terça-feira, 4 de junho de 2013

Mais falhanços, reiterada incompetência!...


1. O Governo apresentou o orçamento rectificativo de 2013, que não deverá ser o único, como admite o primeiro-ministro, que, como sempre, “não sabe” se vai ser necessário um segundo documento, porque, nas suas palavras, “não é dono do futuro”. Alguém deste governo “sabe” alguma coisa sobre o que deveria saber? Um estadista não adivinha o futuro, mas antecipa as suas consequências. O que este governo está a léguas de fazer, na sua absoluta e reiterada incompetência para prever o que quer que seja.
O pretexto para esta revisão orçamental é o famigerado “chumbo” do Tribunal Constitucional a três medidas do Orçamento de Estado para este ano. Em vez de aceitar que prevaricou e ultrapassou os limites da legalidade democrática, o que para qualquer governo é absolutamente intolerável, Passos Coelho e “sus muchachos” entraram numa perigosa “cruzada” contra as “forças do bloqueio”, como Cavaco gostava de designar quem se opunha às suas arbitrariedades (porque será que tanto se fala em Cavaco nesta altura, em que se começa a saber quem tudo fez para levar um governo de direita ao poder, em 2011, cumprindo o alegado sonho de Sá Carneiro, de um governo, uma maioria, um presidente, que está a dar no sofrimento que está à vista?!...),  que mascaram a incapacidade genética desta gente para governar o país com os níveis mínimos de capacidade e seriedade política.
Mas, como sempre fez nestes dois anos de alegada governação, em que infligiu aos portugueses o dobro dos sacrifícios que a tróica exigia, mais uma vez, a pretexto deste rectificativo, o governo vai muito além das consequências do “chumbo” do Tribunal Constitucional às medidas ilegais do Orçamento de Estado. O impacto dos efeitos provenientes daquela reprovação totalizam 1.349 milhões de euros. Porém, o total orçamental previsto neste documento ascende a 2.169 milhões.
Que não venham Passos ou Gaspar encher a boca, atirando areia para os olhos dos incautos, que os portugueses vão pagar mais impostos ou ter menos serviços devido à desaprovação do TC. Não: há uma diferença de 820 milhões de euros (é muito dinheiro, para apenas uns meses…) que provém da incompetência e dos sucessivos falhanços das previsões do executivo.
Mas os governantes já atalharam, na curva da sua incapacidade: agora vêm agora falar, metaforicamente, no “desempenho mais negativo do que o previsto” na economia portuguesa nos primeiros meses deste ano.
A este argumento falaz poderia responder qualquer merceeiro da esquina, confirmando que, numa economia absolutamente recessiva, a receita fiscal proveniente da actividade económica só poderá descer. É estulto supor que os impostos poderiam subir, com a economia em estagnação e o consumo privado em queda. Mas foi o que fez o astronómico Gaspar: previu a subida do IRC de empresas a falir e do IVA de uma economia em degradação. Só aumenta o IRS, por ser espoliado na fonte. Resultado: teve de rever em baixa a receita fiscal em 1.600 milhões.
Por outro lado, e em consequência do pântano em que mergulharam o povo português, as despesas sociais tiveram de ser reforçadas, a começar pelo subsídio de desemprego, porque somos cada vez mais um país de gente sem emprego (mais de um milhão de activos), com uma vergonhosa taxa de desemprego jovem (mais de 40%).
Aliás, como é possível há meio ano, no OE 2013, preverem uma taxa de desemprego de 16,4% e agora, passados poucos meses, a reverem para 18,2%? Absoluta ineptidão!
O que significa, em resumo, que é inaceitável e inqualificável mais um fracasso do ministro das Finanças, que, na sua obsessão por ver a realidade numa folha de excell, sem qualquer ligação ao quotidiano, não é capaz de ver o óbvio, o mais comezinho, o mais claro. Não será por acaso que um assessor do ministro da Economia até há duas semanas, Carlos Vargas, classificou Vitor Gaspar de psicopata social: "Na verdade, trata-se de um psicopata social e não de um ministro das Finanças", escreveu, acrescentando que "cada dia que passa mostra que Vítor Gaspar é o ministro das Finanças mais arrogante e mais incompetente desde o reinado de D. Maria II".
Continua sem se perceber como é possível manter no poder um falhado que, numa qualquer empresa, teria sido despedido, por incompetência, logo após a tomada de posse!... Mas talvez tudo isto se compreenda perfeitamente, no contexto da deliberada destruição da economia portuguesa pelo capitalismo financeiro europeu, de que Gaspar é marioneta e Passos o capataz…
 
