segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Apresentação de "Momentos do Olhar", de João Gonçalves








 
Na noite de sexta-feira, 18 de Outubro, teve lugar na Sala Manoel de Oliveira, em Fafe, a apresentação da obra “Momentos do Olhar”, estreia poética de João Gonçalves.
Tive o privilégio de redigir o prefácio e apresentar a obra, perante dezenas de amigos e familiares do poeta.
Deixo de seguida, o essencial das palavras que proferi na sessão, que contou com a presença do vereador da cultura e poeta, Pompeu Martins e do responsável maior da editora Labirinto, João Artur Pinto, que também felicitaram o autor.
A sessão contou com a participação musical de Diana a Duarte Baptista e leitura de poemas por Acácio Almeida.
“É-me especialmente grato deixar aqui algumas palavras em torno deste livro.
Por ser seu amigo e colega de trabalho há longos anos, mas sobretudo pela agradável surpresa que resulta destes Momentos do Olhar, um título sugestivo que remete desde logo para a pluralidade dos modos de recolher e investir em cada instante de que se cria o poema.
Cada poema nasce do seu momento, reflecte inevitavelmente o olhar interior ou exterior do poeta, as suas emoções, os seus registos oníricos, as suas vivências.
Uma primeira obra, naturalmente, tem os seus pontos mais fortes e as suas fragilidades. Felizmente, os primeiros superam as segundas, e, quando assim é, vale a pena seguir em frente e desfrutar de quanto de luminoso e inesperado se colhe nas páginas do livro.
O poeta é um ser sensível que experimenta a radicalidade das emoções, o esplendor dos sonhos, a aventura do amor. Os corpos quentes da noite, o encontro dos sentidos, a fúria dos instintos. A mistura poética e escultural, de um corpo que é vida e que é arte. A deusa que o poeta ardentemente aspira, para adoração, como fonte de água cristalina e fogo que acendeu o rastilho do desejo. Mas também a sua ausência, a precariedade e a carência do ser amado.
 
Porque amar-te não é pecado
E o amor não tem dono (Ausências, p. 25)
 
Poemas de amor há inúmeros, talvez a maior parte do livro seja um longo poema de amor, em diferentes momentos. Mais ou menos sensuais e até atrevidos.
Como este pequeno texto (p. 14):
 
A fera, ferida,
Felina, de garras afiadas
Olhos, penetrantes
Boca húmida,
Corpo Sinuoso
Curvas traiçoeiras
Lâmina brilhante
De quadril cativante.
 
Ou no poema Memórias (p.26), de que leio um excerto:
 
E nas minhas memórias
Recruto a imagem do teu corpo
Filho de um amor que não é o meu
Maior dos meus encantos
 
E em cada curva do teu corpo
Eu quero estar presente
Quero abraçar-te e sentir
O teu calor ardente
 
Os teus lábios tocando nos meus
Os teus olhos a reluzirem
Meu amor é só teu
Não o deixes partir.
 
Há diversos outros exemplos, mas terão de ser os leitores a enumerá-los.
Uma obra onde o sonho também é político: de Timor “esquecido” (p. 18), em determinada altura, à aspiração dos que lutaram pela liberdade, contra a ditadura, por um país azul! (p. 19):
 
Azul, o sonho
 
Tinham o sonho
O sonho que um dia seria possível viver em liberdade
E foram acreditando
 
Tinham um sonho
O sonho que era possível viver em democracia
Era a esperança
 
Tinham o sonho
O sonho que um dia poderiam regressar do exílio
A Saudade
 
Tinham o sonho
O sonho que um dia cairia a ditadura
Era a vontade
 
Tinham o sonho
O sonho que Portugal seria um país azul
Sim azul!... Como o céu!
 
Uma obra onde o poeta escolhe o lado dos mais fracos, dos desfavorecidos, dos deserdados da vida, dos velhinhos, dos sem-abrigo (p.22):
 
Vítima
 
És vítima do sistema
Que não quer sequer sentir
Que ainda procuras esquina
Para poderes dormir
 
Estendes na pedra fria
Um simples cartão
Que usas todos os dias
Como fosse o teu colchão
 
Serves-te do manto achado
Para poderes pernoitar
E diminuíres o frio
De um sono ao luar
 
Mas também ao menino órfão, que abre sorrisos e arranca lágrimas, ou à “criança sem ninguém e abandonada” (p. 50).
Igualmente há lugar para belas homenagens poéticas ao pai e à mãe, como pilares fundacionais da sua existência.
 
