domingo, 13 de outubro de 2013

PALÁCIO DA JUSTIÇA: OBRA TÍPICA DO ESTADO NOVO PERFAZ 50 ANOS




Exactamente há 50 anos era inaugurado o edifício do Palácio da Justiça de Fafe. O Tribunal saía assim do edifício dos Paços do Concelho, onde esteve desde 1913, meio século.
O Palácio da Justiça, localizado na Praça José Florêncio Soares, foi inaugurado solenemente na manhã do dia 13 de Outubro de 1963 e é claramente uma obra típica do Estado Novo, talvez a mais paradigmática da cidade.
O arquitecto do Palácio da Justiça foi o bracarense Francisco Augusto Baptista e na imponência e, paradoxalmente, do edifício pode vislumbrar-se o discurso estético-ideológico do salazarismo. A década de 1960, foi a “década dos palácios da Justiça”, edifícios que, na época, inscreviam “na pedra, nos estuques, nos bronzes, nos vitrais, na estatuária, nos baixos relevos, um discurso de reciclagem da história nacional”. Em traços gerais, dir-se-á que se trata de uma arquitectura convencional, estandardizada, embora inserida no meio, a nível de utilização de materiais. Em nome da politica de “dignificação da Justiça”, são construídos edifícios autónomos, de sugerência apalaçada, “ostensivamente majestáticos”, na sua frontaria e com uma notável preocupação de enobrecimento das salas de audiência. No fundo, o programa em que se insere a construção do Palácio da Justiça (e a beneficiação dos Paços do Concelho, poucos anos depois), visa “reafirmar a unidade da Nação e a firmeza dos valores morais e ideológicos em que o Regime se inspira e revê”.
 
A iniciativa do Palácio da Justiça remonta a 1952, altura em que se iniciam com o Governo os contactos com vista à sua construção. Retomam-se em 1965 e no ano seguinte. O anteprojecto para a construção do edifício que, além do Tribunal Judicial, no primeiro andar, inclui as Conservatórias dos Registos Civil e Predial e o Cartório Notarial de Fafe, foi aprovado em 1958 e o projecto mereceu a aprovação do Ministro das Obras Públicas (que financiou a obra em 60% do seu custo) em 18 de Fevereiro do ano seguinte.
Para a sua execução, foi necessário demolir a antiga cadeia, que existia no local desde o final do século XIX, bem como o reservatório das águas e uma série de casas que existiam na parte posterior.
A empreitada de construção do edifício foi adjudicada à firma Ramos & Estebainha, de Felgueiras, pela importância de 3 457 855$20, tendo os trabalhos começado em Fevereiro de 1960.
Depois de alguns atrasos, motivados por problemas relacionados com as expropriações, os trabalhos foram dados por concluídos em 26 de Janeiro de 1963.  
Os motivos decorativos existentes no Palácio da Justiça são da autoria do escultor António Coelho de Figueiredo. Na fachada principal, sobre as janelas do primeiro andar, destacam-se três baixos-relevos em bronze, representando a força, as Tábuas da lei e a Razão. Nas fachadas laterais, dois baixos-relevos em pedra ançã representam o “Amor” e o “Ódio”. Na escada nobre de acesso ao primeiro andar, impõem-se vistosos vitrais, representando figuras sobraçando as Tábuas da Lei, com complementos ornamentais e legendas. Na sala de audiências, um magnífico fresco em torno do tema “Dai a Deus o que é de Deus e a César o que é de César”. O custo destes trabalhos foi de 270 contos.
De referir, como curiosidade, que o mobiliário que apetrechou o edifício foi fornecido pela Colónia penal Agrícola de Sintra.
O custo total do empreendimento acabou por orçar os 4 mil contos (20 000 euros) e o palácio foi inaugurado, com toda a pompa e circunstância, a que não faltou a guarda de honra dos Bombeiros, da Mocidade Portuguesa, dos escuteiros e das duas bandas de música locais, pelos Ministros da Justiça, Antunes Varela e das Obras Públicas, Arantes e Oliveira.
Era então presidente da Câmara o Professor Manuel Cardoso, que pronunciou um discurso adaptado às circunstâncias. Também o Ministro Antunes Varela pronunciou um discurso em que historiou o surgimento e o atraso na concretização da obra, abordou o “novo espírito” das obras públicas em Portugal e se deteve sobre o “sentido e alcance social” dessas mesmas obras, enquadradas naturalmente no paradigma ideológico estadonovista.
Como curiosidade, saliente-se que a comitiva ministerial inaugurou de seguida a Cadeia Comarcã, onde hoje está instalada a Guarda Nacional Republicana. O edifício custou 900 contos e estava apto a recolher 20 homens e 6 mulheres, em serviços separados.
A comitiva inaugurou depois a obra de pavimentação da Rua José Ribeiro Vieira de Castro e, de tarde, as obras de electrificação de Freitas e Vila Cova, da estrada e ponte de Queimadela, caminho municipal de Medelo e sistema de abastecimento de água a Teibães e Cruz (Antime), a Moreira de Rei e a Silvares S. Martinho.

