quarta-feira, 26 de junho de 2013

Fafenses viajaram com Eça de Queirós até Baião


 




 Seis dezenas de fafenses, sobretudo docentes e seus familiares, viajaram este sábado ao saboroso encontro de um dos nomes maiores da literatura portuguesa do século XIX – Eça de Queirós – e sobretudo ao espaço literário de um dos seus mais conhecidos romances, “A Cidade e as Serras”.
O epicentro da visita foi Baião e Tormes, de modo a desfrutar da história, da literatura, da tradição, paisagem, gastronomia e gentes daquele município que se encontra ligado umbilicalmente à obra de um autor incontornável do romance contemporâneo.
A comitiva fafense zarpou logo pela manhã, junto à Escola Secundária, tendo feito a primeira paragem, para o café, na vizinha cidade de Amarante, lembrando o saudosista Pascoais, o remansoso Tâmega e o glorioso orador António Cândido.
Seguiu para Baião, onde visitou demorada e regaladamente o Mosteiro de Santo André de Ancede. As origens deste templo remontam ao século XII, e a mais antiga referência conhecida, de 1120, é respeitante à sua ligação aos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho. Durante vários séculos este mosteiro deteve um considerável património fundiário ligado à produção vinícola, que lhe permitiu beneficiar de grande poder económico. Em 1560 passou a depender de São Domingos de Lisboa e, a partir de então, foram executadas várias campanhas de obras com o objectivo de recuperar o conjunto arquitectónico. No século XIX foi vendida a um comerciante portuense e nos últimos anos foi adquirida pelo município de Baião.
A capela de Nossa Senhora do Bom Despacho, ao lado, foi erguida em 1731, e exibe, no portal datado de 1735, o brasão dos dominicanos.
Uma visita empolgante, sem dúvida, a que se seguiu um almoço queirosiano de arroz de favas à Eça acompanhado de frango caseiro alourado ou, em alternativa, lombo de porco assado à Eça com batatas e arroz especial. Um primoroso serviço do Restaurante Primavera, no centro de Baião.
Estômagos refeitos, a comitiva seguiu para a visita à Casa de Tormes, freguesia de Santa Cruz do Douro, na envolvência dos vales poderosamente cavados do Douro, como o próprio Eça a descreve, onde Eça nunca viveu, mas que serviu de cenário real/ficcional da obra literária “A Cidade e as Serras”.






A Casa e Quinta de Vila Nova em Sta. Cruz do Douro, chamada de Tormes, datada de finais do século XVI, que pertencia à mulher do notável romancista, Emília de Castro Pamplona, constitui-se hoje como um importante núcleo museológico referente à vida e obra do escritor.
A Fundação Eça de Queiroz dispõe de uma biblioteca, que conta com mais de 4.500 livros que pertenceram a Eça de Queiroz, à família Resende e ainda exemplares sobre a vida e obra do escritor que têm sido publicados ao longos dos anos.
Quando se dá início ao percurso rumo à Casa de Tormes, depara-se, na entrada, com um belo pátio em granito, subindo as escadas que estão por debaixo do arco enorme que o escritor fazia referência, encontra-se a Casa-Museu: a sala de entrada; biblioteca; sala museu; sala de estar; sala de jantar; quarto; cozinha; capela; e varanda, com vistas paradisíacas sobre o Douro.
E no seu interior, é um encanto encontrar a viúva do neto (Manuel Benedicto de Castro) de Eça de Queirós, D. Maria da Graça Salema de Castro, simpáticos e rijos 93 anos, actual presidente vitalícia da Fundação que foi inaugurada em 25 de Novembro de 1997, pelo então Presidente da República Jorge Sampaio.
Levámos-lhe livros de Fafe, para enriquecer a biblioteca da Fundação Eça de Queirós!
 
Foi um privilégio contactar os espaços, os objectos, os ambientes, o imaginário de Eça, de finais do século XIX.
Pelas 20h00, encetámos a viagem de regresso a Fafe.

terça-feira, 18 de junho de 2013

O regresso à agricultura!...


