segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Um livro de vez em quando: "Madrugada Suja", de Miguel Sousa Tavares

 
Miguel Sousa Tavares, depois de grandes êxitos como "Equador" e "Rio das Flores", volta a agitar a literatura portuguesa e sobretudo os seus seguidores, com o seu novo romance, "Madrugada Suja", que tive o prazer de ler em Agosto.
No princípio, há uma madrugada suja: uma noite de álcool de estudantes que acaba num pesadelo que vai perseguir os seus protagonistas durante anos. Depois, há uma aldeia do interior alentejano que se vai despovoando aos poucos, até restar apenas um avô (Tomás da Burra) e um neto. Filipe, o neto, parte para o mundo sem esquecer a sua aldeia e tudo o que lá aprendeu. As circunstâncias do seu trabalho levam-no a tropeçar num caso de corrupção política. Ele enreda-se na trama, ao mesmo tempo que esta se confunde com o seu passado esquecido. Intercaladamente, e através de várias vozes narrativas, seguimos o destino dessa aldeia e em simultâneo o dos protagonistas daquela madrugada suja e daquela intriga política. Até que, no final, dois dos protagonistas da madrugada suja, Filipe e Eva, acabam por se reencontrar, numa paixão, anos depois.
No fundo, a obra acaba por ser uma história romanceada dos últimos 40 anos da vida pública portuguesa. Fala sobre os acasos da vida e a corrupção política, do Alentejo da Reforma Agrária até hoje.
Miguel Sousa Tavares decanta no romance alguns dos seus ódios de estimação ou dos seus cavalos de batalha: o pato-bravismo, os especuladores imobiliários, a corrupção em algum poder autárquico.
Uma visão desencantada dos efeitos do Portugal pós-Europa:
“Um Portugal de aldeias mortas, de comerciantes falidos, de agricultores sentados à berma das estradas construídas com os dinheiros da Europa, vendo passar os grandes camiões TIR que traziam de Espanha e dessa Europa as frutas e os legumes criados em estufas maiores do que quaisquer hortas deles, em direcção aos centros comerciais onde, em breve, eles próprios aprenderiam o novo e insípido sabor dos melões e das cebolas, dos reinventados “frangos do campo”, ou dos porcos sem gordura nem pecado, embalados em vácuo. E onde se resignavam a passear aos domingos, com filhos e noras e netos, tentando não se perder no meio dessa turba deslizante, entre montras e restaurantes e néons, num dédalo baptizado com nomes de avenidas e ruas, nomes de países ou heróis da Pátria”.
"Madrugada Suja" é um livro envolvente. Tem romance, tem história, tem crítica social e política:
"Todos estavam endividados, mas felizes: o Estado, as autarquias, os cidadãos. Todos viviam em casa própria, mas que, de facto pertencia ao banco que lhes emprestara dinheiro a 30 anos e também emprestara para as férias no Brasil, Cuba, República Dominicana, mais o carro e os brinquedos electrónicos dos filhos".
Uma obra sobre o Portugal dos nossos dias, com as suas virtudes e os seus defeitos, as utopias e as desilusões, que importa ler e reflectir.
Excelente!
350 páginas bem escritas, de leitura acessível e estimulante.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

UM PAÍS A ARDER, UM ESTADO QUE SE DEMITE!