Os poemas são, em geral, sintéticos, enxutos, de uma linguagem tecida no bragal do quotidiano, mas investindo num arrojo literário já assinalável para quem começa. Em imagens e figuras de estilo de que se podem deixar aqui alguns exemplos, extraídos de poemas diferentes:
 
O calor da beleza
Pulsa em minhas mãos…
(…)
sedento, mas forte
Embriago-me nos beijos… (p. 13)
 
Tocar os lábios de mel… (poema Desejos, p. 31)
 
No poema Na madrugada:
 
Apaga-se a lua
Acende-se o fogo do meu coração
 
(…)
Invento caminhos para te ver passar
Talvez um vício, um pecado
Que teme a estrada da madrugada
Onde passo nos mais tímidos dos silêncios.
 
Ou no poema Comparando (p. 51):
 
O cabelo como uma floresta
Os olhos como o Sol ou a Lua
Nas veias oceanos e rios…
A poesia é exactanente tudo aquilo que, pela palavra e pela emoção, comove,sensibiliza e desperta sentimentos.Estas características estão, inteiras, nas páginas desta obra, cuja leitura não posso deixar de recomendar.
Deixo aqui dois poemas breves que marcaram a minha leitura e gostaria de partilhar convosco:
 
Noite (p. 17)
 
Pelas ruas
No frio e no silêncio
De mãos gélidas
Nada encontro
Simplesmente a noite
Mergulhada nos seus silêncios
Murmurando o eco de um nome
Escondido nos seus segredos.
 
Espírito de alma (p. 57)
 
A alma flui…
No horizonte o sol
A onda do mar
Um olhar um adeus
Lágrima que teima
Aconchego ternura
Suspirando, bebendo
Minha pele na tua,
Teus olhos nas estrelas…
Teu toque nas pétalas
No murmúrio das ondas
O sopro da brisa
Teus lábios nos meus
 
Poemas de inegável qualidade literária, tal como a generalidade dos que integram esta obra.
Resta-me deixar felicitações muito amigas ao João Gonçalves, que seguramente tem potencial para novas incursões na área da poesia, valorizando a cultura e os valores do nosso município!”.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

“MOMENTOS DO OLHAR” – ESTREIA POÉTICA DE JOÃO GONÇALVES APRESENTADA ESTA SEXTA-FEIRA EM FAFE


Chama-se Momentos do Olhar o livro de estreia poética de João Gonçalves, que é apresentado publicamente esta sexta-feira, 18 de Outubro, pelas 21h30, na Sala Manoel de Oliveira, em Fafe.
Editada pela Labirinto, a obra é apresentada pelo poeta e escritor Artur Ferreira Coimbra, autor do prefácio.
A anteceder, actuam os jovens músicos Diana e Duarte Baptista.
João Gonçalves é funcionário do Município e presidente do Desportivo Ases de S. Jorge, um clube da cidade dedicado à formação na área do futebol.
No prefácio, Artur Coimbra sublinha a “agradável surpresa que resulta destes Momentos do Olhar, um título sugestivo que remete para a pluralidade dos modos de recolher e investir em cada instante de que se cria o poema”. E os poemas deste livro foram sendo elaborados e trabalhados ao longo de vários anos.
Momentos do Olhar é uma obra que fala de amor nas suas diversificadas expressões (à mulher, aos pais, aos familiares), mas também onde o sonho é político: de Timor “esquecido”, em determinada altura, à aspiração dos que lutaram pela liberdade, contra a ditadura, por um país azul!
Uma obra onde o poeta escolhe o lado dos mais fracos, dos desfavorecidos, dos deserdados da vida, dos sem-abrigo, das crianças órfãs e abandonadas.
“Os poemas são, em geral, sintéticos, enxutos, de uma linguagem tecida no bragal do quotidiano, mas investindo num arrojo literário já assinalável para quem começa”- sublinha ainda o autor do prefácio.