Após décadas a falar-se da importância dos serviços e das potencialidades do turismo, paralelamente a um grande esforço de desindustrialização e de investimento na economia de casino, eis que o regresso à agricultura e ao mar está na ordem do dia.
E quem melhor do que o coveiro da agricultura portuguesa e da actividade pesqueira, enquanto primeiro-ministro, para apelar à necessidade de o país voltar a pegar nas máquinas e nas rabiças do arado de modo a dar a volta à situação calamitosa em que os portugueses se encontram, em resultado de políticas destruidoras do que melhor o país tinha, apenas porque a ganância da União Europeia impunha a lei do mais forte?
Cavaco Silva, em mais um 10 de Junho, regressou ao estafado slogan de que «vivemos tempos de riscos, incertezas e desafios». Por isso, é necessário ir em frente, de cabeça.
Mas não deixa de ser verdade que o discurso de Cavaco há uma semana foi demasiado vazio de conteúdo, volátil, desapegado da realidade e no qual os problemas fundamentais dos portugueses passaram em claro. O que diz bem do posicionamento ideológico do Presidente da República, no momento presente, inadmissivelmente assumindo ser uma “espécie de bóia de salvação do governo” (Constança Cunha e Sá), quando a missão do Supremo Magistrado da Nação é “ser presidente de todos os portugueses”. Mas já se viu que não é, nem faz tenção de ser e que não pretende dizer nada a ninguém, mas apenas marcar presença no discurso rotineiro que tem de produzir, a cada 25 de Abril ou 10 de Junho que passa!...
Na sua salvífica missão de apontar caminhos para a pós-troika, como se fosse o que mais preocupa os cidadãos neste momento (daí a vacuidade deliberada do discurso presidencial…), Cavaco Silva evidenciou a importância da agricultura (a par do património) como sectores de futuro, ressaltando a necessidade de aproveitar as nossas potencialidades, “que existem e são muitas”.
Falou do património cultural como sector estratégico, evidenciando que um estudo recente concluiu que o património histórico é um dos domínios em que se verifica maior crescimento do contributo do sector cultural para a riqueza nacional e que por isso é urgente conceder “especial atenção à salvaguarda e valorização” do património. Numa altura em que não há minimamente verbas para acorrer à degradação do património, estamos conversados.
Mas foi na agricultura que Cavaco mais se centrou, desde logo, obviamente, para se defender das justas acusações de que destruiu a agricultura e as pescas enquanto foi primeiro-ministro, entre 1985 e 1995.
Disse o Chefe de Estado que “há quem sustente que a adesão de Portugal às Comunidades [em 1986] implicou a destruição do mundo rural e a perda irreversível da nossa capacidade produtiva no sector primário. Este retrato é completamente desfasado da realidade”. É a sua defesa, fraca defesa.
Desfiou números, estatísticas, argumentos para fazer crer que o sector agrícola está hoje em Portugal mais forte e produtivo que há 30 anos. Ou seja, a agricultura foi dizimada, o número de agricultores ficou reduzido a uma percentagem residual da actividade económica, mas no fim de contas, apesar de tudo isso, milagrosamente, “a produtividade da terra cresceu 22% e a produtividade do trabalho agrícola aumentou 180%”. Espectáculo malabarístico! Importa-se de repetir?
Ou seja, a situação evoluiu, o analfabetismo agrícola desapareceu e a paisagem social dos nossos campos mudou – e muito, como quer o herói de Boliqueime, concluindo que “a evolução da nossa agricultura constitui um bom exemplo da necessidade de abandonarmos ideias feitas e preconceitos, de ultrapassarmos a tendência para o derrotismo e o pessimismo”.
Na tentativa frustrada de ajudar o governo, como se fosse um secretário de estado de Assunção Cristas, Cavaco Silva continua a tentar transmitir provas de vida, o que nem sempre é fácil.
E desde logo, basta olhar em nosso redor para se perceber que o discurso de Cavaco não cola com a realidade. Os campos estão ao abandono, os agricultores que os fabricavam estão a desaparecer, a economia rural é um mito, a nossa dependência agro-alimentar é assustadora.
Como reagiu o presidente da Confederação Nacional da Agricultura, além de fazer um «frete ao Governo», o Chefe de Estado está a regressar “à teoria do oásis», que o caracterizou na década em que governou o país e fez desaparecer o aparelho produtivo a nível agrícola e pesqueiro.
Por força da pressão e das determinações da Europa, em função das conveniências, ora se apoiava a plantação de pomares, ora se incentivava o arranque das macieiras. Ora se investia na vinha, ora se pagava para erradicar a vinha, em decisões irracionais e criminosas, meramente economicistas, que ainda hoje estamos a pagar e a lamentar.
Podem ter sobrado empresas com modos de produção intensivos e destruidores dos recursos naturais. Mas o certo é que, mesmo o sector agrícola, continua à mercê das grandes superfícies que estrangulam os preços, que os consumidores pagam com língua de palmo.
Pelo meio, desde o cavaquismo, ficaram os cadáveres de centenas de milhares de pequenas e médias explorações agrícolas familiares, que os programas europeus destruíram, inapelavelmente.
E o que não parou de crescer foi o défice da balança de pagamentos, em bens agro-alimentares, que está na ordem dos 3,5 mil milhões de euros por ano.
Uma enormidade, de que Cavaco Silva e os seus sucessores são responsáveis primeiros!
Mas é sempre interessante ouvir falar de agricultura, porque nela reside a alma da economia de um país, conceito que infelizmente se perdeu nas últimas décadas, em favor da especulação financeira e da economia baseada no lucro fácil, no despesismo e no consumismo desenfreados!
Mas é necessário falar da agricultura com verdade, com perspectivas realistas e não como mero e descredibilizado exercício folclórico, apenas para marcar calendário, como foi o caso.
 
