sexta-feira, 1 de novembro de 2013

O “GUIÃO” DE PAULO PORTAS NÃO PASSA DE MANOBRA DE DIVERSÃO



O chamado “guião para a reforma do Estado”, apresentado há dois dias e que Paulo Portas levou 333 dias a parir, não passa de um nado-morto. RIP!
Porque os partidos responsáveis (o PS e o próprio PSD), mais o bom senso político de quem tem alguma réstia de lucidez, vão mandar o inútil desperdício de tempo e de paciência para onde merece: o caixote do lixo!
À média de 1/3 de página por dia, para as 110 “páginas úteis”, dir-se-ia que o “guião” é de uma pobreza franciscana e que não passa de uma colecção de lugares comuns, um chorrilho de banalidades.
Um documento que apenas é feito para justificar os cortes brutais que já foram feitos nos Orçamentos de Estado de 2012, 2013 e no de 2014. Curiosamente, pelo “mero acaso” das legislativas, promete-se aliviar o calvário do sofrimento em 2015… O ano do adeus!...
Um documento perfeitamente inútil e que não passa de uma manobra de diversão para distrair os incautos do bárbaro Orçamento de Estado que foi hoje aprovado no Parlamento apenas pelos seus autores: não vai conseguir sai do papel.
Um documento que não tem em conta o artigo 9º da Constituição, em diversos aspectos, e por isso é inconstitucional, como tem sido timbre de tantas medidas deste governo em permanente situação de fora de lei.
Por isso é extemporâneo. Já deveria ter sido apresentado há pelo menos dois anos, de é que pretendia algum pingo de oportunidade.
Pelas ideias que banaliza, mais parece o programa do CDS para as legislativas de 2015. Não colhe.
Portas diz querer mudar o Estado em seis anos: mas se está a um ano das eleições e se a discussão vai ainda começar com os partidos e os parceiros sociais (os cidadãos que se lixem, eles que depois mandam lixar quem os manda…), Portas quer o quê? Mandar quando já não estiver no governo?
Porque, curiosamente, nem o PSD legitima as ditas “reformas”, que mais não são do que cortes (não “melhorias”) ferozes em tudo o que é Estado Social e sector público da actividade.
Pretende Portas “modernizar” o Estado: mas há alguém que defenda um Estado antigo?
Pretende Portas “renovar” o Estado: mas há alguém que queira um Estado parado no tempo?
Tenha dó da inteligência alheia…
Proclama bagatelas e trivialidades, como grandes reformas. É só cortes, restruturações, fusões, centralizações.
Uma das primeiras “sugestões” é “diminuir o recurso a serviços externos ao Estado, começando pelas funções jurídica e contenciosa”, o chamado recurso sistemático ao “outsourcing”. Mas isso não é reforma nenhuma, é acabar com um escândalo que custa milhões aos contribuintes e que este governo nestes dois anos e meio não se tem cansado de aplicar. Onde está a coragem de acabar com os pareceres pagos principescamente aos escritórios de advogados dos amigos?
O documento não passa de um chorrilho de intenções, que não são para concretizar, de manobras de diversão, de condenação ao cesto dos papéis da história.
No ensino e na saúde, a agenda é a mera e estimulada privatização dos serviços, para engordar os privados. Mas onde se esperava outra coisa, vinda de quem vem?
Na cultura, por exemplo, mais vulgaridades: “melhor acesso à cultura, com o Estado a responder à procura com mais informação, mais parcerias e mais descentralização”. Ou seja, o Estado marimba-se para a cultura. Demite-se da sua missão central e constitucional. Passa a bola para os parceiros e informa os cidadãos. Mas para que raio serve um Estado assim?
Mais um exemplo: a colocação de desempregados. O documento prevê “desafiar a iniciativa privada a ajudar a melhor a colocação de desempregados” Importa-se de repetir? Mas os privados precisam do Estado para lhes ensinar quem devem meter nas suas empresas?
Finalmente, para não ir mais longe: a desburocratização. Sonha o Portas na “massificação do uso dos serviços públicos electrónicos, através da aposta permanente em interfaces simples, intuitivos e seguros”. Mas não saberá sua excelência que tanto aprecia as feiras que, numa população envelhecida, há milhões de portugueses info-excluídos? Até onde vai a fantasia de Paulo Portas?
No DN desta quinta-feira, 31 de Outubro, há um texto imperdível sobre este assunto de André Macedo, director do Dinheiro Vivo.
Chama os bois pelos nomes. Fala de um texto que é “uma loja dos 300”!, de uma “pobreza inacreditável”, uma “salgalhada ignorante, colecção de chavões e banalidades”, feito por “este grupo de estagiários que o país tragicamente elegeu”…
E tantos outros. Vão à net e leiam!
 