 
1. Ano após ano, inexoravelmente, como o relógio marca as horas, o Verão deflagra em chamas colossais que consomem florestas sem fim, sementeiras, gados, casas, carros, vidas inteiras de trabalho e de canseiras, esperanças num futuro mais luminoso. Um inferno. Um autêntico cenário de guerra. Quando menos se espera, as nuvens de fumo elevam-se, desesperadas, e rapidamente explodem em ígneos clarões, incontroláveis, roncantes, perante os gritos dos populares, a angústia, a revolta, o pânico, a impotência.
As sirenes irrompem dos quartéis no silêncio das vilas e cidades, de dia ou de noite. Quando o flagelo rebenta.
Após dias e dias de combates, de notícias bombásticas, de destruição, as amplas manchas florestais anteriormente verdes aparecem vestidas de negro, para enterrar ainda mais a auto-estima e a economia de um país em vertiginosa crise. Económica e de valores.
Todos os anos o cenário se repete, ou agrava, restando a mesma miséria, a mesma indignação, o mesmo pavor. Que mais parecem inelutáveis, uma fatalidade, mas que não o são. Não podem ser.
Agosto foi explosivo. Setembro, pelo menos para já, acalmou, também fruto das condições climatéricas.
Portugal, um país pequeno, transformado num enorme braseiro que vai consumindo, chocantemente, vidas humanas e bens materiais.
Na segunda quinzena de Agosto, as ignições cifraram-se entre 200 e 300 por dia. Houve mesmo um dia (20) em que chegaram às 350.
Perante esse panorama, não há meios adequados para o combate aos incêndios. Em média, foram mobilizados 5500 operacionais por dia, que não chegam para as encomendas e andam dias seguidos a combater os fogos, exaustos, esfomeados, sedentos.
O saldo até agora registado é catastrófico: a área ardida, em números provisórios, ultrapassava em 30 de Agosto os 94 mil hectares.
As perdas humanas são trágicas: oito bombeiros mortos (António Ferreira, 45 anos; Pedro Rodrigues, 41 anos; Ana Rita Pereira, 24 anos; Bernardo Figueiredo, 23 anos; Cátia Pereira Das, 21 anos, Bernardo Cardoso, 19 anos; Fernando Manuel Reis, 51 anos e Daniel Falcão, 25 anos) e ferimentos em algumas dezenas. Imensas perdas humanas e materiais, com veículos ardidos totalmente e outros danificados.
Uma desmedida aflição colectiva.
Um incomensurável prejuízo económico. O ministro do Ambiente, Moreira da Silva, falava por estes dias que “nos últimos dez anos, destruímos três mil milhões de euros de valor económico da floresta”. Quase 300 milhões de prejuízos/ano. Um absurdo! Uma enormidade!
Um desastre ecológico de dimensões inimagináveis. Levaremos décadas a reproduzir as espécies arbóreas que em horas ou dias são consumidas pelas chamas.
 
2. Aqui chegados, falta apontar as causas, para tão devastadores e fatídicos efeitos.
Sabe-se de uma chamada “indústria dos incêndios”, das motivações económicas dos que fretam avisões a milhares de euros à hora, dos que negoceiam materiais destinados ao combate aos incêndios, das celuloses que aproveitam a situação, das urbanizações que podem nascer nos terrenos ardidos, dos que não querem pagar para utilizar as reservas de caça turística e associativa.