(Artigo publicado no Correio de Minho desta segunda-feira, 17 de Junho de 2013)
 

quinta-feira, 13 de junho de 2013

TRABALHADORES DO MUNICÍPIO EM VISITA À GALIZA


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No passado domingo e segunda-feira, o Centro Cultural, Social e Desportivo dos Trabalhadores do município promoveu, no âmbito do seu programa de actividades, uma visita a diversos locais da vizinha Galiza, na qual participaram mais de meia centena de funcionários e familiares.
Como funcionário e presidente da assembleia geral da colectividade que ajudei a fundar há uma década, também me incorporei no passeio.
Os convivas começaram por estacionar na cidade de Baiona, onde aproveitaram para almoçar e visitar o centro urbano de uma localidade com numerosos pergaminhos históricos.
Depois, rumaram à conhecida estância balnear de Samil, que apenas visionaram por cerca de uma hora, dado o frio que se fazia sentir naquele lugar.
O final do primeiro dia de passeio culminou em Vigo, onde os fafenses puderam desfrutar a cidade e pernoitar.
Na manhã do dia 10, dia de Portugal passado na Galiza, os convivas peregrinaram até à catedral de Santiago de Compostela, terra de imensa fé e de fartos motivos para uma proveitosa visita.
Ao fim da manhã de segunda-feira, à comitiva que se deslocou de autocarro de Fafe, juntaram-se cinco elementos da Polícia Municipal que se aventuraram a fazer os 240 quilómetros de bicicleta, partindo na madrugada do sábado anterior.



Após algumas horas de deambulação por aquele mítico lugar de peregrinação jacobeia, onde foi possível encontrar mais gente de Fafe que se deslocou de bicicleta e de automóvel, a reforçada comitiva encetou o regresso à “Sala de Visitas do Minho”.
Após breves paragens em Pontevedra e na Fortaleza de Valença do Minho, os convivas fafenses regressaram à sua cidade ao final da tarde.
Apesar de as condições climatéricas não terem sido as mais favoráveis, com a companhia da chuva, do frio e das nuvens, a viagem decorreu da melhor forma, registando-se um espírito de confraternização absolutamente salutar entre funcionários da mesma instituição e respectivos familiares.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Mais falhanços, reiterada incompetência!...