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Ilse Losa (1913-2006): um mundo vivido sob céus estranhos





Ilse Losa é nome de uma enorme e inolvidável escritora nascida na Alemanha em Março de 1913, fez agora 100 anos e que, por ser judia, se refugiou em Portugal, com apenas 21 anos, nos anos de brasa do nazismo.
Nos anos 80 e 90 tive a honra de por várias vezes privar com ela e de ter diversas obras suas autografadas.
Cheguei a publicar uma entrevista exclusiva com Ilse Losa no diário Correio do Minho de 26 de Junho de 1988, há 25 anos, que é um enorme testemunho humano.
Marcou uma geração de jovens, nas últimas décadas do século XX, sobretudo, pelas suas sugestivas obras para o público infanto-juvenil, mas está hoje muito esquecida. Apesar de ser autora também de obras fantásticas de ficção (para o público em geral) como “O Mundo em que Vivi”, “Rio sem Ponte” ou “Sob Céus Estranhos”.
A Biblioteca Nacional tem presentemente patente (e até 16 de Novembro) uma mostra sobre a vida e obra da conhecida escritora.

Durante o ano de 1930, em Inglaterra, teve os primeiros contactos com escolas infantis e com os problemas das crianças. Sendo judia, foi forçada a sair definitivamente da Alemanha em 1934, refugiando-se em Portugal, onde casou com o arquitecto Arménio Losa, adquirindo a nacionalidade portuguesa.
 
A sua vastíssima obra inclui romances, contos, crónicas, trabalhos pedagógicos e literatura para crianças. Colaborou em diversos jornais e revistas, alemães e portugueses. Está representada em várias antologias de autores portugueses e colaborou na organização de selectas e na tradução de obras portuguesas publicadas na Alemanha. Verteu do alemão algumas obras dos mais consagrados autores, nomeadamente o conhecido Diário de Anne Frank.

Em 1984 recebeu o Grande Prémio Gulbenkian, premiando o conjunto da sua obra para crianças. Em 1990 foi editado na Alemanha o seu romance O mundo em que vivi, o mesmo acontecendo em 1992 com o livro de contos Caminhos sem destino.

Para além das obras já citadas, publicou, entre outras: À flor do tempo; Encontro no Outono; Grades brancas e Retta. Na literatura para crianças destacamos: Miguel, o expositor; A Visita ao padrinho e outras histórias; Silka; O Senhor Pechincha seguido de O Bonifácio; A adivinha: peça em quatro quadros; O Príncipe Nabo; O quadro roubado; Na quinta das cerejeiras; O fidalgo das pernas curtas; Beatriz e o plátano e Faísca conta a sua história.

Morreria no Porto em 6 de Janeiro de 2006, com a vetusta idade de 93 anos.
É uma autora mais portuguesa que alemã (viveu no Porto 72 dos seus 93 anos…) que não deve ser esquecida.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

JOÃO GONÇALVES APRESENTOU O SEU LIVRO DE ESTREIA POÉTICA “MOMENTOS DO OLHAR”







 
 