Regista a imprensa da época que o cômputo das obras inauguradas totalizou uma verba “superior a 10 000 contos”.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Curso Livre sobre a Guerra Colonial entre Outubro e Novembro em Fafe


 
O Núcleo de Artes e Letras de Fafe vai levar a efeito o II Curso Livre de História Local, sobre a temática do impacto da Guerra Colonial (1961-1974) no concelho de Fafe.

O curso terá início em 24 de Outubro e decorrerá semanalmente às quintas-feiras, até 21 de Novembro, das 18h30 às 20h00, no auditório da Biblioteca Municipal de Fafe, sendo aberto a toda a comunidade, desde os ex-combatentes da guerra colonial ao pessoal docente das escolas do concelho e aos interessados, em geral.

O prazo de inscrição decorre até 21 de Outubro.

O curso inclui cinco módulos, em que se fará a abordagem da Guerra Colonial, a nível nacional e depois se descerá à realidade e à memória do concelho para abordar diferentes aspectos do impacto desse conflito que marcou e continua a marcar gerações de fafenses e de portugueses em geral.

O primeiro módulo (24 de Outubro) tem por tema “O itinerário do combatente português na guerra colonial: método de pesquisa e áreas de estudo, vivências da guerra, consequências e aspectos ocultos desta guerra" e será ministrado pelo docente José Manuel Lages, director do Museu da Guerra Colonial.

Em 31 do corrente, é a vez de Jaime Silva, ex-combatente na guerra colonial, abordar o tema “A participação de militares do concelho de Fafe no Ultramar”.

Em 7 de Novembro, a temática “A Guerra Colonial nas páginas da imprensa local” será tratada pelo historiador Daniel Bastos e em 14 de Novembro o também historiador e ex-combatente Artur Magalhães Leite modera o quarto módulo sobre “O conflito contado por aqueles que o viveram: imagens e testemunhos da Guerra Colonial”.

Finalmente, em 21 de Novembro, culmina o curso com o tema “Memórias literárias da Guerra Colonial”, pelo historiador Artur Coimbra, seguindo-se a entrega dos diplomas de participação.

A ficha de inscrição, emitida pelo Núcleo de Artes e Letras, pode ser remetida pelo correio para a Casa Municipal de Cultura de Fafe - A/C Núcleo de Artes e Letras de Fafe - Rua Major Miguel Ferreira - 4820-276 FAFE, podendo ser entregue pessoalmente no mesmo local ou enviada para o endereço electrónico: nalf@sapo.pt.

A participação no curso terá um custo simbólico de 5€ para associados do NALF e ex-combatentes e 10€ para os restantes inscritos.

O evento tem a colaboração de entidades como Câmara Municipal de Fafe, Associação Portuguesa de Veteranos de Guerra, Rangers – Comissão de Trabalho de Fafe, Museu da Guerra Colonial e editora Labirinto.