1. O Governo apresentou o orçamento rectificativo de 2013, que não deverá ser o único, como admite o primeiro-ministro, que, como sempre, “não sabe” se vai ser necessário um segundo documento, porque, nas suas palavras, “não é dono do futuro”. Alguém deste governo “sabe” alguma coisa sobre o que deveria saber? Um estadista não adivinha o futuro, mas antecipa as suas consequências. O que este governo está a léguas de fazer, na sua absoluta e reiterada incompetência para prever o que quer que seja.
O pretexto para esta revisão orçamental é o famigerado “chumbo” do Tribunal Constitucional a três medidas do Orçamento de Estado para este ano. Em vez de aceitar que prevaricou e ultrapassou os limites da legalidade democrática, o que para qualquer governo é absolutamente intolerável, Passos Coelho e “sus muchachos” entraram numa perigosa “cruzada” contra as “forças do bloqueio”, como Cavaco gostava de designar quem se opunha às suas arbitrariedades (porque será que tanto se fala em Cavaco nesta altura, em que se começa a saber quem tudo fez para levar um governo de direita ao poder, em 2011, cumprindo o alegado sonho de Sá Carneiro, de um governo, uma maioria, um presidente, que está a dar no sofrimento que está à vista?!...),  que mascaram a incapacidade genética desta gente para governar o país com os níveis mínimos de capacidade e seriedade política.
Mas, como sempre fez nestes dois anos de alegada governação, em que infligiu aos portugueses o dobro dos sacrifícios que a tróica exigia, mais uma vez, a pretexto deste rectificativo, o governo vai muito além das consequências do “chumbo” do Tribunal Constitucional às medidas ilegais do Orçamento de Estado. O impacto dos efeitos provenientes daquela reprovação totalizam 1.349 milhões de euros. Porém, o total orçamental previsto neste documento ascende a 2.169 milhões.
Que não venham Passos ou Gaspar encher a boca, atirando areia para os olhos dos incautos, que os portugueses vão pagar mais impostos ou ter menos serviços devido à desaprovação do TC. Não: há uma diferença de 820 milhões de euros (é muito dinheiro, para apenas uns meses…) que provém da incompetência e dos sucessivos falhanços das previsões do executivo.
Mas os governantes já atalharam, na curva da sua incapacidade: agora vêm agora falar, metaforicamente, no “desempenho mais negativo do que o previsto” na economia portuguesa nos primeiros meses deste ano.
A este argumento falaz poderia responder qualquer merceeiro da esquina, confirmando que, numa economia absolutamente recessiva, a receita fiscal proveniente da actividade económica só poderá descer. É estulto supor que os impostos poderiam subir, com a economia em estagnação e o consumo privado em queda. Mas foi o que fez o astronómico Gaspar: previu a subida do IRC de empresas a falir e do IVA de uma economia em degradação. Só aumenta o IRS, por ser espoliado na fonte. Resultado: teve de rever em baixa a receita fiscal em 1.600 milhões.
Por outro lado, e em consequência do pântano em que mergulharam o povo português, as despesas sociais tiveram de ser reforçadas, a começar pelo subsídio de desemprego, porque somos cada vez mais um país de gente sem emprego (mais de um milhão de activos), com uma vergonhosa taxa de desemprego jovem (mais de 40%).
Aliás, como é possível há meio ano, no OE 2013, preverem uma taxa de desemprego de 16,4% e agora, passados poucos meses, a reverem para 18,2%? Absoluta ineptidão!
O que significa, em resumo, que é inaceitável e inqualificável mais um fracasso do ministro das Finanças, que, na sua obsessão por ver a realidade numa folha de excell, sem qualquer ligação ao quotidiano, não é capaz de ver o óbvio, o mais comezinho, o mais claro. Não será por acaso que um assessor do ministro da Economia até há duas semanas, Carlos Vargas, classificou Vitor Gaspar de psicopata social: "Na verdade, trata-se de um psicopata social e não de um ministro das Finanças", escreveu, acrescentando que "cada dia que passa mostra que Vítor Gaspar é o ministro das Finanças mais arrogante e mais incompetente desde o reinado de D. Maria II".
Continua sem se perceber como é possível manter no poder um falhado que, numa qualquer empresa, teria sido despedido, por incompetência, logo após a tomada de posse!... Mas talvez tudo isto se compreenda perfeitamente, no contexto da deliberada destruição da economia portuguesa pelo capitalismo financeiro europeu, de que Gaspar é marioneta e Passos o capataz…
 