Na noite de sexta-feira, 18 de Outubro, teve lugar na Sala Manoel de Oliveira, em Fafe, a apresentação da obra “Momentos do Olhar”, estreia poética de João Gonçalves.
Estiveram presentes dezenas de amigos e familiares do poeta, funcionário municipal e dirigente do Desportivo Ases de S. Jorge.
A sessão contou com a participação musical dos jovens Diana e Duarte Baptista e a leitura de poemas por Acácio Almeida.
Na mesa, além do autor, que fez os habituais agradecimentos e enquadrou o historial da obra, usaram da palavra o editor João Artur Pinto e o vereador da Cultura, Pompeu Martins.
O responsável da Labirinto realçou o facto de “Momentos do Olhar” ter a intervenção de quatro funcionários públicos (o poeta, o autor da capa, Manuel Meira, a autora do desenho da capa, Sandra Novais, e o prefaciador da obra, Artur Coimbra), o que não deixa de ser significativo, numa altura em que tanto se desvaloriza o seu trabalho, destacando ainda o facto de a obra ser apoiada pelo Centro de Cultura e Desporto dos Trabalhadores do Município, como exemplo de boas práticas de funcionários na área da criação cultural.
Já Pompeu Martins começou por ler uma mensagem do presidente da Câmara, José Ribeiro, ausente do concelho, que louvou a coragem de João Gonçalves em mostrar o seu trabalho literário e aproveitou para dar os parabéns ao autor, como “colega” das letras e como vereador do município. Recordou diversos episódios do percurso comum, em especial uma iniciativa em finais dos anos 90 que trouxe a Fafe o Prémio Nobel da Paz Ramos Horta.
A obra “Momentos do Olhar” foi apresentada e analisada circunstanciadamente pelo escritor e historiador Artur Coimbra que considerou uma “agradável surpresa estes Momentos do Olhar, um título sugestivo que remete desde logo para a pluralidade dos modos de recolher e investir em cada instante de que se cria o poema. Cada poema nasce do seu momento, reflecte inevitavelmente o olhar interior ou exterior do poeta, as suas emoções, os seus registos oníricos, as suas vivências”.
Artur Coimbra considerou que uma primeira obra, naturalmente, tem os seus pontos mais fortes e as suas fragilidades mas que, neste caso, os primeiros superam as segundas, e, quando assim é, “vale a pena seguir em frente e desfrutar de quanto de luminoso e inesperado se colhe nas páginas do livro”.
O autor do prefácio considera que a maior parte da obra é “um longo poema de amor, em diferentes momentos”, de que deu alguns exemplos. 
Uma obra onde o sonho também é político: de Timor “esquecido”, em determinada altura, à aspiração dos que lutaram pela liberdade, contra a ditadura.
 Uma obra onde o poeta escolhe o lado dos mais fracos, dos desfavorecidos, dos deserdados da vida, dos velhinhos, dos sem-abrigo.
Os poemas da obra são, em geral, sintéticos, enxutos, de uma linguagem que investe num arrojo literário já assinalável para quem começa. Em imagens e figuras de estilo de que deixou alguns exemplos,
Recomendando a leitura da obra, pela “sua inegável qualidade literária”, deixou  felicitações muito amigas ao João Gonçalves, desejando que “esta seja a primeira de outras obras, porque seguramente tem potencial para novas incursões na área da poesia, valorizando a cultura e os valores do nosso município!”.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Apresentação de "Momentos do Olhar", de João Gonçalves








 
Na noite de sexta-feira, 18 de Outubro, teve lugar na Sala Manoel de Oliveira, em Fafe, a apresentação da obra “Momentos do Olhar”, estreia poética de João Gonçalves.
Tive o privilégio de redigir o prefácio e apresentar a obra, perante dezenas de amigos e familiares do poeta.
Deixo de seguida, o essencial das palavras que proferi na sessão, que contou com a presença do vereador da cultura e poeta, Pompeu Martins e do responsável maior da editora Labirinto, João Artur Pinto, que também felicitaram o autor.
A sessão contou com a participação musical de Diana a Duarte Baptista e leitura de poemas por Acácio Almeida.
“É-me especialmente grato deixar aqui algumas palavras em torno deste livro.
Por ser seu amigo e colega de trabalho há longos anos, mas sobretudo pela agradável surpresa que resulta destes Momentos do Olhar, um título sugestivo que remete desde logo para a pluralidade dos modos de recolher e investir em cada instante de que se cria o poema.
Cada poema nasce do seu momento, reflecte inevitavelmente o olhar interior ou exterior do poeta, as suas emoções, os seus registos oníricos, as suas vivências.
Uma primeira obra, naturalmente, tem os seus pontos mais fortes e as suas fragilidades. Felizmente, os primeiros superam as segundas, e, quando assim é, vale a pena seguir em frente e desfrutar de quanto de luminoso e inesperado se colhe nas páginas do livro.
O poeta é um ser sensível que experimenta a radicalidade das emoções, o esplendor dos sonhos, a aventura do amor. Os corpos quentes da noite, o encontro dos sentidos, a fúria dos instintos. A mistura poética e escultural, de um corpo que é vida e que é arte. A deusa que o poeta ardentemente aspira, para adoração, como fonte de água cristalina e fogo que acendeu o rastilho do desejo. Mas também a sua ausência, a precariedade e a carência do ser amado.
 