De recordar que o Núcleo de Artes e Letras de Fafe levou a efeito em 2010 um curso livre de história local sobre a história de Fafe na I República, do qual resultou na publicação de uma obra lançada há cerca de um ano.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Um livro de vez em quando: "Madrugada Suja", de Miguel Sousa Tavares

 
Miguel Sousa Tavares, depois de grandes êxitos como "Equador" e "Rio das Flores", volta a agitar a literatura portuguesa e sobretudo os seus seguidores, com o seu novo romance, "Madrugada Suja", que tive o prazer de ler em Agosto.
No princípio, há uma madrugada suja: uma noite de álcool de estudantes que acaba num pesadelo que vai perseguir os seus protagonistas durante anos. Depois, há uma aldeia do interior alentejano que se vai despovoando aos poucos, até restar apenas um avô (Tomás da Burra) e um neto. Filipe, o neto, parte para o mundo sem esquecer a sua aldeia e tudo o que lá aprendeu. As circunstâncias do seu trabalho levam-no a tropeçar num caso de corrupção política. Ele enreda-se na trama, ao mesmo tempo que esta se confunde com o seu passado esquecido. Intercaladamente, e através de várias vozes narrativas, seguimos o destino dessa aldeia e em simultâneo o dos protagonistas daquela madrugada suja e daquela intriga política. Até que, no final, dois dos protagonistas da madrugada suja, Filipe e Eva, acabam por se reencontrar, numa paixão, anos depois.
No fundo, a obra acaba por ser uma história romanceada dos últimos 40 anos da vida pública portuguesa. Fala sobre os acasos da vida e a corrupção política, do Alentejo da Reforma Agrária até hoje.
Miguel Sousa Tavares decanta no romance alguns dos seus ódios de estimação ou dos seus cavalos de batalha: o pato-bravismo, os especuladores imobiliários, a corrupção em algum poder autárquico.
Uma visão desencantada dos efeitos do Portugal pós-Europa:
“Um Portugal de aldeias mortas, de comerciantes falidos, de agricultores sentados à berma das estradas construídas com os dinheiros da Europa, vendo passar os grandes camiões TIR que traziam de Espanha e dessa Europa as frutas e os legumes criados em estufas maiores do que quaisquer hortas deles, em direcção aos centros comerciais onde, em breve, eles próprios aprenderiam o novo e insípido sabor dos melões e das cebolas, dos reinventados “frangos do campo”, ou dos porcos sem gordura nem pecado, embalados em vácuo. E onde se resignavam a passear aos domingos, com filhos e noras e netos, tentando não se perder no meio dessa turba deslizante, entre montras e restaurantes e néons, num dédalo baptizado com nomes de avenidas e ruas, nomes de países ou heróis da Pátria”.
"Madrugada Suja" é um livro envolvente. Tem romance, tem história, tem crítica social e política:
"Todos estavam endividados, mas felizes: o Estado, as autarquias, os cidadãos. Todos viviam em casa própria, mas que, de facto pertencia ao banco que lhes emprestara dinheiro a 30 anos e também emprestara para as férias no Brasil, Cuba, República Dominicana, mais o carro e os brinquedos electrónicos dos filhos".
Uma obra sobre o Portugal dos nossos dias, com as suas virtudes e os seus defeitos, as utopias e as desilusões, que importa ler e reflectir.
Excelente!
350 páginas bem escritas, de leitura acessível e estimulante.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

UM PAÍS A ARDER, UM ESTADO QUE SE DEMITE!