2. Que este governo está a destruir o país e a economia não resta a menor dúvida. Como não se duvida da absoluta insensibilidade e alheamento com que o governo encara a situação concreta dos portugueses, que não têm culpa dos desmandos que têm sido cometidos pela política e pela banca. Para o governo, é indiferente que haja um milhão de desempregados, dois milhões de pobres, ou milhares de crianças com fome, que apenas conseguem ingerir uma refeição na escola. O sofrimento dos portugueses passa ao lado desta gente.
As pessoas não interessam. Para o governo, é irrelevante se os portugueses têm ou não meios para satisfazer as suas necessidades; se vão para o desemprego ou ficam sem dinheiro para colocarem os filhos na escola ou na universidade. O que importa é cumprir o défice, satisfazer os interesses dos credores internacionais. Fazer o apopléctico “ajustamento”.
Quando Passos Coelho, que se supunha uma pessoa de bem, mas não é, consegue afirmar, sem pedir desculpa, que a «austeridade é a necessária para cumprir o objectivo do défice de 5,5%”, ou que «não há mais austeridade do que aquela que é requerida», na linha do “custe o que custar”, sabendo-se as dramáticas consequências que tal implica, para as pessoas concretas, e não para programas informáticos, demonstra abjecta falta de escrúpulos, ausência de humanismo e de dignidade política e pessoal.
Merece todas as contestações dos portugueses, todas as greves, todas as manifestações. E ainda são poucas.
E merece ser corrido de S. Bento, o mais rapidamente possível. Sem qualquer contemplação! Antes que acabe com o país e o povo português!
 
(artigo de opinião publicado no diário "Correio do Minho", de 3 de Junho de 2013)

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Fafe na obra “101 Lugares para ter medo em Portugal”