Porque amar-te não é pecado
E o amor não tem dono (Ausências, p. 25)
 
Poemas de amor há inúmeros, talvez a maior parte do livro seja um longo poema de amor, em diferentes momentos. Mais ou menos sensuais e até atrevidos.
Como este pequeno texto (p. 14):
 
A fera, ferida,
Felina, de garras afiadas
Olhos, penetrantes
Boca húmida,
Corpo Sinuoso
Curvas traiçoeiras
Lâmina brilhante
De quadril cativante.
 
Ou no poema Memórias (p.26), de que leio um excerto:
 
E nas minhas memórias
Recruto a imagem do teu corpo
Filho de um amor que não é o meu
Maior dos meus encantos
 
E em cada curva do teu corpo
Eu quero estar presente
Quero abraçar-te e sentir
O teu calor ardente
 
Os teus lábios tocando nos meus
Os teus olhos a reluzirem
Meu amor é só teu
Não o deixes partir.
 
Há diversos outros exemplos, mas terão de ser os leitores a enumerá-los.
Uma obra onde o sonho também é político: de Timor “esquecido” (p. 18), em determinada altura, à aspiração dos que lutaram pela liberdade, contra a ditadura, por um país azul! (p. 19):
 
Azul, o sonho
 
Tinham o sonho
O sonho que um dia seria possível viver em liberdade
E foram acreditando
 
Tinham um sonho
O sonho que era possível viver em democracia
Era a esperança
 
Tinham o sonho
O sonho que um dia poderiam regressar do exílio
A Saudade
 
Tinham o sonho
O sonho que um dia cairia a ditadura
Era a vontade
 
Tinham o sonho
O sonho que Portugal seria um país azul
Sim azul!... Como o céu!
 
Uma obra onde o poeta escolhe o lado dos mais fracos, dos desfavorecidos, dos deserdados da vida, dos velhinhos, dos sem-abrigo (p.22):
 
Vítima
 
És vítima do sistema
Que não quer sequer sentir
Que ainda procuras esquina
Para poderes dormir
 
Estendes na pedra fria
Um simples cartão
Que usas todos os dias
Como fosse o teu colchão
 
Serves-te do manto achado
Para poderes pernoitar
E diminuíres o frio
De um sono ao luar
 
Mas também ao menino órfão, que abre sorrisos e arranca lágrimas, ou à “criança sem ninguém e abandonada” (p. 50).
Igualmente há lugar para belas homenagens poéticas ao pai e à mãe, como pilares fundacionais da sua existência.
 
Os poemas são, em geral, sintéticos, enxutos, de uma linguagem tecida no bragal do quotidiano, mas investindo num arrojo literário já assinalável para quem começa. Em imagens e figuras de estilo de que se podem deixar aqui alguns exemplos, extraídos de poemas diferentes:
 
O calor da beleza
Pulsa em minhas mãos…
(…)
sedento, mas forte
Embriago-me nos beijos… (p. 13)
 
Tocar os lábios de mel… (poema Desejos, p. 31)
 
No poema Na madrugada:
 
Apaga-se a lua
Acende-se o fogo do meu coração
 
(…)
Invento caminhos para te ver passar
Talvez um vício, um pecado
Que teme a estrada da madrugada
Onde passo nos mais tímidos dos silêncios.
 