 
1. Ano após ano, inexoravelmente, como o relógio marca as horas, o Verão deflagra em chamas colossais que consomem florestas sem fim, sementeiras, gados, casas, carros, vidas inteiras de trabalho e de canseiras, esperanças num futuro mais luminoso. Um inferno. Um autêntico cenário de guerra. Quando menos se espera, as nuvens de fumo elevam-se, desesperadas, e rapidamente explodem em ígneos clarões, incontroláveis, roncantes, perante os gritos dos populares, a angústia, a revolta, o pânico, a impotência.
As sirenes irrompem dos quartéis no silêncio das vilas e cidades, de dia ou de noite. Quando o flagelo rebenta.
Após dias e dias de combates, de notícias bombásticas, de destruição, as amplas manchas florestais anteriormente verdes aparecem vestidas de negro, para enterrar ainda mais a auto-estima e a economia de um país em vertiginosa crise. Económica e de valores.
Todos os anos o cenário se repete, ou agrava, restando a mesma miséria, a mesma indignação, o mesmo pavor. Que mais parecem inelutáveis, uma fatalidade, mas que não o são. Não podem ser.
Agosto foi explosivo. Setembro, pelo menos para já, acalmou, também fruto das condições climatéricas.
Portugal, um país pequeno, transformado num enorme braseiro que vai consumindo, chocantemente, vidas humanas e bens materiais.
Na segunda quinzena de Agosto, as ignições cifraram-se entre 200 e 300 por dia. Houve mesmo um dia (20) em que chegaram às 350.
Perante esse panorama, não há meios adequados para o combate aos incêndios. Em média, foram mobilizados 5500 operacionais por dia, que não chegam para as encomendas e andam dias seguidos a combater os fogos, exaustos, esfomeados, sedentos.
O saldo até agora registado é catastrófico: a área ardida, em números provisórios, ultrapassava em 30 de Agosto os 94 mil hectares.
As perdas humanas são trágicas: oito bombeiros mortos (António Ferreira, 45 anos; Pedro Rodrigues, 41 anos; Ana Rita Pereira, 24 anos; Bernardo Figueiredo, 23 anos; Cátia Pereira Das, 21 anos, Bernardo Cardoso, 19 anos; Fernando Manuel Reis, 51 anos e Daniel Falcão, 25 anos) e ferimentos em algumas dezenas. Imensas perdas humanas e materiais, com veículos ardidos totalmente e outros danificados.
Uma desmedida aflição colectiva.
Um incomensurável prejuízo económico. O ministro do Ambiente, Moreira da Silva, falava por estes dias que “nos últimos dez anos, destruímos três mil milhões de euros de valor económico da floresta”. Quase 300 milhões de prejuízos/ano. Um absurdo! Uma enormidade!
Um desastre ecológico de dimensões inimagináveis. Levaremos décadas a reproduzir as espécies arbóreas que em horas ou dias são consumidas pelas chamas.
 
2. Aqui chegados, falta apontar as causas, para tão devastadores e fatídicos efeitos.
Sabe-se de uma chamada “indústria dos incêndios”, das motivações económicas dos que fretam avisões a milhares de euros à hora, dos que negoceiam materiais destinados ao combate aos incêndios, das celuloses que aproveitam a situação, das urbanizações que podem nascer nos terrenos ardidos, dos que não querem pagar para utilizar as reservas de caça turística e associativa.