2. Que este governo está a destruir o país e a economia não resta a menor dúvida. Como não se duvida da absoluta insensibilidade e alheamento com que o governo encara a situação concreta dos portugueses, que não têm culpa dos desmandos que têm sido cometidos pela política e pela banca. Para o governo, é indiferente que haja um milhão de desempregados, dois milhões de pobres, ou milhares de crianças com fome, que apenas conseguem ingerir uma refeição na escola. O sofrimento dos portugueses passa ao lado desta gente.
As pessoas não interessam. Para o governo, é irrelevante se os portugueses têm ou não meios para satisfazer as suas necessidades; se vão para o desemprego ou ficam sem dinheiro para colocarem os filhos na escola ou na universidade. O que importa é cumprir o défice, satisfazer os interesses dos credores internacionais. Fazer o apopléctico “ajustamento”.
Quando Passos Coelho, que se supunha uma pessoa de bem, mas não é, consegue afirmar, sem pedir desculpa, que a «austeridade é a necessária para cumprir o objectivo do défice de 5,5%”, ou que «não há mais austeridade do que aquela que é requerida», na linha do “custe o que custar”, sabendo-se as dramáticas consequências que tal implica, para as pessoas concretas, e não para programas informáticos, demonstra abjecta falta de escrúpulos, ausência de humanismo e de dignidade política e pessoal.
Merece todas as contestações dos portugueses, todas as greves, todas as manifestações. E ainda são poucas.
E merece ser corrido de S. Bento, o mais rapidamente possível. Sem qualquer contemplação! Antes que acabe com o país e o povo português!
 
(artigo de opinião publicado no diário "Correio do Minho", de 3 de Junho de 2013)

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Fafe na obra “101 Lugares para ter medo em Portugal”