Haverá também comportamentos negligentes, vinganças entre vizinhos e outros factores menores.
Mas há sobretudo um plano conspirativo claro para destruir a floresta, essa imensa riqueza e beleza nacional, com intuitos de benefício com o crime. Ou por mera insanidade.
Há claramente o crime à solta, patente na realidade de que 40% dos incêndios começam ou acontecem durante a noite. Não consta que o sol nocturno tenha força para provocar fogos.
E há, fundamentalmente, a trágica e inqualificável demissão do Estado.
Um Estado que se demite de assumir directamente o combate aos incêndios, deixando a fatia de leão para os interesses privados dos alugadores de aviões e dos vendedores dos materiais de combate, entre outros.
Um Estado que se demite de obrigar os proprietários a limpar as matas e a cumprir a lei, em tempo oportuno, fiscalizando e aplicando sanções para os incumpridores. Mais prevenção é fundamental.
Nessa tarefa deveriam colaborar os subsidiados pelos nossos impostos e na vigilância de verão um lugar especial deveria haver para as forças militares que o país financia e que deveriam patrulhar os territórios florestais.
Um Estado que se demite de dar o exemplo, limpando as matas e florestas de que é proprietário.
Porque todos sabemos que um dos cancros maiores desta calamidade é a ausência de uma política florestal e o abandono da floresta portuguesa, como têm sublinhado as entidades do sector.
E o Estado é proprietário da «floresta mais maltratada do país», como bem refere Jaime Soares, presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses: «Com este exemplo, não se pode exigir aos outros que façam diferente». Sem dúvida!
Um Estado que se demite de alterar a moldura penal para os incendiários que atentam contra os bens, o património e os cidadãos deste país. Há que endurecer as penas contra os criminosos, doa a quem doer, e apesar das considerações algo infelizes da Ministra da Justiça. Diz a senhora que “pena mais pesada não resolve o problema dos incendiários”. Mas seguramente resolveria o problema dos portugueses!...
Há que criminalizar mais duramente os crimes de fogo posto, para que sirvam de exemplo e dissuasão aos incendiários a soldo dos mais obscuros interesses e insanidades.
Voltando ao presidente da Liga, partilhamos a sua opinião de que «o Código Penal tem de ser analisado de forma que não permita que um incendiário seja levado a juízo e depois vá para casa com apresentações periódicas. Estas coisas não podem continuar assim».
Um incendiário, provado o dolo, deveria ser condenado à pena máxima. Sem dó nem remissão, porque está a destruir e empobrecer o país.
Os fogos florestais não podem ser vistos como uma fatalidade inelutável. Como alguém refere, os fogos evitam-se, não se combatem!
O Estado não pode demitir-se das suas responsabilidades, como tem feito ao longo de décadas, com pesados custos para o país, em mortes, em prejuízos económicos, sociais, ecológicos.