Ou no poema Comparando (p. 51):
 
O cabelo como uma floresta
Os olhos como o Sol ou a Lua
Nas veias oceanos e rios…
A poesia é exactanente tudo aquilo que, pela palavra e pela emoção, comove,sensibiliza e desperta sentimentos.Estas características estão, inteiras, nas páginas desta obra, cuja leitura não posso deixar de recomendar.
Deixo aqui dois poemas breves que marcaram a minha leitura e gostaria de partilhar convosco:
 
Noite (p. 17)
 
Pelas ruas
No frio e no silêncio
De mãos gélidas
Nada encontro
Simplesmente a noite
Mergulhada nos seus silêncios
Murmurando o eco de um nome
Escondido nos seus segredos.
 
Espírito de alma (p. 57)
 
A alma flui…
No horizonte o sol
A onda do mar
Um olhar um adeus
Lágrima que teima
Aconchego ternura
Suspirando, bebendo
Minha pele na tua,
Teus olhos nas estrelas…
Teu toque nas pétalas
No murmúrio das ondas
O sopro da brisa
Teus lábios nos meus
 
Poemas de inegável qualidade literária, tal como a generalidade dos que integram esta obra.
Resta-me deixar felicitações muito amigas ao João Gonçalves, que seguramente tem potencial para novas incursões na área da poesia, valorizando a cultura e os valores do nosso município!”.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

“MOMENTOS DO OLHAR” – ESTREIA POÉTICA DE JOÃO GONÇALVES APRESENTADA ESTA SEXTA-FEIRA EM FAFE


Chama-se Momentos do Olhar o livro de estreia poética de João Gonçalves, que é apresentado publicamente esta sexta-feira, 18 de Outubro, pelas 21h30, na Sala Manoel de Oliveira, em Fafe.
Editada pela Labirinto, a obra é apresentada pelo poeta e escritor Artur Ferreira Coimbra, autor do prefácio.
A anteceder, actuam os jovens músicos Diana e Duarte Baptista.
João Gonçalves é funcionário do Município e presidente do Desportivo Ases de S. Jorge, um clube da cidade dedicado à formação na área do futebol.
No prefácio, Artur Coimbra sublinha a “agradável surpresa que resulta destes Momentos do Olhar, um título sugestivo que remete para a pluralidade dos modos de recolher e investir em cada instante de que se cria o poema”. E os poemas deste livro foram sendo elaborados e trabalhados ao longo de vários anos.
Momentos do Olhar é uma obra que fala de amor nas suas diversificadas expressões (à mulher, aos pais, aos familiares), mas também onde o sonho é político: de Timor “esquecido”, em determinada altura, à aspiração dos que lutaram pela liberdade, contra a ditadura, por um país azul!
Uma obra onde o poeta escolhe o lado dos mais fracos, dos desfavorecidos, dos deserdados da vida, dos sem-abrigo, das crianças órfãs e abandonadas.
“Os poemas são, em geral, sintéticos, enxutos, de uma linguagem tecida no bragal do quotidiano, mas investindo num arrojo literário já assinalável para quem começa”- sublinha ainda o autor do prefácio.

domingo, 13 de outubro de 2013

PALÁCIO DA JUSTIÇA: OBRA TÍPICA DO ESTADO NOVO PERFAZ 50 ANOS




Exactamente há 50 anos era inaugurado o edifício do Palácio da Justiça de Fafe. O Tribunal saía assim do edifício dos Paços do Concelho, onde esteve desde 1913, meio século.
O Palácio da Justiça, localizado na Praça José Florêncio Soares, foi inaugurado solenemente na manhã do dia 13 de Outubro de 1963 e é claramente uma obra típica do Estado Novo, talvez a mais paradigmática da cidade.
O arquitecto do Palácio da Justiça foi o bracarense Francisco Augusto Baptista e na imponência e, paradoxalmente, do edifício pode vislumbrar-se o discurso estético-ideológico do salazarismo. A década de 1960, foi a “década dos palácios da Justiça”, edifícios que, na época, inscreviam “na pedra, nos estuques, nos bronzes, nos vitrais, na estatuária, nos baixos relevos, um discurso de reciclagem da história nacional”. Em traços gerais, dir-se-á que se trata de uma arquitectura convencional, estandardizada, embora inserida no meio, a nível de utilização de materiais. Em nome da politica de “dignificação da Justiça”, são construídos edifícios autónomos, de sugerência apalaçada, “ostensivamente majestáticos”, na sua frontaria e com uma notável preocupação de enobrecimento das salas de audiência. No fundo, o programa em que se insere a construção do Palácio da Justiça (e a beneficiação dos Paços do Concelho, poucos anos depois), visa “reafirmar a unidade da Nação e a firmeza dos valores morais e ideológicos em que o Regime se inspira e revê”.
 