Depois do êxito de Histórias de um Portugal AssombradoCasas assombradas, fantasmas misteriosos, lendas e mouras encantadas, livro editado em 2012 e já em quarta edição, a jornalista Vanessa Fidalgo, do Correio da Manhã, acaba de publicar 101 lugares para ter medo em Portugal – Mistérios e fenómenos inexplicáveis, encantamentos e maldições de um país assustador.
A obra divide-se em sete capítulos: “Mistérios, fenómenos inexplicáveis e assustadoras coincidências”; “Portugal: terra de superstições, encantamentos e maldições”; “Aqui há fantasmas”; “Mafarricos, bruxas e bruxarias”; “O estigma do crime”; “Um susto de paisagem” e “À beira do abismo”.
Trata-se de um livro que inscreve um mapa do medo em torno de lugares especiais pelo pavor que incutem, e que percorre ruas, casas e paisagens, “contando histórias dos lugares onde passamos todos os dias, mas que estão marcados por acontecimentos terríveis, sejam eles crimes, manifestações do sobrenatural ou simplesmente o fantástico e maravilhoso lendário popular”, como quer a jovem autora (35 anos).
Alguns casos relatados:
Em 2003, os atores interromperam espavoridos as gravações da telenovela O Teu Olhar. Estavam a ser atacados por forças sobrenaturais no castelo de Montemor-o-Velho. A 10 de Outubro de 1982 um estranho fenómeno deixou a caseira da Quinta da Penha Verde, em Sintra, a tremer que nem varas verdes; uma verdadeira chuva de pedras caiu sobre a misteriosa quinta. Já se for à Serra da Estrela e visitar a Lagoa Escura vai poder ouvir falar do monstro que se esconde nas suas profundezas. Entre as aldeias de Lamas de Mouro e Cubalhão, perto de Melgaço, há um local que se chama Botas de Cubalhão, que fica numa encosta onde não existe mais nada além de uma pequena encruzilhada. Conta-se que nessa encruzilhada existe um lobo, capaz de engolir todo e qualquer homem que se aproxime dele pela calada da noite, seja novo ou velho, fraco ou forte! E tudo porque o povo se fartou de encontrar naqueles caminhos escuros, botas, sapatos, pedaços de vestuário e até bocados de pés, que deram nome ao lugar e muitos motivos à imaginação. Numa terra conhecida como Torre da Mesqueira, no concelho de Albufeira, há uma encruzilhada que assusta muito boa gente. Um ponto obscuro entre caminhos onde, segundo a voz do povo, aparecem fantasmas, almas penadas e até mulas sem cabeça! Em pleno centro histórico de Lisboa,  situa-se o Páteo do Carrasco que herdou o nome de Luís Alves, o último carrasco de Portugal. Há quem garante que ainda se ouvem os seus urros e gritos. No Palácio de Seteais há quem não consiga dormir no quarto 18. Ainda hoje o Aqueduto das Águas Livres causa arrepios quando se pensa no que aconteceu há 150 anos atrás, altura em que Diogo Alves por lá andava a matar as suas vítimas
Tive a honra de contribuir com informações e investigações para esta obra sobre o fenómeno sobrenatural que é tão comum no país.
Forneci à autora informações e fotos sobre casos estranhos e lendários de Fafe. Concretamente, sobre a “Santinha de Fafe”, Maria de Jesus Teixeira, que esteve entrevada 44 anos, sem se alimentar e em cujo funeral aconteceu um “dilúvio de borboletas” (pp. 52- 55) e sobre a “Bicha das Sete Cabeças” (pp. 85-86), uma lenda conhecida dos naturais.
Estamos em presença de uma obra interessantíssima, a ler, com imenso prazer e curiosidade!

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Uma obra de vez em quando: “O filho de mil homens”, de Valter Hugo Mãe


 
Valter Hugo Mãe é um dos mais consagrados escritores portugueses da nova geração.
Nasceu em Angola em 1971. Passou a infância em Paços de Ferreira e, actualmente, reside em Vila do Conde.
É licenciado em Direito e pós-graduado em Literatura Portuguesa Moderna e Contemporânea.
É autor de diversos livros de poesia, reunidos na colectânea Contabilidade (em 2010), de antologias poéticas e de romances que o projectam na cena literária portuguesa da actualidade.
Além disso, escreveu quatro livros ilustrados para o público infanto-juvenil, é vocalista do grupo musical Governo e esporadicamente dedica-se às artes plásticas.
Os quatro primeiros romances de Valter Hugo Mãe, nome artístico do escritor Valter Hugo Lemos, formam uma tetralogia que percorre, através de personagens distintas, o tempo completo da vida humana, da infância à velhice. Falamos de O nosso reino (2004), o remorso de baltazar serapião, vencedor do Prémio José Saramago (2006) o apocalipse dos trabalhadores (2008) e a máquina de fazer espanhóis (2010), Grande Prémio Portugal Telecom de Literatura.
Ao quinto romance, deixou de grafar o seu nome em minúsculas e assinou o mais delicado e afectivo dos seus livros, com o título O filho de mil homens.
Trata-se de um romance que inicia um novo ciclo na sua criação literária e se encontra marcado pelo grande desejo da paternidade e da família.
Esta é a história de Crisóstomo que, chegando aos quarenta anos, lida com a tristeza de não ter tido um filho. Do sonho de encontrar uma criança que o prolongue e de outros inesperados encontros, nasce uma família inventada, mas tão pura e fundamental como qualquer outra.
As histórias do Crisóstomo e do Camilo, da Isaura, do Antonino e da Matilde mostram que para se ser feliz é preciso aceitar ser o que se pode, nunca deixando contudo de acreditar que é possível estar e ser sempre melhor. As suas vidas ilustram igualmente que o amor, sendo uma pacificação com a nossa natureza, tem o poder de a transformar.
Tocando em temas tão basilares à vida humana como o amor, a paternidade e a família, O filho de mil homens exibe, como sempre, a apurada sensibilidade e o esplendor criativo de Valter Hugo Mãe.
São mais de 250 páginas de puro prazer literário e de afirmação de um notável escritor português, que chegou a afirmar que cresceu a escrever muito, mas não achava que ser escritor era algo que pudesse ser. “Eu escrevia para mim, para fazer a manutenção dos meus dias, para suportar os meus dias” – referiu, no Brasil, ao agradecer o Grande Prémio Portugal Telecom 2012.
Ainda bem que passou a escrever para um público mais vasto, em diversos países, que o lê e o admira.
É um dos valores maiores da nova literatura portuguesa!
Boas leituras!