3. No fim da linha, quando tudo falha, sobra para os bombeiros. Que, nos momentos críticos, não chegam para tudo, como é natural e compreensível.
Não me canso de exaltar os bombeiros, o seu heroísmo, o seu voluntarismo, a sua dedicação, a sua disponibilidade permanente, seja a que hora for, do dia ou da noite. Ser bombeiro é quase uma doença. Uma boa doença, que promove missões no sentido cristão do bem-fazer sem olhar a quem, do exercício da solidariedade, da generosidade, da entrega total à defesa da vida e dos bens alheios, sem olhar a credos, a condições sociais e económicas, a opções políticas ou ideológicas. O seu paradigma é um evangelho de pensamento e acção: “Vida por Vida”, até ao sofrimento e à morte, como se tem visto este Verão.
Bem formados, excelentemente preparados, heróis e mártires, os bombeiros são os melhores do mundo e os melhores de todos nós.

terça-feira, 30 de julho de 2013

Tudo É e Não É, novo romance de Manuel Alegre


“Tudo É e Não É” é o título do novo romance de Manuel Alegre, lançado há escassos meses.
O protagonista, António Valadares, é escritor e vive submerso num sonho obsessivo e recorrente, de onde não há fuga possível. Numa derradeira tentativa de encontrar um sentido naquilo que não o tem, aventura-se a escrever sobre a sua vida onírica. Tem assim início uma viagem a um mundo repleto de situações ilógicas e incontroláveis, de intrigas e contradições; um mundo onde personagens reais e fictícias convivem e se fundem.
O que António Valadares não prevê é que o seu empenho em narrar o inenarrável o aprisionará num caleidoscópio de sonhos e obsessões onde realidade e sonho, sonho e ficção já não se distinguem, e em que o próprio espaço e tempo são subvertidos, desde a discussão com Lenine e Trotsky em plena revolução russa até às manifestações em Lisboa e à Mão Invisível que invade a vida e o sonho.
João Maria André, filósofo e Professor catedrático na Faculdade de Letras de Coimbra, na apresentação do romance na Casa da Escrita, naquela cidade, afirmou estarmos perante um livro que acaba por ser uma “vingança dos sonhos ou o reverso de Descartes”. Isto porque, apesar de se tratar de ficção, é uma obra que a partir do dispositivo dos sonhos e da sua interacção com a realidade e com a escrita, subverte a lógica binária cartesiana.
Assim, “Tudo É e Não É”, logo no título, é, de facto, “uma vingança dos sonhos” e “um retorno da sua lógica copulativa e coincidencial, não apenas no registo dos sonhos, mas também no registo da realidade.”
Diz o protagonista: “Sonho sempre. Tenho a sensação de que quando deixar de sonhar, morrerei”.
E acrescenta, noutra altura: “Um sonho é feito de muitos sonhos. E há sonhos que se cruzam no sonho de que não consigo libertar-me”.
Ou então: “muitos sonhos e um só sonho. Ou sempre o mesmo dentro de outros sonhos”
E continua, citando Shakespeare: “somos feitos da mesma matéria de que são feitos os sonhos”.
Mais tarde dirá que “também somos o mistério que os sonhos são”.
Nesse sonho, ou nessa ficção, entram personagens vivas do mundo real e outras pertencentes à memória colectiva.
Entra também, de alguma forma, o alter-ego do autor, os seus sonhos, anseios, o seu passado: um homem de esquerda, que andou pela guerra colonial, esteve num lugar simbólico como Nambuangongo, é amante da caça, das letras e da boa mesa, crítico feroz dos mercados, das agências de rating, do “estádio supremo do capitalismo”, dos especuladores e dos “poderes ilegítimos que se sobrepõem, à democracia e à própria soberania dos Estados”.
Este é, sem dúvida, Manuel Alegre, através do protagonista da obra, António Valadares.
Um protagonista que cita músicos, escritores, homens do cinema e poetas como José Régio, Paul Valéry Whitman, Dante, António Ramos Rosa. E outras suas mitologias.
Trata-se de um romance estranho, no âmbito da obra de Manuel Alegre. Um texto mais intimista, algo estranho e desordenado.
Diz o protagonista: “perguntam-me qual é o fio condutor da narrativa. Não há. Nem na vida, quanto mais no sonho”.
E diz ainda: “tenho-me empenhado na tentativa de narrar o inenarrável: o sonho que vem e se esfuma…”.
Enfim, “a libertação de obsessões por meio da escrita”, como escreve em outro passo.
Mas um romance onde a alma poética de Manuel Alegre espreita a cada passo.
Numa escrita muito pessoal, Manuel Alegre regressa ao romance com uma história inquietante e surpreendente. Um “romance veloz, ágil, voraz” – como o classifica a escritora Maria Teresa Horta. Um romance que se lê com inteiro agrado.
Boas leituras!

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Uma greve de protesto em defesa de um país que querem destruir