Haverá também comportamentos negligentes, vinganças entre vizinhos e outros factores menores.
Mas há sobretudo um plano conspirativo claro para destruir a floresta, essa imensa riqueza e beleza nacional, com intuitos de benefício com o crime. Ou por mera insanidade.
Há claramente o crime à solta, patente na realidade de que 40% dos incêndios começam ou acontecem durante a noite. Não consta que o sol nocturno tenha força para provocar fogos.
E há, fundamentalmente, a trágica e inqualificável demissão do Estado.
Um Estado que se demite de assumir directamente o combate aos incêndios, deixando a fatia de leão para os interesses privados dos alugadores de aviões e dos vendedores dos materiais de combate, entre outros.
Um Estado que se demite de obrigar os proprietários a limpar as matas e a cumprir a lei, em tempo oportuno, fiscalizando e aplicando sanções para os incumpridores. Mais prevenção é fundamental.
Nessa tarefa deveriam colaborar os subsidiados pelos nossos impostos e na vigilância de verão um lugar especial deveria haver para as forças militares que o país financia e que deveriam patrulhar os territórios florestais.
Um Estado que se demite de dar o exemplo, limpando as matas e florestas de que é proprietário.
Porque todos sabemos que um dos cancros maiores desta calamidade é a ausência de uma política florestal e o abandono da floresta portuguesa, como têm sublinhado as entidades do sector.
E o Estado é proprietário da «floresta mais maltratada do país», como bem refere Jaime Soares, presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses: «Com este exemplo, não se pode exigir aos outros que façam diferente». Sem dúvida!
Um Estado que se demite de alterar a moldura penal para os incendiários que atentam contra os bens, o património e os cidadãos deste país. Há que endurecer as penas contra os criminosos, doa a quem doer, e apesar das considerações algo infelizes da Ministra da Justiça. Diz a senhora que “pena mais pesada não resolve o problema dos incendiários”. Mas seguramente resolveria o problema dos portugueses!...
Há que criminalizar mais duramente os crimes de fogo posto, para que sirvam de exemplo e dissuasão aos incendiários a soldo dos mais obscuros interesses e insanidades.
Voltando ao presidente da Liga, partilhamos a sua opinião de que «o Código Penal tem de ser analisado de forma que não permita que um incendiário seja levado a juízo e depois vá para casa com apresentações periódicas. Estas coisas não podem continuar assim».
Um incendiário, provado o dolo, deveria ser condenado à pena máxima. Sem dó nem remissão, porque está a destruir e empobrecer o país.
Os fogos florestais não podem ser vistos como uma fatalidade inelutável. Como alguém refere, os fogos evitam-se, não se combatem!
O Estado não pode demitir-se das suas responsabilidades, como tem feito ao longo de décadas, com pesados custos para o país, em mortes, em prejuízos económicos, sociais, ecológicos.