terça-feira, 7 de maio de 2013

A nau dos loucos!

 
1. Este governo não pára de massacrar os portugueses. Já é sadismo. Apaixonado e reiterado culto da austeridade. Neste caso, os exclusivos suspeitos são os do costume: os funcionários públicos e os aposentados. Na obtusa óptica governamental, eles são os culpados pela situação a que o país chegou. Foram eles que desencadearam a crise, há cinco anos, por pura especulação financeira. Foram eles que firmaram os ruinosos negócios das PPP, como todos sabemos. São eles que ganham 1 milhão de euros por ano, como o insuportável consultor do governo e explorador da EDP, António Mexia. Logo, é justo que “paguem a crise”.
Passos Coelho, que para anjo só lhe faltam asas, limitou-se, esta sexta-feira, com voz grossa, decidida e executiva, a informar os portugueses que tem de saquear 4,8 mil milhões de euros para dar aos seus amigos da tróica, de que ele não passa de subserviente feitor em Lisboa. Acenou os habituais fantasmas, fez chantagem inqualificável para amedrontar os portugueses, que ou aceitam a miséria ou vem aí a bancarrota. Simplesmente, indigente!
São 30 mil funcionários públicos que vão para a rua, na gaspariana e patética perspectiva de que “é possível fazer mais com menos”; é o aumento do horário de trabalho no Estado para as 40 horas, para que os serviços possam ter tempo de abrir as portas ao comércio que já não existe; é o aumento dos descontos para a ADSE em mais 0,75%, para solidificar a saúde dos prestadores públicos; é o aumento da idade de reforma para os 66 anos, como forma de levar a terceira idade aos serviços públicos, servindo mais eficazmente os utentes, pela experiência e reumatismo acumulados e, bem assim, evitar que aqueles sejam infestados por sangue jovem e inconformado; enfim, é a revisão anunciada da tabela remuneratória da função pública, que significa um abaixamento do vencimento dos funcionários públicos (a somar aos cortes que já duram há três anos, ao congelamento das progressões e ao aumento do horário de trabalho) como factor de elevado cariz motivacional, inspirada no consagrado “embaixador” do governo para a imbecilidade, de nome Miguel Gonçalves. Para os aposentados vem mais um escondido imposto, embrulhado com a lengalenga da “sustentabilidade”.
Mas, como se referiu, os funcionários públicos e os aposentados devem pagar com língua de palmo os desmandos deste país nestes últimos anos. Por uma outra razão: também contribuíram para colocar no governo quem lá esteve e quem lá está. Então, que paguem o devido estipêndio!
Chamam a esta pilhagem a sectores específicos da sociedade portuguesa “reforma do Estado”. Já a baptizaram como “refundação”, mas como ninguém acreditou, nem acredita, que estejamos a falar do que não estamos a falar, a coisa foi abandonada à sua sorte. A coisa, não o saque.
Espera-se que o Tribunal Constitucional, o último baluarte da defesa da legalidade neste país, já que ninguém espera nada de uma múmia que habita, estoicamente, o Palácio de Belém, continue a salvaguardar a Constituição e a justiça social, face a um governo fora de lei, anticonstitucional e que nutre um criminoso ódio visceral a rudo o que é público, seja em que área for, porque interessa desmantelar o sector estatal, para o dar de mão beijada aos privados.
Os cortes brutais na saúde e na educação têm essa matriz ideológica absolutamente explícita!
 
