhares de crianças que chegam à escola sem tomar o pequeno-almoço, milhares de idosos sem condições para suportar o “assalto à mão armada” que são as novas rendas ou que haja muitos milhares de portugueses que se vejam obrigados a abandonar as suas casas, os seus sonhos de toda uma vida, porque não conseguem pagar as suas contas ao fim do mês. São obrigados a pagar as contas do Estado, que não contraíram, e para as quais tem de haver responsáveis e não conseguem pagar os seus compromissos pessoais. Será legal e constitucional essa situação? Só num país de papel, isso acontece!...
5. Enquanto a vizinha Espanha, vai negociar com Bruxelas e com o Fundo Monetário Internacional um abrandamento da austeridade, para que os cortes orçamentais não acelerem a retracção da economia, o primeiro-ministro português recusa-se a falar em «espiral recessiva» e o ministro das finanças até se mostra «optimista» e antecipa um «ciclo virtuoso» para a economia portuguesa. Estão a gozar connosco, e nós a vermos!...
São os governantes a que temos direito!...
 
(Texto de opinião publicado no Correio do Minho de 18/02/2013)

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Um livro de vez em quando: O Principezinho!

 
Se há livro que já reli várias vezes e não me canso de citar é O PRINCIPEZINHO, essa obra-prima da literatura universal, escrita pelo romancista francês Antoine de Saint-Exupéry e que foi publicada em 1943 nos Estados Unidos. Faz este ano 70 anos.
Antoine de Saint-Exupéry, nascido em 1900 e que publicaria romances de renome como Correio do Sul, Terra dos Homens ou Piloto de Guerra, faleceria prematuramente em 31 de Julho de 1944, em plena II Guerra Mundial, num acidente de aviação.
Numa primeira leitura, O PRINCIPEZINHO aparenta ser um livro para crianças, mas o seu elevado teor poético e filosófico destina-o a ser lido por todas as idades.
E o que lhes posso garantir é que a cada nova leitura, novos e surpreendentes aspectos se encontram num livrinho.
Considerado um dos grandes clássicos da literatura infanto-juvenil, este livro de alcance intemporal, revela um segredo muito simples e ao mesmo tempo muito sábio: é que as coisas realmente importantes são muitas vezes invisíveis para os olhos.
Sete décadas após a sua publicação, a sua fábula sobre o amor e a solidão não perdeu nenhuma da sua força, muito pelo contrário: este livro que se transformou numa das obras mais amadas e admiradas do nosso tempo, é na verdade de alcance intemporal, podendo ser inspirador para leitores de todas as idades e de todas as culturas.
O narrador da obra é um piloto com um avião avariado no deserto do Sahara, que, tenta desesperadamente, reparar os danos causados no seu aparelho. Um belo dia os seus esforços são interrompidos devido à aparição de um pequeno príncipe, que lhe pede que desenhe uma ovelha. Perante um domínio tão misterioso, o piloto não se atreveu a desobedecer e, por muito absurdo que pareça - a mais de mil milhas das próximas regiões habitadas e correndo perigo de vida - pegou num pedaço de papel e numa caneta e fez o que o principezinho tinha pedido. E assim tem início um diálogo que expande a imaginação do narrador para todo o género de infantis e surpreendentes direcções. O PRINCIPEZINHO conta a sua viagem de planeta em planeta, de fantasia em fantasia, debruada pelos olhos de uma criança.
 
É a perspectiva límpida, inicial e imaculada das coisas, na visão de uma criança, que não percebe porque é que os adultos têm de ser tão sérios, tão carrancudos, tão virados para as contas, para os negócios e para o que afinal não interessa, esquecendo as coisas simples da vida, o emergir de uma flor, o canto dos pássaros, o desenho de uma ovelha ou de uma cobra, o acendedor de candeeiros, o eco de uma montanha.
Um livro alegadamente para a infância mas pleno de sabedoria e de ensinamentos, que são para todas as idades e continuamente repetidos e partilhados.
Por exemplo:
- “É bem mais difícil julgarmo-nos a nós próprios do que aos outros. Se te conseguires julgar a ti próprio, és um sábio dos autênticos".
Ou:
- “Os homens, agora, já não têm tempo para conhecer nada. Compram as coisas já feitas nos vendedores. Mas como não há vendedores de amigos, os homens já não têm amigos”.
Ou:
- “Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos”. O que é importante não se vê.
Ou:
- “Nunca se está bem onde se está”.
O PRINCIPEZINHO é uma obra sobre a amizade, a criação de laços entre as pessoas, a simplicidade, o respeito pela natureza, o regresso ao universo original da simplicidade.
O PRINCIPEZINHO é o livro em língua francesa mais vendido no mundo, com cerca de 80 milhões de exemplares, e entre 400 a 500 edições. É o terceiro mais traduzido de sempre.
No Japão, há um museu dedicado ao personagem principal do livro.
A sua história foi adaptada ao cinema, ao teatro ou à banda desenhada.
Um livro de ontem, de hoje e de sempre!