A iniciativa do Palácio da Justiça remonta a 1952, altura em que se iniciam com o Governo os contactos com vista à sua construção. Retomam-se em 1965 e no ano seguinte. O anteprojecto para a construção do edifício que, além do Tribunal Judicial, no primeiro andar, inclui as Conservatórias dos Registos Civil e Predial e o Cartório Notarial de Fafe, foi aprovado em 1958 e o projecto mereceu a aprovação do Ministro das Obras Públicas (que financiou a obra em 60% do seu custo) em 18 de Fevereiro do ano seguinte.
Para a sua execução, foi necessário demolir a antiga cadeia, que existia no local desde o final do século XIX, bem como o reservatório das águas e uma série de casas que existiam na parte posterior.
A empreitada de construção do edifício foi adjudicada à firma Ramos & Estebainha, de Felgueiras, pela importância de 3 457 855$20, tendo os trabalhos começado em Fevereiro de 1960.
Depois de alguns atrasos, motivados por problemas relacionados com as expropriações, os trabalhos foram dados por concluídos em 26 de Janeiro de 1963.  
Os motivos decorativos existentes no Palácio da Justiça são da autoria do escultor António Coelho de Figueiredo. Na fachada principal, sobre as janelas do primeiro andar, destacam-se três baixos-relevos em bronze, representando a força, as Tábuas da lei e a Razão. Nas fachadas laterais, dois baixos-relevos em pedra ançã representam o “Amor” e o “Ódio”. Na escada nobre de acesso ao primeiro andar, impõem-se vistosos vitrais, representando figuras sobraçando as Tábuas da Lei, com complementos ornamentais e legendas. Na sala de audiências, um magnífico fresco em torno do tema “Dai a Deus o que é de Deus e a César o que é de César”. O custo destes trabalhos foi de 270 contos.
De referir, como curiosidade, que o mobiliário que apetrechou o edifício foi fornecido pela Colónia penal Agrícola de Sintra.
O custo total do empreendimento acabou por orçar os 4 mil contos (20 000 euros) e o palácio foi inaugurado, com toda a pompa e circunstância, a que não faltou a guarda de honra dos Bombeiros, da Mocidade Portuguesa, dos escuteiros e das duas bandas de música locais, pelos Ministros da Justiça, Antunes Varela e das Obras Públicas, Arantes e Oliveira.
Era então presidente da Câmara o Professor Manuel Cardoso, que pronunciou um discurso adaptado às circunstâncias. Também o Ministro Antunes Varela pronunciou um discurso em que historiou o surgimento e o atraso na concretização da obra, abordou o “novo espírito” das obras públicas em Portugal e se deteve sobre o “sentido e alcance social” dessas mesmas obras, enquadradas naturalmente no paradigma ideológico estadonovista.
Como curiosidade, saliente-se que a comitiva ministerial inaugurou de seguida a Cadeia Comarcã, onde hoje está instalada a Guarda Nacional Republicana. O edifício custou 900 contos e estava apto a recolher 20 homens e 6 mulheres, em serviços separados.
A comitiva inaugurou depois a obra de pavimentação da Rua José Ribeiro Vieira de Castro e, de tarde, as obras de electrificação de Freitas e Vila Cova, da estrada e ponte de Queimadela, caminho municipal de Medelo e sistema de abastecimento de água a Teibães e Cruz (Antime), a Moreira de Rei e a Silvares S. Martinho.

Regista a imprensa da época que o cômputo das obras inauguradas totalizou uma verba “superior a 10 000 contos”.