Depois do êxito de Histórias de um Portugal AssombradoCasas assombradas, fantasmas misteriosos, lendas e mouras encantadas, livro editado em 2012 e já em quarta edição, a jornalista Vanessa Fidalgo, do Correio da Manhã, acaba de publicar 101 lugares para ter medo em Portugal – Mistérios e fenómenos inexplicáveis, encantamentos e maldições de um país assustador.
A obra divide-se em sete capítulos: “Mistérios, fenómenos inexplicáveis e assustadoras coincidências”; “Portugal: terra de superstições, encantamentos e maldições”; “Aqui há fantasmas”; “Mafarricos, bruxas e bruxarias”; “O estigma do crime”; “Um susto de paisagem” e “À beira do abismo”.
Trata-se de um livro que inscreve um mapa do medo em torno de lugares especiais pelo pavor que incutem, e que percorre ruas, casas e paisagens, “contando histórias dos lugares onde passamos todos os dias, mas que estão marcados por acontecimentos terríveis, sejam eles crimes, manifestações do sobrenatural ou simplesmente o fantástico e maravilhoso lendário popular”, como quer a jovem autora (35 anos).
Alguns casos relatados:
Em 2003, os atores interromperam espavoridos as gravações da telenovela O Teu Olhar. Estavam a ser atacados por forças sobrenaturais no castelo de Montemor-o-Velho. A 10 de Outubro de 1982 um estranho fenómeno deixou a caseira da Quinta da Penha Verde, em Sintra, a tremer que nem varas verdes; uma verdadeira chuva de pedras caiu sobre a misteriosa quinta. Já se for à Serra da Estrela e visitar a Lagoa Escura vai poder ouvir falar do monstro que se esconde nas suas profundezas. Entre as aldeias de Lamas de Mouro e Cubalhão, perto de Melgaço, há um local que se chama Botas de Cubalhão, que fica numa encosta onde não existe mais nada além de uma pequena encruzilhada. Conta-se que nessa encruzilhada existe um lobo, capaz de engolir todo e qualquer homem que se aproxime dele pela calada da noite, seja novo ou velho, fraco ou forte! E tudo porque o povo se fartou de encontrar naqueles caminhos escuros, botas, sapatos, pedaços de vestuário e até bocados de pés, que deram nome ao lugar e muitos motivos à imaginação. Numa terra conhecida como Torre da Mesqueira, no concelho de Albufeira, há uma encruzilhada que assusta muito boa gente. Um ponto obscuro entre caminhos onde, segundo a voz do povo, aparecem fantasmas, almas penadas e até mulas sem cabeça! Em pleno centro histórico de Lisboa,  situa-se o Páteo do Carrasco que herdou o nome de Luís Alves, o último carrasco de Portugal. Há quem garante que ainda se ouvem os seus urros e gritos. No Palácio de Seteais há quem não consiga dormir no quarto 18. Ainda hoje o Aqueduto das Águas Livres causa arrepios quando se pensa no que aconteceu há 150 anos atrás, altura em que Diogo Alves por lá andava a matar as suas vítimas
Tive a honra de contribuir com informações e investigações para esta obra sobre o fenómeno sobrenatural que é tão comum no país.
Forneci à autora informações e fotos sobre casos estranhos e lendários de Fafe. Concretamente, sobre a “Santinha de Fafe”, Maria de Jesus Teixeira, que esteve entrevada 44 anos, sem se alimentar e em cujo funeral aconteceu um “dilúvio de borboletas” (pp. 52- 55) e sobre a “Bicha das Sete Cabeças” (pp. 85-86), uma lenda conhecida dos naturais.
Estamos em presença de uma obra interessantíssima, a ler, com imenso prazer e curiosidade!

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Uma obra de vez em quando: “O filho de mil homens”, de Valter Hugo Mãe


 
Valter Hugo Mãe é um dos mais consagrados escritores portugueses da nova geração.
Nasceu em Angola em 1971. Passou a infância em Paços de Ferreira e, actualmente, reside em Vila do Conde.
É licenciado em Direito e pós-graduado em Literatura Portuguesa Moderna e Contemporânea.
É autor de diversos livros de poesia, reunidos na colectânea Contabilidade (em 2010), de antologias poéticas e de romances que o projectam na cena literária portuguesa da actualidade.
Além disso, escreveu quatro livros ilustrados para o público infanto-juvenil, é vocalista do grupo musical Governo e esporadicamente dedica-se às artes plásticas.
Os quatro primeiros romances de Valter Hugo Mãe, nome artístico do escritor Valter Hugo Lemos, formam uma tetralogia que percorre, através de personagens distintas, o tempo completo da vida humana, da infância à velhice. Falamos de O nosso reino (2004), o remorso de baltazar serapião, vencedor do Prémio José Saramago (2006) o apocalipse dos trabalhadores (2008) e a máquina de fazer espanhóis (2010), Grande Prémio Portugal Telecom de Literatura.
Ao quinto romance, deixou de grafar o seu nome em minúsculas e assinou o mais delicado e afectivo dos seus livros, com o título O filho de mil homens.
Trata-se de um romance que inicia um novo ciclo na sua criação literária e se encontra marcado pelo grande desejo da paternidade e da família.
Esta é a história de Crisóstomo que, chegando aos quarenta anos, lida com a tristeza de não ter tido um filho. Do sonho de encontrar uma criança que o prolongue e de outros inesperados encontros, nasce uma família inventada, mas tão pura e fundamental como qualquer outra.
As histórias do Crisóstomo e do Camilo, da Isaura, do Antonino e da Matilde mostram que para se ser feliz é preciso aceitar ser o que se pode, nunca deixando contudo de acreditar que é possível estar e ser sempre melhor. As suas vidas ilustram igualmente que o amor, sendo uma pacificação com a nossa natureza, tem o poder de a transformar.
Tocando em temas tão basilares à vida humana como o amor, a paternidade e a família, O filho de mil homens exibe, como sempre, a apurada sensibilidade e o esplendor criativo de Valter Hugo Mãe.
São mais de 250 páginas de puro prazer literário e de afirmação de um notável escritor português, que chegou a afirmar que cresceu a escrever muito, mas não achava que ser escritor era algo que pudesse ser. “Eu escrevia para mim, para fazer a manutenção dos meus dias, para suportar os meus dias” – referiu, no Brasil, ao agradecer o Grande Prémio Portugal Telecom 2012.
Ainda bem que passou a escrever para um público mais vasto, em diversos países, que o lê e o admira.
É um dos valores maiores da nova literatura portuguesa!
Boas leituras!

