quinta-feira, 25 de abril de 2013

Uma obra de vez em quando: "Viva o Povo Brasileiro", de João Ubaldo Ribeiro

     



O conhecido escritor brasileiro João Ubaldo Ribeiro foi escolhido como patrono das IV Jornadas Literárias de Fafe.
Além de considerado um dos mais famosos e significativos autores brasileiros da era contemporânea, ombreando com Jorge Amado; além de galardoado com diferentes prémios e sobretudo, em 2008, com o Prémio Camões, o mais significativo no universo da literatura lusófona, João Ubaldo tem a particularidade de ser neto de um emigrante fafense.
O seu avô, João Ribeiro, natural de uma freguesia de Fafe, abalou para a cidade de Penedo, Estado de Alagoas, no Brasil, nos primeiros anos do século XX, meio deportado pela família, porque engravidara uma vizinha solteira numa das aldeias de Fafe e que chegou a gerente de uma fábrica têxtil, pertencente a uns portugueses amigos da família. Por lá ficou. Na sua herança (felizmente) contamos com o nome famoso de João Ubaldo Osório Pimentel Ribeiro, nascido na ilha de Itaparica, na Baía, em 23 de Janeiro de 1941.
Doutor em Direito (que nunca exerceu), professor universitário (Universidade Federal da Baía, durante seis anos) e jornalista, é o mais jovem sócio emérito da Academia Brasileira de Letras e autor de um importante conjunto de obras literárias, que o guindam à condição de um dos maiores vultos das letras brasileiras da actualidade.
João Ubaldo está traduzido em 16 línguas, entre as quais o alemão, dinamarquês, espanhol, francês, hebraico, inglês, italiano, jugoslavo e sueco. Diversas obras suas foram adaptadas para o cinema e para televisão.
O consagrado escritor a cada passo recorda o seu avô fafense, João Ribeiro, “uma pessoa adorável”, que lhe dava dinheiro para livros, revistas e guloseimas. João Ubaldo gostava muito do avô, grande companheiro de infância, amigo e confidente, pessoa culta e leitor apaixonado de Camilo e Guerra Junqueiro. Afiança mesmo que lhe deve muito, “talvez até a carreira de escritor”, sendo que o seu avô considerava que só tinha direito ao estatuto de escritor aquele que escrevia livros que davam “para pôr de pé”.
Por isso, João Ubaldo, certamente em sua memória e vincando a sua legitimidade de (grande) escritor, publicou Viva o Povo Brasileiro, um romance histórico com perto de 700 páginas e seguramente a sua melhor e mais conhecida obra literária, considerada já um clássico da literatura brasileira contemporânea, lançada em 1984 e que já vendeu pelo menos 120 mil volumes.
A narrativa percorre quatro séculos da história do Brasil. Nas suas imensas páginas, vemos desde a chegada dos holandeses à Bahia, no século XVII, até os anos 70 do século XX, representados ficcionalmente.
Destinado a privilegiar os episódios que, ao longo dos séculos, vieram consolidando a famosa Irmandade do Povo Brasileiro (invasão holandesa, Independência, Farrapos, Guerra do Paraguai, Abolição, República, Canudos), a cronologia vai de 1647 a 1977.
A construção da identidade é tema central em Viva o Povo Brasileiro.
Grande parte da história da obra, passa-se em Itaparica, terra natal do escritor. Ubaldo, que costuma citar moradores da ilha nas suas crónicas, fala, no livro, sobre a construção da identidade do povo brasileiro. É na ilha que nasce a heroína Maria da Fé, que desafia o poder dominante para fazer parte, ao lado de outras mulheres e homens, da Irmandade do Povo Brasileiro.
É considerada uma das mais importantes obras da literatura brasileira. Apresenta histórias inspiradas nas raízes do povo brasileiro, tendo como personagens negros e índios, portugueses e holandeses. Porém o livro não trata de uma exaltação à história brasileira e sim uma recontagem crítico-satírica da mesma, denunciando a devassidão presente no processo de formação do povo brasileiro.
O livro é um pouco a saga de um povo em busca de sua identidade e afirmação. É em Viva o Povo Brasileiro que João Ubaldo Ribeiro reforça a sua obra como uma das mais significativas e actuantes, do ponto de vista estilístico e político, da Literatura Contemporânea Brasileira.
A linguagem de João Ubaldo é sempre bem-humorada, envolvente, surpreendente. O autor descreve com habilidade os sentimentos e motivações de personagens tão díspares quanto os holandeses exploradores do século XVI, índios canibais, escravos de engenho, poderosos oligarcas, religiosos, funcionários públicos e políticos, entre outros. São dezenas de personagens, numa história fascinante e bem contada, que anda junto e é coerente com a História do Brasil, inclusive nas suas incoerências e injustiças.

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