domingo, 13 de outubro de 2013

PALÁCIO DA JUSTIÇA: OBRA TÍPICA DO ESTADO NOVO PERFAZ 50 ANOS




Exactamente há 50 anos era inaugurado o edifício do Palácio da Justiça de Fafe. O Tribunal saía assim do edifício dos Paços do Concelho, onde esteve desde 1913, meio século.
O Palácio da Justiça, localizado na Praça José Florêncio Soares, foi inaugurado solenemente na manhã do dia 13 de Outubro de 1963 e é claramente uma obra típica do Estado Novo, talvez a mais paradigmática da cidade.
O arquitecto do Palácio da Justiça foi o bracarense Francisco Augusto Baptista e na imponência e, paradoxalmente, do edifício pode vislumbrar-se o discurso estético-ideológico do salazarismo. A década de 1960, foi a “década dos palácios da Justiça”, edifícios que, na época, inscreviam “na pedra, nos estuques, nos bronzes, nos vitrais, na estatuária, nos baixos relevos, um discurso de reciclagem da história nacional”. Em traços gerais, dir-se-á que se trata de uma arquitectura convencional, estandardizada, embora inserida no meio, a nível de utilização de materiais. Em nome da politica de “dignificação da Justiça”, são construídos edifícios autónomos, de sugerência apalaçada, “ostensivamente majestáticos”, na sua frontaria e com uma notável preocupação de enobrecimento das salas de audiência. No fundo, o programa em que se insere a construção do Palácio da Justiça (e a beneficiação dos Paços do Concelho, poucos anos depois), visa “reafirmar a unidade da Nação e a firmeza dos valores morais e ideológicos em que o Regime se inspira e revê”.
 
A iniciativa do Palácio da Justiça remonta a 1952, altura em que se iniciam com o Governo os contactos com vista à sua construção. Retomam-se em 1965 e no ano seguinte. O anteprojecto para a construção do edifício que, além do Tribunal Judicial, no primeiro andar, inclui as Conservatórias dos Registos Civil e Predial e o Cartório Notarial de Fafe, foi aprovado em 1958 e o projecto mereceu a aprovação do Ministro das Obras Públicas (que financiou a obra em 60% do seu custo) em 18 de Fevereiro do ano seguinte.
Para a sua execução, foi necessário demolir a antiga cadeia, que existia no local desde o final do século XIX, bem como o reservatório das águas e uma série de casas que existiam na parte posterior.
A empreitada de construção do edifício foi adjudicada à firma Ramos & Estebainha, de Felgueiras, pela importância de 3 457 855$20, tendo os trabalhos começado em Fevereiro de 1960.
Depois de alguns atrasos, motivados por problemas relacionados com as expropriações, os trabalhos foram dados por concluídos em 26 de Janeiro de 1963.  
Os motivos decorativos existentes no Palácio da Justiça são da autoria do escultor António Coelho de Figueiredo. Na fachada principal, sobre as janelas do primeiro andar, destacam-se três baixos-relevos em bronze, representando a força, as Tábuas da lei e a Razão. Nas fachadas laterais, dois baixos-relevos em pedra ançã representam o “Amor” e o “Ódio”. Na escada nobre de acesso ao primeiro andar, impõem-se vistosos vitrais, representando figuras sobraçando as Tábuas da Lei, com complementos ornamentais e legendas. Na sala de audiências, um magnífico fresco em torno do tema “Dai a Deus o que é de Deus e a César o que é de César”. O custo destes trabalhos foi de 270 contos.
De referir, como curiosidade, que o mobiliário que apetrechou o edifício foi fornecido pela Colónia penal Agrícola de Sintra.
O custo total do empreendimento acabou por orçar os 4 mil contos (20 000 euros) e o palácio foi inaugurado, com toda a pompa e circunstância, a que não faltou a guarda de honra dos Bombeiros, da Mocidade Portuguesa, dos escuteiros e das duas bandas de música locais, pelos Ministros da Justiça, Antunes Varela e das Obras Públicas, Arantes e Oliveira.
Era então presidente da Câmara o Professor Manuel Cardoso, que pronunciou um discurso adaptado às circunstâncias. Também o Ministro Antunes Varela pronunciou um discurso em que historiou o surgimento e o atraso na concretização da obra, abordou o “novo espírito” das obras públicas em Portugal e se deteve sobre o “sentido e alcance social” dessas mesmas obras, enquadradas naturalmente no paradigma ideológico estadonovista.
Como curiosidade, saliente-se que a comitiva ministerial inaugurou de seguida a Cadeia Comarcã, onde hoje está instalada a Guarda Nacional Republicana. O edifício custou 900 contos e estava apto a recolher 20 homens e 6 mulheres, em serviços separados.
A comitiva inaugurou depois a obra de pavimentação da Rua José Ribeiro Vieira de Castro e, de tarde, as obras de electrificação de Freitas e Vila Cova, da estrada e ponte de Queimadela, caminho municipal de Medelo e sistema de abastecimento de água a Teibães e Cruz (Antime), a Moreira de Rei e a Silvares S. Martinho.