 
Na tentativa de condicionar, à partida, a greve desta quinta-feira, o primeiro-ministro Passos Coelho, afirmou que “O país precisa menos de greves e mais de trabalho e rigor”.
Lá foi concedendo que o direito à greve é inalienável mas que, enfim, na situação ideal, deveria ser utilizado quando não prejudicasse ninguém. Tipo, fins de semana, mas nem para todos os sectores e nas férias, no caso dos professores.
Na situação ideal, aprendida com Salazar, e não será por acaso que há uns meses foi fotografado, sem o querer, com um livro sobre o Ditador debaixo do assento da sua viatura, o melhor era nem haver greves que prejudicassem o normal funcionamento do país. Ou talvez suspendendo a democracia. Por alguns meses ou anos.
Mas é da concretização destes desejos íntimos que o homem está livre: o povo vai muito para além dos seus correligionários (muitos deles também paralisaram) e vai muito para além de 2015, altura em que dele nos veremos livres, sendo que já hoje é tarde!...
O mais grotesco da situação é que aparecem amplificadores, aqui e ali, sobretudo nos fóruns radiofónicos, a seguir esta estratégia anti-nacional de dividir os portugueses entre os que hoje trabalharam, mesmo que ontem e amanhã não façam nada, e os manguelas que fizeram greve.
Aliás, este governo tem tido como visível missão cavar um fosso entre diversos sectores da sociedade portuguesa, colocando cidadãos contra cidadãos, na crença de que assim reinará melhor.
Começou por promover a revolta dos jovens contra a “geração grisalha”, tentando fazer crer que os mais velhos são responsáveis pelo facto de as novas gerações não terem emprego, quando a responsabilidade é de todos os Coelhos, Gaspares e Cavacos que nos têm desgovernado nos últimos trinta anos.
Depois, ensaiou dividir os trabalhadores, entre os que exercem no sector público, alegadamente privilegiados, e os que trabalham nas empresas, sempre mais empreendedores, mais talentosos, mas arriscados, enfim, mais “patriotas”, como essa gente julga.
Finalmente, e nas últimas semanas, o governo empenhou-se fortemente em colocar alunos e pais contra essa classe parasitária e pouco trabalhadora como suas excelências consideram os professores, e todos os funcionários públicos.
Nesta quinta-feira, procurou jogar trabalhadores contra patrões, no sector privado os utilizadores dos serviços públicos contra os servidores do Estado.
É esta a estratégia abominável deste governo: promover a guerra entre os portugueses; colocar portugueses contra portugueses, novos contra velhos, públicos contra privados, alunos contra professores.
A greve foi estupidamente dramatizada nos últimos dias, por motivos meramente políticos, dos governantes e suas redes clientelares.
Falaram, na imprensa, em perdas de mais de 500 milhões de euros, se a greve fosse geral (que nunca é), quando nem o Menino Jesus já acredita nestes números.
É outro papão que dá jeito aos políticos, nestas ocasiões.
É claro que não há qualquer credibilidade nestas cifras e nesta dramatização. Ainda a semana passada, Lisboa parou no feriado de Santo António e esta semana no Porto, em Braga e em Guimarães, para citar algumas cidades, não se trabalhou, e não consta que tenha transpirado tanto desassossego.
Fiz greve.
Por tudo o que antecede, mas por outras razões.
Para protestar contra um governo em que nunca acreditei, e que simplesmente já não funciona, a não ser para as televisões e os jornais.
Para protestar contra uma estratégia política e ideológica de desmantelamento do Estado Social e de destruição de tudo quanto é público em Portugal, da escola à saúde e à segurança social. O claro e indisfarçável objectivo é desarticular e degradar a oferta pública para oferecer esses sectores à iniciativa privada.
Para protestar contra uma política que tem como propósito estratégico o empobrecimento generalizado da população, dos trabalhadores aos reformados; a criação de condições para empurrar os mais jovens e qualificados para os caminhos da emigração, como há meio século se não via. O que esta gente pretende é “reconstruir” um país “pobre, miserável mas honrado”, na senda de Salazar, que muitos gostariam de recuperar. Outra coisa não representa esta ideia que a velha lengalengam muito em voga por estes dias, de que temos de ter credibilidade perante os nossos credores, cumprir as suas determinações. Pobres mas honrados!
Para protestar, assim, contra um governo vergado caninamente aos ditames de uma Europa podre, tecnocrática e barbaramente capitalista.
Contra um governo que em dois anos de vigência demonstrou, sistematicamente, estar mais preocupado em agradar aos ditos “mercados” que nos exploram até à medula do que em defender os interesses e anseios dos portugueses.
Nessa lógica, a Passos e Gaspar tanto importa que haja 1 milhão como 5 milhões de desempregados, desde que seja essa a vontade dos nossos credores. Nem sequer estou a caricaturar, porque esta gente é capaz de tudo.
Por isso, e pela situação de medo que está a regressar à sociedade portuguesa, como há muito não se via, um salazarismo encapotado e miserável, a greve fez todo o sentido.
A greve foi, mais uma vez, o que foi. Uma grande manifestação de descontentamento, de revolta, de indignação pelo rumo que o país está a tomar, e que não tem a ver apenas com a crise e a necessidade de recuperação das finanças públicas.
O que está a passar-se é outra coisa, mais execrável e absolutamente ideológica. Era bom que os portugueses abrissem bem os olhos para o que está e vai passar-se.
Porque se preparam para transformar Portugal no que ele nunca foi, nem legitimamente deverá vir a ser!