terça-feira, 7 de maio de 2013

A nau dos loucos!

 
1. Este governo não pára de massacrar os portugueses. Já é sadismo. Apaixonado e reiterado culto da austeridade. Neste caso, os exclusivos suspeitos são os do costume: os funcionários públicos e os aposentados. Na obtusa óptica governamental, eles são os culpados pela situação a que o país chegou. Foram eles que desencadearam a crise, há cinco anos, por pura especulação financeira. Foram eles que firmaram os ruinosos negócios das PPP, como todos sabemos. São eles que ganham 1 milhão de euros por ano, como o insuportável consultor do governo e explorador da EDP, António Mexia. Logo, é justo que “paguem a crise”.
Passos Coelho, que para anjo só lhe faltam asas, limitou-se, esta sexta-feira, com voz grossa, decidida e executiva, a informar os portugueses que tem de saquear 4,8 mil milhões de euros para dar aos seus amigos da tróica, de que ele não passa de subserviente feitor em Lisboa. Acenou os habituais fantasmas, fez chantagem inqualificável para amedrontar os portugueses, que ou aceitam a miséria ou vem aí a bancarrota. Simplesmente, indigente!
São 30 mil funcionários públicos que vão para a rua, na gaspariana e patética perspectiva de que “é possível fazer mais com menos”; é o aumento do horário de trabalho no Estado para as 40 horas, para que os serviços possam ter tempo de abrir as portas ao comércio que já não existe; é o aumento dos descontos para a ADSE em mais 0,75%, para solidificar a saúde dos prestadores públicos; é o aumento da idade de reforma para os 66 anos, como forma de levar a terceira idade aos serviços públicos, servindo mais eficazmente os utentes, pela experiência e reumatismo acumulados e, bem assim, evitar que aqueles sejam infestados por sangue jovem e inconformado; enfim, é a revisão anunciada da tabela remuneratória da função pública, que significa um abaixamento do vencimento dos funcionários públicos (a somar aos cortes que já duram há três anos, ao congelamento das progressões e ao aumento do horário de trabalho) como factor de elevado cariz motivacional, inspirada no consagrado “embaixador” do governo para a imbecilidade, de nome Miguel Gonçalves. Para os aposentados vem mais um escondido imposto, embrulhado com a lengalenga da “sustentabilidade”.
Mas, como se referiu, os funcionários públicos e os aposentados devem pagar com língua de palmo os desmandos deste país nestes últimos anos. Por uma outra razão: também contribuíram para colocar no governo quem lá esteve e quem lá está. Então, que paguem o devido estipêndio!
Chamam a esta pilhagem a sectores específicos da sociedade portuguesa “reforma do Estado”. Já a baptizaram como “refundação”, mas como ninguém acreditou, nem acredita, que estejamos a falar do que não estamos a falar, a coisa foi abandonada à sua sorte. A coisa, não o saque.
Espera-se que o Tribunal Constitucional, o último baluarte da defesa da legalidade neste país, já que ninguém espera nada de uma múmia que habita, estoicamente, o Palácio de Belém, continue a salvaguardar a Constituição e a justiça social, face a um governo fora de lei, anticonstitucional e que nutre um criminoso ódio visceral a rudo o que é público, seja em que área for, porque interessa desmantelar o sector estatal, para o dar de mão beijada aos privados.
Os cortes brutais na saúde e na educação têm essa matriz ideológica absolutamente explícita!
 