2. É claro que o inefável Passos Coelho, na sua estratégia buldózer sobre tudo o que mexe e que possa render uns patacos, não conseguiu, em meia hora, uns segundos para amenizar o desconforto dos desempregados e o aumento brutal que se espera do desemprego. Nem teve uma mínima palavra de gratidão para os portugueses, trabalhadores e aposentados, vítimas nos dois últimos anos de uma desumana asfixia financeira, de um ataque bárbaro aos seus bolsos, pelos salteadores legalizados por eleições.
Nem uma palavra ou uma medida que afectem ou ponham em causa as verdadeiras sanguessugas do Estado. Nada sobre a renegociação das PPP, as rendas excessivas da energia, que continuam intocadas, os benefícios fiscais de grandes empresas e da banca, que se mantêm inalterados. Nada sobre a urgente diminuição do número de deputados e dos “boys” (que agora se chamam “especialistas” e auferem 4-5 mil euros por mês) nos gabinetes ministeriais. Uma vergonha nacional!
Este governo continua a ser excessivamente forte com os fracos e submissamente fraco com os fortes, sejam as grandes empresas, o sector financeiro ou da construção civil, sejam os engravatados do FMI, BCE e CE.
Para os trabalhadores, acabaram-se os “direitos adquiridos”, mesmo que a meio do contrato. Já não têm direito à totalidade do seu salário, nem à perspectiva das férias, nem à reforma na idade que estava estipulada. Para os trabalhadores, os contratos podem alterar-se com uma simples decisão do Conselho de Ministros. Para os grandes interesses económicos e financeiros, que envolvem milhões ou biliões, os contratos estão blindados a qualquer alteração!...
Estamos conversados. Miseravelmente conversados!
 
3. É claro, para qualquer merceeiro, que as medidas anunciadas terão como efeito aumentar a quebra de consumo e a recessão, com o consequente aumento das falências e do desemprego. Se as famílias não tiverem rendimento adequado, são afectados não só o comércio e serviços, mas também a indústria e todas as actividades económicas.
Por isso, com tantos rendimentos retirados às famílias, é anedótico que o governo prometa para 2014 um aumento de 0,6% do consumo privado. Mas esta previsão vale o que valem todas as projecções do ministro Gaspar, que não acerta com um mero dardo num corpulento elefante. O que significa que a recessão e a austeridade vão continuar, sem abrandar em 2015,curiosamente o ano em que, se não for antes, nos livraremos, finalmente, de quem estar a destruir ideológica e impenitentemente este país de nove séculos
Até lá, reina uma absoluta demência, vinda da nau dos loucos, de quem já estamos fartos até aos cabelos.
Termino com uma citação da insuspeita Manuela Ferreira Leite, ex-líder do PSD: "Não estou nada convencida de que seja exequível aquilo que estão a dizer que vão fazer. Podem anunciar, podem amedrontar, podem criar ainda mais espírito de recessão, podem afundar psicologicamente as pessoas, mas resultados não vão ter nenhuns”. Eu não diria melhor!
 
(Publicado no Correio do Minho, de 6 de Maio)

sexta-feira, 3 de maio de 2013

DIA DO TRABALHADOR. OU NEM POR ISSO!