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Fafenses viajaram com Eça de Queirós até Baião


 




 Seis dezenas de fafenses, sobretudo docentes e seus familiares, viajaram este sábado ao saboroso encontro de um dos nomes maiores da literatura portuguesa do século XIX – Eça de Queirós – e sobretudo ao espaço literário de um dos seus mais conhecidos romances, “A Cidade e as Serras”.
O epicentro da visita foi Baião e Tormes, de modo a desfrutar da história, da literatura, da tradição, paisagem, gastronomia e gentes daquele município que se encontra ligado umbilicalmente à obra de um autor incontornável do romance contemporâneo.
A comitiva fafense zarpou logo pela manhã, junto à Escola Secundária, tendo feito a primeira paragem, para o café, na vizinha cidade de Amarante, lembrando o saudosista Pascoais, o remansoso Tâmega e o glorioso orador António Cândido.
Seguiu para Baião, onde visitou demorada e regaladamente o Mosteiro de Santo André de Ancede. As origens deste templo remontam ao século XII, e a mais antiga referência conhecida, de 1120, é respeitante à sua ligação aos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho. Durante vários séculos este mosteiro deteve um considerável património fundiário ligado à produção vinícola, que lhe permitiu beneficiar de grande poder económico. Em 1560 passou a depender de São Domingos de Lisboa e, a partir de então, foram executadas várias campanhas de obras com o objectivo de recuperar o conjunto arquitectónico. No século XIX foi vendida a um comerciante portuense e nos últimos anos foi adquirida pelo município de Baião.
A capela de Nossa Senhora do Bom Despacho, ao lado, foi erguida em 1731, e exibe, no portal datado de 1735, o brasão dos dominicanos.
Uma visita empolgante, sem dúvida, a que se seguiu um almoço queirosiano de arroz de favas à Eça acompanhado de frango caseiro alourado ou, em alternativa, lombo de porco assado à Eça com batatas e arroz especial. Um primoroso serviço do Restaurante Primavera, no centro de Baião.
Estômagos refeitos, a comitiva seguiu para a visita à Casa de Tormes, freguesia de Santa Cruz do Douro, na envolvência dos vales poderosamente cavados do Douro, como o próprio Eça a descreve, onde Eça nunca viveu, mas que serviu de cenário real/ficcional da obra literária “A Cidade e as Serras”.






A Casa e Quinta de Vila Nova em Sta. Cruz do Douro, chamada de Tormes, datada de finais do século XVI, que pertencia à mulher do notável romancista, Emília de Castro Pamplona, constitui-se hoje como um importante núcleo museológico referente à vida e obra do escritor.
A Fundação Eça de Queiroz dispõe de uma biblioteca, que conta com mais de 4.500 livros que pertenceram a Eça de Queiroz, à família Resende e ainda exemplares sobre a vida e obra do escritor que têm sido publicados ao longos dos anos.
Quando se dá início ao percurso rumo à Casa de Tormes, depara-se, na entrada, com um belo pátio em granito, subindo as escadas que estão por debaixo do arco enorme que o escritor fazia referência, encontra-se a Casa-Museu: a sala de entrada; biblioteca; sala museu; sala de estar; sala de jantar; quarto; cozinha; capela; e varanda, com vistas paradisíacas sobre o Douro.
E no seu interior, é um encanto encontrar a viúva do neto (Manuel Benedicto de Castro) de Eça de Queirós, D. Maria da Graça Salema de Castro, simpáticos e rijos 93 anos, actual presidente vitalícia da Fundação que foi inaugurada em 25 de Novembro de 1997, pelo então Presidente da República Jorge Sampaio.
Levámos-lhe livros de Fafe, para enriquecer a biblioteca da Fundação Eça de Queirós!
 
Foi um privilégio contactar os espaços, os objectos, os ambientes, o imaginário de Eça, de finais do século XIX.
Pelas 20h00, encetámos a viagem de regresso a Fafe.

terça-feira, 18 de junho de 2013

O regresso à agricultura!...