3. No fim da linha, quando tudo falha, sobra para os bombeiros. Que, nos momentos críticos, não chegam para tudo, como é natural e compreensível.
Não me canso de exaltar os bombeiros, o seu heroísmo, o seu voluntarismo, a sua dedicação, a sua disponibilidade permanente, seja a que hora for, do dia ou da noite. Ser bombeiro é quase uma doença. Uma boa doença, que promove missões no sentido cristão do bem-fazer sem olhar a quem, do exercício da solidariedade, da generosidade, da entrega total à defesa da vida e dos bens alheios, sem olhar a credos, a condições sociais e económicas, a opções políticas ou ideológicas. O seu paradigma é um evangelho de pensamento e acção: “Vida por Vida”, até ao sofrimento e à morte, como se tem visto este Verão.
Bem formados, excelentemente preparados, heróis e mártires, os bombeiros são os melhores do mundo e os melhores de todos nós.

terça-feira, 30 de julho de 2013

Tudo É e Não É, novo romance de Manuel Alegre


“Tudo É e Não É” é o título do novo romance de Manuel Alegre, lançado há escassos meses.
O protagonista, António Valadares, é escritor e vive submerso num sonho obsessivo e recorrente, de onde não há fuga possível. Numa derradeira tentativa de encontrar um sentido naquilo que não o tem, aventura-se a escrever sobre a sua vida onírica. Tem assim início uma viagem a um mundo repleto de situações ilógicas e incontroláveis, de intrigas e contradições; um mundo onde personagens reais e fictícias convivem e se fundem.
O que António Valadares não prevê é que o seu empenho em narrar o inenarrável o aprisionará num caleidoscópio de sonhos e obsessões onde realidade e sonho, sonho e ficção já não se distinguem, e em que o próprio espaço e tempo são subvertidos, desde a discussão com Lenine e Trotsky em plena revolução russa até às manifestações em Lisboa e à Mão Invisível que invade a vida e o sonho.
João Maria André, filósofo e Professor catedrático na Faculdade de Letras de Coimbra, na apresentação do romance na Casa da Escrita, naquela cidade, afirmou estarmos perante um livro que acaba por ser uma “vingança dos sonhos ou o reverso de Descartes”. Isto porque, apesar de se tratar de ficção, é uma obra que a partir do dispositivo dos sonhos e da sua interacção com a realidade e com a escrita, subverte a lógica binária cartesiana.
Assim, “Tudo É e Não É”, logo no título, é, de facto, “uma vingança dos sonhos” e “um retorno da sua lógica copulativa e coincidencial, não apenas no registo dos sonhos, mas também no registo da realidade.”
Diz o protagonista: “Sonho sempre. Tenho a sensação de que quando deixar de sonhar, morrerei”.
E acrescenta, noutra altura: “Um sonho é feito de muitos sonhos. E há sonhos que se cruzam no sonho de que não consigo libertar-me”.
Ou então: “muitos sonhos e um só sonho. Ou sempre o mesmo dentro de outros sonhos”
E continua, citando Shakespeare: “somos feitos da mesma matéria de que são feitos os sonhos”.
Mais tarde dirá que “também somos o mistério que os sonhos são”.
Nesse sonho, ou nessa ficção, entram personagens vivas do mundo real e outras pertencentes à memória colectiva.
Entra também, de alguma forma, o alter-ego do autor, os seus sonhos, anseios, o seu passado: um homem de esquerda, que andou pela guerra colonial, esteve num lugar simbólico como Nambuangongo, é amante da caça, das letras e da boa mesa, crítico feroz dos mercados, das agências de rating, do “estádio supremo do capitalismo”, dos especuladores e dos “poderes ilegítimos que se sobrepõem, à democracia e à própria soberania dos Estados”.
Este é, sem dúvida, Manuel Alegre, através do protagonista da obra, António Valadares.
Um protagonista que cita músicos, escritores, homens do cinema e poetas como José Régio, Paul Valéry Whitman, Dante, António Ramos Rosa. E outras suas mitologias.
Trata-se de um romance estranho, no âmbito da obra de Manuel Alegre. Um texto mais intimista, algo estranho e desordenado.
Diz o protagonista: “perguntam-me qual é o fio condutor da narrativa. Não há. Nem na vida, quanto mais no sonho”.
E diz ainda: “tenho-me empenhado na tentativa de narrar o inenarrável: o sonho que vem e se esfuma…”.
Enfim, “a libertação de obsessões por meio da escrita”, como escreve em outro passo.
Mas um romance onde a alma poética de Manuel Alegre espreita a cada passo.
Numa escrita muito pessoal, Manuel Alegre regressa ao romance com uma história inquietante e surpreendente. Um “romance veloz, ágil, voraz” – como o classifica a escritora Maria Teresa Horta. Um romance que se lê com inteiro agrado.
Boas leituras!

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Uma greve de protesto em defesa de um país que querem destruir