Esta quarta-feira comemorou-se mais uma vez o Dia Internacional do Trabalhador.
Supostamente, e respeitando a efeméride, deveria ser um dia de festa e de luta, como de costume.
De festa, para evocar os progressos que se registaram ao longo de um século em favor da dignificação do trabalho e da pessoa do trabalhador.
De luta, no sentido de conseguir que os trabalhadores sejam mais respeitados e honrados nas situações em que o não estão a ser. Claramente.
Por esta altura, o Dia do Trabalhador, no nosso país, não é uma coisa nem outra. Dramaticamente.
Poderíamos, antes, afirmar que estamos em presença de um dia de luto e indignação.
Luto pela perda constante e reiterada de direitos, liberdades e garantias dos trabalhadores.
Os trabalhadores portugueses estão a ser espoliados, despudoradamente, escandalosamente, de direitos conquistados ao longo de décadas, desde o 25 de Abril de 1974. Estamos em presença da maior ofensiva contra os trabalhadores dos últimos 40 anos: em matéria de horário de trabalho, de vencimentos, de consideração pela dignidade das pessoas que exercem uma profissão.
Hoje por hoje, um trabalhador é apenas uma mercadoria, uma coisa, num sistema mercantilista. Um instrumento absolutamente descartável: se não serve, deita-se fora, como inutilidade. A pretexto de uma qualquer reorganização ou reestruturação de serviços, despede-se um trabalhador, com o maior dos à-vontades, com a mais pérfida insensibilidade, como se fora lixo.
É o capitalismo selvagem no seu esplendor, sem alma, sem coração, como há muito não se via.
Estamos em presença de um claro e acentuado retrocesso civilizacional de muitas décadas.
A indignação surge exactamente desse desrespeito pela pessoa humana, pelo trabalhador em si, que não é uma fria máquina, um mero número, uma cifra de pontógrafo, mas um ser com sentimentos, com vivências, com qualificações, com competências, com atitudes, com objectivos. Muitas vezes, se não funciona, se não rende mais, é porque o sistema envolvente não e motivador, ou porque a organização falha rotundamente.
O luto tem mais um nome: desemprego. Escandaloso! Inadmissível. Inqualificável.
Desemprego em todos os sectores, com mais de um milhão de inactivos, mas em especial entre a geração mais jovem, sonhadora e qualificada.
Um desemprego que representa já 38,3% do total dos portugueses que não conseguem uma colocação compatível no mercado do trabalho. A quarta taxa de desemprego jovem mais elevada da União Europeia, atrás da Grécia, Espanha e Itália.
No mesmo dia em que supostamente se festejaria o Dia do Trabalhador – com cada vez menos trabalhadores e mais desempregados – o governo indiciava cortes nas funções sociais do Estado, em valores colossais, indiciando mais despedimentos, mais falências, mais desemprego. Mais confisco nas retribuições e nas prestações.
Um futuro mais comprometido, seguramente, para o país e para os portugueses.
Bem pode pregar o Papa Francisco contra a escravatura dos trabalhadores em face dos sistemas vigentes na economia mundial!... Ninguém o ouve, nem o leva a sério, porque o determinante são os lucros, a especulação, não a ética ou a deontologia do mercado laboral, que simplesmente não existem!
O valor do trabalho é cada vez menos reconhecido e considerado. O trabalhador cada vez menos dignificado e valorizado.
Basta atentar neste simples pormenor (ou pormaior): há quanto tempo não se vislumbra o anúncio de uma medida, por mais pequena que seja, que beneficie os trabalhadores, os desempregados ou os aposentados, restituindo-lhes alguns dos seus direitos e regalias?!...
Em contrapartida, assiste-se a uma vergonhosa protecção dos grandes interesses, das escandalosas parcerias público-privadas aos ruinosos negócios do BPN ou do BPP, das rendas excessivas da EDP ao recém-descoberto escândalo dos contratos “swap”, que, mais uma vez, como sempre, sobram para os contribuintes pagarem.
Por isso, é que o Dia do Trabalhador não é já de festa e de luta, mas de indignação e de luto!
E oxalá não descambe para formas mais vigorosas de indignação e revolta. Já estivemos bem mais longe, apesar do mito de um “povo de brandos costumes”, que não passa de uma bem comportada ficção salazarista, sem correspondência à realidade.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Culminaram em grande as IV Jornadas Literárias de Fafe!
