Regista a imprensa da época que o cômputo das obras inauguradas totalizou uma verba “superior a 10 000 contos”.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Curso Livre sobre a Guerra Colonial entre Outubro e Novembro em Fafe


 
O Núcleo de Artes e Letras de Fafe vai levar a efeito o II Curso Livre de História Local, sobre a temática do impacto da Guerra Colonial (1961-1974) no concelho de Fafe.

O curso terá início em 24 de Outubro e decorrerá semanalmente às quintas-feiras, até 21 de Novembro, das 18h30 às 20h00, no auditório da Biblioteca Municipal de Fafe, sendo aberto a toda a comunidade, desde os ex-combatentes da guerra colonial ao pessoal docente das escolas do concelho e aos interessados, em geral.

O prazo de inscrição decorre até 21 de Outubro.

O curso inclui cinco módulos, em que se fará a abordagem da Guerra Colonial, a nível nacional e depois se descerá à realidade e à memória do concelho para abordar diferentes aspectos do impacto desse conflito que marcou e continua a marcar gerações de fafenses e de portugueses em geral.

O primeiro módulo (24 de Outubro) tem por tema “O itinerário do combatente português na guerra colonial: método de pesquisa e áreas de estudo, vivências da guerra, consequências e aspectos ocultos desta guerra" e será ministrado pelo docente José Manuel Lages, director do Museu da Guerra Colonial.

Em 31 do corrente, é a vez de Jaime Silva, ex-combatente na guerra colonial, abordar o tema “A participação de militares do concelho de Fafe no Ultramar”.

Em 7 de Novembro, a temática “A Guerra Colonial nas páginas da imprensa local” será tratada pelo historiador Daniel Bastos e em 14 de Novembro o também historiador e ex-combatente Artur Magalhães Leite modera o quarto módulo sobre “O conflito contado por aqueles que o viveram: imagens e testemunhos da Guerra Colonial”.

Finalmente, em 21 de Novembro, culmina o curso com o tema “Memórias literárias da Guerra Colonial”, pelo historiador Artur Coimbra, seguindo-se a entrega dos diplomas de participação.

A ficha de inscrição, emitida pelo Núcleo de Artes e Letras, pode ser remetida pelo correio para a Casa Municipal de Cultura de Fafe - A/C Núcleo de Artes e Letras de Fafe - Rua Major Miguel Ferreira - 4820-276 FAFE, podendo ser entregue pessoalmente no mesmo local ou enviada para o endereço electrónico: nalf@sapo.pt.

A participação no curso terá um custo simbólico de 5€ para associados do NALF e ex-combatentes e 10€ para os restantes inscritos.

O evento tem a colaboração de entidades como Câmara Municipal de Fafe, Associação Portuguesa de Veteranos de Guerra, Rangers – Comissão de Trabalho de Fafe, Museu da Guerra Colonial e editora Labirinto.

De recordar que o Núcleo de Artes e Letras de Fafe levou a efeito em 2010 um curso livre de história local sobre a história de Fafe na I República, do qual resultou na publicação de uma obra lançada há cerca de um ano.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Um livro de vez em quando: "Madrugada Suja", de Miguel Sousa Tavares