 
Na tentativa de condicionar, à partida, a greve desta quinta-feira, o primeiro-ministro Passos Coelho, afirmou que “O país precisa menos de greves e mais de trabalho e rigor”.
Lá foi concedendo que o direito à greve é inalienável mas que, enfim, na situação ideal, deveria ser utilizado quando não prejudicasse ninguém. Tipo, fins de semana, mas nem para todos os sectores e nas férias, no caso dos professores.
Na situação ideal, aprendida com Salazar, e não será por acaso que há uns meses foi fotografado, sem o querer, com um livro sobre o Ditador debaixo do assento da sua viatura, o melhor era nem haver greves que prejudicassem o normal funcionamento do país. Ou talvez suspendendo a democracia. Por alguns meses ou anos.
Mas é da concretização destes desejos íntimos que o homem está livre: o povo vai muito para além dos seus correligionários (muitos deles também paralisaram) e vai muito para além de 2015, altura em que dele nos veremos livres, sendo que já hoje é tarde!...
O mais grotesco da situação é que aparecem amplificadores, aqui e ali, sobretudo nos fóruns radiofónicos, a seguir esta estratégia anti-nacional de dividir os portugueses entre os que hoje trabalharam, mesmo que ontem e amanhã não façam nada, e os manguelas que fizeram greve.
Aliás, este governo tem tido como visível missão cavar um fosso entre diversos sectores da sociedade portuguesa, colocando cidadãos contra cidadãos, na crença de que assim reinará melhor.
Começou por promover a revolta dos jovens contra a “geração grisalha”, tentando fazer crer que os mais velhos são responsáveis pelo facto de as novas gerações não terem emprego, quando a responsabilidade é de todos os Coelhos, Gaspares e Cavacos que nos têm desgovernado nos últimos trinta anos.
Depois, ensaiou dividir os trabalhadores, entre os que exercem no sector público, alegadamente privilegiados, e os que trabalham nas empresas, sempre mais empreendedores, mais talentosos, mas arriscados, enfim, mais “patriotas”, como essa gente julga.
Finalmente, e nas últimas semanas, o governo empenhou-se fortemente em colocar alunos e pais contra essa classe parasitária e pouco trabalhadora como suas excelências consideram os professores, e todos os funcionários públicos.
Nesta quinta-feira, procurou jogar trabalhadores contra patrões, no sector privado os utilizadores dos serviços públicos contra os servidores do Estado.
É esta a estratégia abominável deste governo: promover a guerra entre os portugueses; colocar portugueses contra portugueses, novos contra velhos, públicos contra privados, alunos contra professores.
A greve foi estupidamente dramatizada nos últimos dias, por motivos meramente políticos, dos governantes e suas redes clientelares.
Falaram, na imprensa, em perdas de mais de 500 milhões de euros, se a greve fosse geral (que nunca é), quando nem o Menino Jesus já acredita nestes números.
É outro papão que dá jeito aos políticos, nestas ocasiões.
É claro que não há qualquer credibilidade nestas cifras e nesta dramatização. Ainda a semana passada, Lisboa parou no feriado de Santo António e esta semana no Porto, em Braga e em Guimarães, para citar algumas cidades, não se trabalhou, e não consta que tenha transpirado tanto desassossego.
Fiz greve.
Por tudo o que antecede, mas por outras razões.
Para protestar contra um governo em que nunca acreditei, e que simplesmente já não funciona, a não ser para as televisões e os jornais.
Para protestar contra uma estratégia política e ideológica de desmantelamento do Estado Social e de destruição de tudo quanto é público em Portugal, da escola à saúde e à segurança social. O claro e indisfarçável objectivo é desarticular e degradar a oferta pública para oferecer esses sectores à iniciativa privada.
Para protestar contra uma política que tem como propósito estratégico o empobrecimento generalizado da população, dos trabalhadores aos reformados; a criação de condições para empurrar os mais jovens e qualificados para os caminhos da emigração, como há meio século se não via. O que esta gente pretende é “reconstruir” um país “pobre, miserável mas honrado”, na senda de Salazar, que muitos gostariam de recuperar. Outra coisa não representa esta ideia que a velha lengalengam muito em voga por estes dias, de que temos de ter credibilidade perante os nossos credores, cumprir as suas determinações. Pobres mas honrados!
Para protestar, assim, contra um governo vergado caninamente aos ditames de uma Europa podre, tecnocrática e barbaramente capitalista.
Contra um governo que em dois anos de vigência demonstrou, sistematicamente, estar mais preocupado em agradar aos ditos “mercados” que nos exploram até à medula do que em defender os interesses e anseios dos portugueses.
Nessa lógica, a Passos e Gaspar tanto importa que haja 1 milhão como 5 milhões de desempregados, desde que seja essa a vontade dos nossos credores. Nem sequer estou a caricaturar, porque esta gente é capaz de tudo.
Por isso, e pela situação de medo que está a regressar à sociedade portuguesa, como há muito não se via, um salazarismo encapotado e miserável, a greve fez todo o sentido.
A greve foi, mais uma vez, o que foi. Uma grande manifestação de descontentamento, de revolta, de indignação pelo rumo que o país está a tomar, e que não tem a ver apenas com a crise e a necessidade de recuperação das finanças públicas.
O que está a passar-se é outra coisa, mais execrável e absolutamente ideológica. Era bom que os portugueses abrissem bem os olhos para o que está e vai passar-se.
Porque se preparam para transformar Portugal no que ele nunca foi, nem legitimamente deverá vir a ser!