Na tarde soalheira de domingo, 28 de Abril, a cidade de Fafe assistiu ao culminar das IV Jornadas Literárias, com um grandioso desfile etnográfico, no qual as nossas freguesias e associações deram o melhor de si, num grande momento de exaltação da nossa identidade comum.
As Jornadas configuram, na verdade, o acontecimento cultural mais relevante que se realiza em Fafe ao longo do ano.
Benditos homens e mulheres que Fafe tem e que, sem olhar a horas, a sacrifícios ou a cansaços, dão o melhor do seu tempo e do seu esforço para o bem da comunidade e da cultura desta terra.
Podemos considerar que eles são os heróis deste evento que, não a esgotando, obviamente, marca de uma forma impressiva e forte a cultura local!
Parabéns a todos os que organizaram, protagonizaram e assistiram a este momento maior da cultura e da identidade local!
Este fim-de-semana foi de recriações históricas em torno dos “brasileiros de torna viagem” fafenses, que teve como palco privilegiado o centro urbano, moldado pela característica arquitectura dos “brasileiros”.
No dia 26, sexta-feira, teve lugar a abertura da exposição “Fafe dos Brasileiros – um outro olhar”, com trabalhos das crianças das escolas do concelho, bem como o início da Festa Fafense, que se prolongou pelo fim-de-semana, com barracas de comes e bebes e representações das freguesias e das escolas.
No sábado, relevaram iniciativas como um passeio de bicicletas antigas, o parque temático de jogos tradicionais, com o empenho de todos os agrupamentos de escuteiros do concelho, que organizaram o evento e a recriação histórica “Com Fafe ninguém Fanfe”, a cargo do teatro Vitrine.
Finalmente, o último dia das Jornadas, domingo, começou com a apresentação da Confraria da Vitela Assada à Moda de Fafe.
À tarde, teve lugar a recriação histórica “1913: os novos Paços do Concelho”, com discursos do presidente da Câmara Dr. José Summavielle Soares, seguida da mostra etnográfica e desfile pelas ruas da cidade, sob o tema “A Memória e a Gente: o Património”, com milhares de figurantes das Juntas e associações das freguesias.
Um acontecimento ímpar na cidade, sem dúvida!
As IV Jornadas Literárias de Fafe arrancaram na passada sexta-feira, 19 de Abril, na Praça 25 de Abril, com a presença de centenas de crianças de jardins-de-infância, que dançaram e cantaram ao som de canções do agrado dos mais pequenos.
À noite, no Pavilhão Multiusos, teve lugar um espectáculo com o título “Mala de Cartão” e que pretende ser uma viagem única pelos países que serviram de porto de abrigo a muitos emigrantes fafenses. Participaram activamente como “atores” neste evento, que incluiu muita música e dança, mais de mil crianças e jovens, de escolas e instituições diversas, estando na assistência seguramente três mil pessoas.
O presidente da autarquia, na abertura oficial das Jornadas, considerou tratar-se “do mais relevante acontecimento cultural que se realiza no concelho ao longo do ano”.
As Jornadas Literárias são um hino de louvor à cultura fafense. Município, Escolas, Juntas de Freguesia, associações, instituições e pessoas em particular dão as mãos e, mediante as suas disponibilidades e capacidades, erguem as suas vontades em torno de uma causa maior, a de animar culturalmente a cidade e o território municipal.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Uma obra de vez em quando: "Viva o Povo Brasileiro", de João Ubaldo Ribeiro

     