2. É claro que o inefável Passos Coelho, na sua estratégia buldózer sobre tudo o que mexe e que possa render uns patacos, não conseguiu, em meia hora, uns segundos para amenizar o desconforto dos desempregados e o aumento brutal que se espera do desemprego. Nem teve uma mínima palavra de gratidão para os portugueses, trabalhadores e aposentados, vítimas nos dois últimos anos de uma desumana asfixia financeira, de um ataque bárbaro aos seus bolsos, pelos salteadores legalizados por eleições.
Nem uma palavra ou uma medida que afectem ou ponham em causa as verdadeiras sanguessugas do Estado. Nada sobre a renegociação das PPP, as rendas excessivas da energia, que continuam intocadas, os benefícios fiscais de grandes empresas e da banca, que se mantêm inalterados. Nada sobre a urgente diminuição do número de deputados e dos “boys” (que agora se chamam “especialistas” e auferem 4-5 mil euros por mês) nos gabinetes ministeriais. Uma vergonha nacional!
Este governo continua a ser excessivamente forte com os fracos e submissamente fraco com os fortes, sejam as grandes empresas, o sector financeiro ou da construção civil, sejam os engravatados do FMI, BCE e CE.
Para os trabalhadores, acabaram-se os “direitos adquiridos”, mesmo que a meio do contrato. Já não têm direito à totalidade do seu salário, nem à perspectiva das férias, nem à reforma na idade que estava estipulada. Para os trabalhadores, os contratos podem alterar-se com uma simples decisão do Conselho de Ministros. Para os grandes interesses económicos e financeiros, que envolvem milhões ou biliões, os contratos estão blindados a qualquer alteração!...
Estamos conversados. Miseravelmente conversados!
 
3. É claro, para qualquer merceeiro, que as medidas anunciadas terão como efeito aumentar a quebra de consumo e a recessão, com o consequente aumento das falências e do desemprego. Se as famílias não tiverem rendimento adequado, são afectados não só o comércio e serviços, mas também a indústria e todas as actividades económicas.
Por isso, com tantos rendimentos retirados às famílias, é anedótico que o governo prometa para 2014 um aumento de 0,6% do consumo privado. Mas esta previsão vale o que valem todas as projecções do ministro Gaspar, que não acerta com um mero dardo num corpulento elefante. O que significa que a recessão e a austeridade vão continuar, sem abrandar em 2015,curiosamente o ano em que, se não for antes, nos livraremos, finalmente, de quem estar a destruir ideológica e impenitentemente este país de nove séculos
Até lá, reina uma absoluta demência, vinda da nau dos loucos, de quem já estamos fartos até aos cabelos.
Termino com uma citação da insuspeita Manuela Ferreira Leite, ex-líder do PSD: "Não estou nada convencida de que seja exequível aquilo que estão a dizer que vão fazer. Podem anunciar, podem amedrontar, podem criar ainda mais espírito de recessão, podem afundar psicologicamente as pessoas, mas resultados não vão ter nenhuns”. Eu não diria melhor!
 
(Publicado no Correio do Minho, de 6 de Maio)