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Fafenses viajaram com Eça de Queirós até Baião


 




 Seis dezenas de fafenses, sobretudo docentes e seus familiares, viajaram este sábado ao saboroso encontro de um dos nomes maiores da literatura portuguesa do século XIX – Eça de Queirós – e sobretudo ao espaço literário de um dos seus mais conhecidos romances, “A Cidade e as Serras”.
O epicentro da visita foi Baião e Tormes, de modo a desfrutar da história, da literatura, da tradição, paisagem, gastronomia e gentes daquele município que se encontra ligado umbilicalmente à obra de um autor incontornável do romance contemporâneo.
A comitiva fafense zarpou logo pela manhã, junto à Escola Secundária, tendo feito a primeira paragem, para o café, na vizinha cidade de Amarante, lembrando o saudosista Pascoais, o remansoso Tâmega e o glorioso orador António Cândido.
Seguiu para Baião, onde visitou demorada e regaladamente o Mosteiro de Santo André de Ancede. As origens deste templo remontam ao século XII, e a mais antiga referência conhecida, de 1120, é respeitante à sua ligação aos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho. Durante vários séculos este mosteiro deteve um considerável património fundiário ligado à produção vinícola, que lhe permitiu beneficiar de grande poder económico. Em 1560 passou a depender de São Domingos de Lisboa e, a partir de então, foram executadas várias campanhas de obras com o objectivo de recuperar o conjunto arquitectónico. No século XIX foi vendida a um comerciante portuense e nos últimos anos foi adquirida pelo município de Baião.
A capela de Nossa Senhora do Bom Despacho, ao lado, foi erguida em 1731, e exibe, no portal datado de 1735, o brasão dos dominicanos.
Uma visita empolgante, sem dúvida, a que se seguiu um almoço queirosiano de arroz de favas à Eça acompanhado de frango caseiro alourado ou, em alternativa, lombo de porco assado à Eça com batatas e arroz especial. Um primoroso serviço do Restaurante Primavera, no centro de Baião.
Estômagos refeitos, a comitiva seguiu para a visita à Casa de Tormes, freguesia de Santa Cruz do Douro, na envolvência dos vales poderosamente cavados do Douro, como o próprio Eça a descreve, onde Eça nunca viveu, mas que serviu de cenário real/ficcional da obra literária “A Cidade e as Serras”.






A Casa e Quinta de Vila Nova em Sta. Cruz do Douro, chamada de Tormes, datada de finais do século XVI, que pertencia à mulher do notável romancista, Emília de Castro Pamplona, constitui-se hoje como um importante núcleo museológico referente à vida e obra do escritor.
A Fundação Eça de Queiroz dispõe de uma biblioteca, que conta com mais de 4.500 livros que pertenceram a Eça de Queiroz, à família Resende e ainda exemplares sobre a vida e obra do escritor que têm sido publicados ao longos dos anos.
Quando se dá início ao percurso rumo à Casa de Tormes, depara-se, na entrada, com um belo pátio em granito, subindo as escadas que estão por debaixo do arco enorme que o escritor fazia referência, encontra-se a Casa-Museu: a sala de entrada; biblioteca; sala museu; sala de estar; sala de jantar; quarto; cozinha; capela; e varanda, com vistas paradisíacas sobre o Douro.
E no seu interior, é um encanto encontrar a viúva do neto (Manuel Benedicto de Castro) de Eça de Queirós, D. Maria da Graça Salema de Castro, simpáticos e rijos 93 anos, actual presidente vitalícia da Fundação que foi inaugurada em 25 de Novembro de 1997, pelo então Presidente da República Jorge Sampaio.
Levámos-lhe livros de Fafe, para enriquecer a biblioteca da Fundação Eça de Queirós!
 
Foi um privilégio contactar os espaços, os objectos, os ambientes, o imaginário de Eça, de finais do século XIX.
Pelas 20h00, encetámos a viagem de regresso a Fafe.