 
Miguel Sousa Tavares, depois de grandes êxitos como "Equador" e "Rio das Flores", volta a agitar a literatura portuguesa e sobretudo os seus seguidores, com o seu novo romance, "Madrugada Suja", que tive o prazer de ler em Agosto.
No princípio, há uma madrugada suja: uma noite de álcool de estudantes que acaba num pesadelo que vai perseguir os seus protagonistas durante anos. Depois, há uma aldeia do interior alentejano que se vai despovoando aos poucos, até restar apenas um avô (Tomás da Burra) e um neto. Filipe, o neto, parte para o mundo sem esquecer a sua aldeia e tudo o que lá aprendeu. As circunstâncias do seu trabalho levam-no a tropeçar num caso de corrupção política. Ele enreda-se na trama, ao mesmo tempo que esta se confunde com o seu passado esquecido. Intercaladamente, e através de várias vozes narrativas, seguimos o destino dessa aldeia e em simultâneo o dos protagonistas daquela madrugada suja e daquela intriga política. Até que, no final, dois dos protagonistas da madrugada suja, Filipe e Eva, acabam por se reencontrar, numa paixão, anos depois.
No fundo, a obra acaba por ser uma história romanceada dos últimos 40 anos da vida pública portuguesa. Fala sobre os acasos da vida e a corrupção política, do Alentejo da Reforma Agrária até hoje.
Miguel Sousa Tavares decanta no romance alguns dos seus ódios de estimação ou dos seus cavalos de batalha: o pato-bravismo, os especuladores imobiliários, a corrupção em algum poder autárquico.
Uma visão desencantada dos efeitos do Portugal pós-Europa:
“Um Portugal de aldeias mortas, de comerciantes falidos, de agricultores sentados à berma das estradas construídas com os dinheiros da Europa, vendo passar os grandes camiões TIR que traziam de Espanha e dessa Europa as frutas e os legumes criados em estufas maiores do que quaisquer hortas deles, em direcção aos centros comerciais onde, em breve, eles próprios aprenderiam o novo e insípido sabor dos melões e das cebolas, dos reinventados “frangos do campo”, ou dos porcos sem gordura nem pecado, embalados em vácuo. E onde se resignavam a passear aos domingos, com filhos e noras e netos, tentando não se perder no meio dessa turba deslizante, entre montras e restaurantes e néons, num dédalo baptizado com nomes de avenidas e ruas, nomes de países ou heróis da Pátria”.
"Madrugada Suja" é um livro envolvente. Tem romance, tem história, tem crítica social e política:
"Todos estavam endividados, mas felizes: o Estado, as autarquias, os cidadãos. Todos viviam em casa própria, mas que, de facto pertencia ao banco que lhes emprestara dinheiro a 30 anos e também emprestara para as férias no Brasil, Cuba, República Dominicana, mais o carro e os brinquedos electrónicos dos filhos".
Uma obra sobre o Portugal dos nossos dias, com as suas virtudes e os seus defeitos, as utopias e as desilusões, que importa ler e reflectir.
Excelente!
350 páginas bem escritas, de leitura acessível e estimulante.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

UM PAÍS A ARDER, UM ESTADO QUE SE DEMITE!


 
1. Ano após ano, inexoravelmente, como o relógio marca as horas, o Verão deflagra em chamas colossais que consomem florestas sem fim, sementeiras, gados, casas, carros, vidas inteiras de trabalho e de canseiras, esperanças num futuro mais luminoso. Um inferno. Um autêntico cenário de guerra. Quando menos se espera, as nuvens de fumo elevam-se, desesperadas, e rapidamente explodem em ígneos clarões, incontroláveis, roncantes, perante os gritos dos populares, a angústia, a revolta, o pânico, a impotência.
As sirenes irrompem dos quartéis no silêncio das vilas e cidades, de dia ou de noite. Quando o flagelo rebenta.
Após dias e dias de combates, de notícias bombásticas, de destruição, as amplas manchas florestais anteriormente verdes aparecem vestidas de negro, para enterrar ainda mais a auto-estima e a economia de um país em vertiginosa crise. Económica e de valores.
Todos os anos o cenário se repete, ou agrava, restando a mesma miséria, a mesma indignação, o mesmo pavor. Que mais parecem inelutáveis, uma fatalidade, mas que não o são. Não podem ser.
Agosto foi explosivo. Setembro, pelo menos para já, acalmou, também fruto das condições climatéricas.
Portugal, um país pequeno, transformado num enorme braseiro que vai consumindo, chocantemente, vidas humanas e bens materiais.
Na segunda quinzena de Agosto, as ignições cifraram-se entre 200 e 300 por dia. Houve mesmo um dia (20) em que chegaram às 350.
Perante esse panorama, não há meios adequados para o combate aos incêndios. Em média, foram mobilizados 5500 operacionais por dia, que não chegam para as encomendas e andam dias seguidos a combater os fogos, exaustos, esfomeados, sedentos.
O saldo até agora registado é catastrófico: a área ardida, em números provisórios, ultrapassava em 30 de Agosto os 94 mil hectares.
As perdas humanas são trágicas: oito bombeiros mortos (António Ferreira, 45 anos; Pedro Rodrigues, 41 anos; Ana Rita Pereira, 24 anos; Bernardo Figueiredo, 23 anos; Cátia Pereira Das, 21 anos, Bernardo Cardoso, 19 anos; Fernando Manuel Reis, 51 anos e Daniel Falcão, 25 anos) e ferimentos em algumas dezenas. Imensas perdas humanas e materiais, com veículos ardidos totalmente e outros danificados.
Uma desmedida aflição colectiva.
Um incomensurável prejuízo económico. O ministro do Ambiente, Moreira da Silva, falava por estes dias que “nos últimos dez anos, destruímos três mil milhões de euros de valor económico da floresta”. Quase 300 milhões de prejuízos/ano. Um absurdo! Uma enormidade!
Um desastre ecológico de dimensões inimagináveis. Levaremos décadas a reproduzir as espécies arbóreas que em horas ou dias são consumidas pelas chamas.
 