Após décadas a falar-se da importância dos serviços e das potencialidades do turismo, paralelamente a um grande esforço de desindustrialização e de investimento na economia de casino, eis que o regresso à agricultura e ao mar está na ordem do dia.
E quem melhor do que o coveiro da agricultura portuguesa e da actividade pesqueira, enquanto primeiro-ministro, para apelar à necessidade de o país voltar a pegar nas máquinas e nas rabiças do arado de modo a dar a volta à situação calamitosa em que os portugueses se encontram, em resultado de políticas destruidoras do que melhor o país tinha, apenas porque a ganância da União Europeia impunha a lei do mais forte?
Cavaco Silva, em mais um 10 de Junho, regressou ao estafado slogan de que «vivemos tempos de riscos, incertezas e desafios». Por isso, é necessário ir em frente, de cabeça.
Mas não deixa de ser verdade que o discurso de Cavaco há uma semana foi demasiado vazio de conteúdo, volátil, desapegado da realidade e no qual os problemas fundamentais dos portugueses passaram em claro. O que diz bem do posicionamento ideológico do Presidente da República, no momento presente, inadmissivelmente assumindo ser uma “espécie de bóia de salvação do governo” (Constança Cunha e Sá), quando a missão do Supremo Magistrado da Nação é “ser presidente de todos os portugueses”. Mas já se viu que não é, nem faz tenção de ser e que não pretende dizer nada a ninguém, mas apenas marcar presença no discurso rotineiro que tem de produzir, a cada 25 de Abril ou 10 de Junho que passa!...
Na sua salvífica missão de apontar caminhos para a pós-troika, como se fosse o que mais preocupa os cidadãos neste momento (daí a vacuidade deliberada do discurso presidencial…), Cavaco Silva evidenciou a importância da agricultura (a par do património) como sectores de futuro, ressaltando a necessidade de aproveitar as nossas potencialidades, “que existem e são muitas”.
Falou do património cultural como sector estratégico, evidenciando que um estudo recente concluiu que o património histórico é um dos domínios em que se verifica maior crescimento do contributo do sector cultural para a riqueza nacional e que por isso é urgente conceder “especial atenção à salvaguarda e valorização” do património. Numa altura em que não há minimamente verbas para acorrer à degradação do património, estamos conversados.
Mas foi na agricultura que Cavaco mais se centrou, desde logo, obviamente, para se defender das justas acusações de que destruiu a agricultura e as pescas enquanto foi primeiro-ministro, entre 1985 e 1995.
Disse o Chefe de Estado que “há quem sustente que a adesão de Portugal às Comunidades [em 1986] implicou a destruição do mundo rural e a perda irreversível da nossa capacidade produtiva no sector primário. Este retrato é completamente desfasado da realidade”. É a sua defesa, fraca defesa.
Desfiou números, estatísticas, argumentos para fazer crer que o sector agrícola está hoje em Portugal mais forte e produtivo que há 30 anos. Ou seja, a agricultura foi dizimada, o número de agricultores ficou reduzido a uma percentagem residual da actividade económica, mas no fim de contas, apesar de tudo isso, milagrosamente, “a produtividade da terra cresceu 22% e a produtividade do trabalho agrícola aumentou 180%”. Espectáculo malabarístico! Importa-se de repetir?
Ou seja, a situação evoluiu, o analfabetismo agrícola desapareceu e a paisagem social dos nossos campos mudou – e muito, como quer o herói de Boliqueime, concluindo que “a evolução da nossa agricultura constitui um bom exemplo da necessidade de abandonarmos ideias feitas e preconceitos, de ultrapassarmos a tendência para o derrotismo e o pessimismo”.
Na tentativa frustrada de ajudar o governo, como se fosse um secretário de estado de Assunção Cristas, Cavaco Silva continua a tentar transmitir provas de vida, o que nem sempre é fácil.
E desde logo, basta olhar em nosso redor para se perceber que o discurso de Cavaco não cola com a realidade. Os campos estão ao abandono, os agricultores que os fabricavam estão a desaparecer, a economia rural é um mito, a nossa dependência agro-alimentar é assustadora.
Como reagiu o presidente da Confederação Nacional da Agricultura, além de fazer um «frete ao Governo», o Chefe de Estado está a regressar “à teoria do oásis», que o caracterizou na década em que governou o país e fez desaparecer o aparelho produtivo a nível agrícola e pesqueiro.
Por força da pressão e das determinações da Europa, em função das conveniências, ora se apoiava a plantação de pomares, ora se incentivava o arranque das macieiras. Ora se investia na vinha, ora se pagava para erradicar a vinha, em decisões irracionais e criminosas, meramente economicistas, que ainda hoje estamos a pagar e a lamentar.
Podem ter sobrado empresas com modos de produção intensivos e destruidores dos recursos naturais. Mas o certo é que, mesmo o sector agrícola, continua à mercê das grandes superfícies que estrangulam os preços, que os consumidores pagam com língua de palmo.
Pelo meio, desde o cavaquismo, ficaram os cadáveres de centenas de milhares de pequenas e médias explorações agrícolas familiares, que os programas europeus destruíram, inapelavelmente.
E o que não parou de crescer foi o défice da balança de pagamentos, em bens agro-alimentares, que está na ordem dos 3,5 mil milhões de euros por ano.
Uma enormidade, de que Cavaco Silva e os seus sucessores são responsáveis primeiros!
Mas é sempre interessante ouvir falar de agricultura, porque nela reside a alma da economia de um país, conceito que infelizmente se perdeu nas últimas décadas, em favor da especulação financeira e da economia baseada no lucro fácil, no despesismo e no consumismo desenfreados!
Mas é necessário falar da agricultura com verdade, com perspectivas realistas e não como mero e descredibilizado exercício folclórico, apenas para marcar calendário, como foi o caso.
 