O conhecido escritor brasileiro João Ubaldo Ribeiro foi escolhido como patrono das IV Jornadas Literárias de Fafe.
Além de considerado um dos mais famosos e significativos autores brasileiros da era contemporânea, ombreando com Jorge Amado; além de galardoado com diferentes prémios e sobretudo, em 2008, com o Prémio Camões, o mais significativo no universo da literatura lusófona, João Ubaldo tem a particularidade de ser neto de um emigrante fafense.
O seu avô, João Ribeiro, natural de uma freguesia de Fafe, abalou para a cidade de Penedo, Estado de Alagoas, no Brasil, nos primeiros anos do século XX, meio deportado pela família, porque engravidara uma vizinha solteira numa das aldeias de Fafe e que chegou a gerente de uma fábrica têxtil, pertencente a uns portugueses amigos da família. Por lá ficou. Na sua herança (felizmente) contamos com o nome famoso de João Ubaldo Osório Pimentel Ribeiro, nascido na ilha de Itaparica, na Baía, em 23 de Janeiro de 1941.
Doutor em Direito (que nunca exerceu), professor universitário (Universidade Federal da Baía, durante seis anos) e jornalista, é o mais jovem sócio emérito da Academia Brasileira de Letras e autor de um importante conjunto de obras literárias, que o guindam à condição de um dos maiores vultos das letras brasileiras da actualidade.
João Ubaldo está traduzido em 16 línguas, entre as quais o alemão, dinamarquês, espanhol, francês, hebraico, inglês, italiano, jugoslavo e sueco. Diversas obras suas foram adaptadas para o cinema e para televisão.
O consagrado escritor a cada passo recorda o seu avô fafense, João Ribeiro, “uma pessoa adorável”, que lhe dava dinheiro para livros, revistas e guloseimas. João Ubaldo gostava muito do avô, grande companheiro de infância, amigo e confidente, pessoa culta e leitor apaixonado de Camilo e Guerra Junqueiro. Afiança mesmo que lhe deve muito, “talvez até a carreira de escritor”, sendo que o seu avô considerava que só tinha direito ao estatuto de escritor aquele que escrevia livros que davam “para pôr de pé”.
Por isso, João Ubaldo, certamente em sua memória e vincando a sua legitimidade de (grande) escritor, publicou Viva o Povo Brasileiro, um romance histórico com perto de 700 páginas e seguramente a sua melhor e mais conhecida obra literária, considerada já um clássico da literatura brasileira contemporânea, lançada em 1984 e que já vendeu pelo menos 120 mil volumes.
A narrativa percorre quatro séculos da história do Brasil. Nas suas imensas páginas, vemos desde a chegada dos holandeses à Bahia, no século XVII, até os anos 70 do século XX, representados ficcionalmente.
Destinado a privilegiar os episódios que, ao longo dos séculos, vieram consolidando a famosa Irmandade do Povo Brasileiro (invasão holandesa, Independência, Farrapos, Guerra do Paraguai, Abolição, República, Canudos), a cronologia vai de 1647 a 1977.
A construção da identidade é tema central em Viva o Povo Brasileiro.
Grande parte da história da obra, passa-se em Itaparica, terra natal do escritor. Ubaldo, que costuma citar moradores da ilha nas suas crónicas, fala, no livro, sobre a construção da identidade do povo brasileiro. É na ilha que nasce a heroína Maria da Fé, que desafia o poder dominante para fazer parte, ao lado de outras mulheres e homens, da Irmandade do Povo Brasileiro.
É considerada uma das mais importantes obras da literatura brasileira. Apresenta histórias inspiradas nas raízes do povo brasileiro, tendo como personagens negros e índios, portugueses e holandeses. Porém o livro não trata de uma exaltação à história brasileira e sim uma recontagem crítico-satírica da mesma, denunciando a devassidão presente no processo de formação do povo brasileiro.
O livro é um pouco a saga de um povo em busca de sua identidade e afirmação. É em Viva o Povo Brasileiro que João Ubaldo Ribeiro reforça a sua obra como uma das mais significativas e actuantes, do ponto de vista estilístico e político, da Literatura Contemporânea Brasileira.
A linguagem de João Ubaldo é sempre bem-humorada, envolvente, surpreendente. O autor descreve com habilidade os sentimentos e motivações de personagens tão díspares quanto os holandeses exploradores do século XVI, índios canibais, escravos de engenho, poderosos oligarcas, religiosos, funcionários públicos e políticos, entre outros. São dezenas de personagens, numa história fascinante e bem contada, que anda junto e é coerente com a História do Brasil, inclusive nas suas incoerências e injustiças.