2. Aqui chegados, falta apontar as causas, para tão devastadores e fatídicos efeitos.
Sabe-se de uma chamada “indústria dos incêndios”, das motivações económicas dos que fretam avisões a milhares de euros à hora, dos que negoceiam materiais destinados ao combate aos incêndios, das celuloses que aproveitam a situação, das urbanizações que podem nascer nos terrenos ardidos, dos que não querem pagar para utilizar as reservas de caça turística e associativa.
Haverá também comportamentos negligentes, vinganças entre vizinhos e outros factores menores.
Mas há sobretudo um plano conspirativo claro para destruir a floresta, essa imensa riqueza e beleza nacional, com intuitos de benefício com o crime. Ou por mera insanidade.
Há claramente o crime à solta, patente na realidade de que 40% dos incêndios começam ou acontecem durante a noite. Não consta que o sol nocturno tenha força para provocar fogos.
E há, fundamentalmente, a trágica e inqualificável demissão do Estado.
Um Estado que se demite de assumir directamente o combate aos incêndios, deixando a fatia de leão para os interesses privados dos alugadores de aviões e dos vendedores dos materiais de combate, entre outros.
Um Estado que se demite de obrigar os proprietários a limpar as matas e a cumprir a lei, em tempo oportuno, fiscalizando e aplicando sanções para os incumpridores. Mais prevenção é fundamental.
Nessa tarefa deveriam colaborar os subsidiados pelos nossos impostos e na vigilância de verão um lugar especial deveria haver para as forças militares que o país financia e que deveriam patrulhar os territórios florestais.
Um Estado que se demite de dar o exemplo, limpando as matas e florestas de que é proprietário.
Porque todos sabemos que um dos cancros maiores desta calamidade é a ausência de uma política florestal e o abandono da floresta portuguesa, como têm sublinhado as entidades do sector.
E o Estado é proprietário da «floresta mais maltratada do país», como bem refere Jaime Soares, presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses: «Com este exemplo, não se pode exigir aos outros que façam diferente». Sem dúvida!
Um Estado que se demite de alterar a moldura penal para os incendiários que atentam contra os bens, o património e os cidadãos deste país. Há que endurecer as penas contra os criminosos, doa a quem doer, e apesar das considerações algo infelizes da Ministra da Justiça. Diz a senhora que “pena mais pesada não resolve o problema dos incendiários”. Mas seguramente resolveria o problema dos portugueses!...
Há que criminalizar mais duramente os crimes de fogo posto, para que sirvam de exemplo e dissuasão aos incendiários a soldo dos mais obscuros interesses e insanidades.
Voltando ao presidente da Liga, partilhamos a sua opinião de que «o Código Penal tem de ser analisado de forma que não permita que um incendiário seja levado a juízo e depois vá para casa com apresentações periódicas. Estas coisas não podem continuar assim».
Um incendiário, provado o dolo, deveria ser condenado à pena máxima. Sem dó nem remissão, porque está a destruir e empobrecer o país.
Os fogos florestais não podem ser vistos como uma fatalidade inelutável. Como alguém refere, os fogos evitam-se, não se combatem!
O Estado não pode demitir-se das suas responsabilidades, como tem feito ao longo de décadas, com pesados custos para o país, em mortes, em prejuízos económicos, sociais, ecológicos.

3. No fim da linha, quando tudo falha, sobra para os bombeiros. Que, nos momentos críticos, não chegam para tudo, como é natural e compreensível.
Não me canso de exaltar os bombeiros, o seu heroísmo, o seu voluntarismo, a sua dedicação, a sua disponibilidade permanente, seja a que hora for, do dia ou da noite. Ser bombeiro é quase uma doença. Uma boa doença, que promove missões no sentido cristão do bem-fazer sem olhar a quem, do exercício da solidariedade, da generosidade, da entrega total à defesa da vida e dos bens alheios, sem olhar a credos, a condições sociais e económicas, a opções políticas ou ideológicas. O seu paradigma é um evangelho de pensamento e acção: “Vida por Vida”, até ao sofrimento e à morte, como se tem visto este Verão.
Bem formados, excelentemente preparados, heróis e mártires, os bombeiros são os melhores do mundo e os melhores de todos nós.