(Artigo publicado no Correio de Minho desta segunda-feira, 17 de Junho de 2013)
 

quinta-feira, 13 de junho de 2013

TRABALHADORES DO MUNICÍPIO EM VISITA À GALIZA


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No passado domingo e segunda-feira, o Centro Cultural, Social e Desportivo dos Trabalhadores do município promoveu, no âmbito do seu programa de actividades, uma visita a diversos locais da vizinha Galiza, na qual participaram mais de meia centena de funcionários e familiares.
Como funcionário e presidente da assembleia geral da colectividade que ajudei a fundar há uma década, também me incorporei no passeio.
Os convivas começaram por estacionar na cidade de Baiona, onde aproveitaram para almoçar e visitar o centro urbano de uma localidade com numerosos pergaminhos históricos.
Depois, rumaram à conhecida estância balnear de Samil, que apenas visionaram por cerca de uma hora, dado o frio que se fazia sentir naquele lugar.
O final do primeiro dia de passeio culminou em Vigo, onde os fafenses puderam desfrutar a cidade e pernoitar.
Na manhã do dia 10, dia de Portugal passado na Galiza, os convivas peregrinaram até à catedral de Santiago de Compostela, terra de imensa fé e de fartos motivos para uma proveitosa visita.
Ao fim da manhã de segunda-feira, à comitiva que se deslocou de autocarro de Fafe, juntaram-se cinco elementos da Polícia Municipal que se aventuraram a fazer os 240 quilómetros de bicicleta, partindo na madrugada do sábado anterior.



Após algumas horas de deambulação por aquele mítico lugar de peregrinação jacobeia, onde foi possível encontrar mais gente de Fafe que se deslocou de bicicleta e de automóvel, a reforçada comitiva encetou o regresso à “Sala de Visitas do Minho”.
Após breves paragens em Pontevedra e na Fortaleza de Valença do Minho, os convivas fafenses regressaram à sua cidade ao final da tarde.
Apesar de as condições climatéricas não terem sido as mais favoráveis, com a companhia da chuva, do frio e das nuvens, a viagem decorreu da melhor forma, registando-se um espírito de confraternização absolutamente salutar entre funcionários da mesma instituição e respectivos familiares.