quarta-feira, 21 de julho de 2010

A DITADURA DA IGREJA


A torpe expulsão do Padre Peixoto Lopes da paróquia de Fafe ultrapassa tudo o que o comum do mortais pode imaginar. É monstruosa, cruel, humilhante, indigna de uma Igreja que prega a bondade mas actua com os métodos mais pérfidos. Uma autêntica ditadura, sem direito a contraditório, ou a ouvir os fiéis, para quem se diz dirigir...
Nem Maquiavel se atreveria a tamanho cinismo, nem Kafka engendraria tão desconcertante absurdo.
Partamos do princípio: pode o Arcebispo de Braga fazer o que fez com o Padre Lopes? Pode. Tem legitimidade para isso. Deveria fazê-lo da forma enviesada e aldrabona como o fez? Claro que não.Estamos em presença de uma flagrante injustiça e de um processo humilhante para um homem que nos últimos 25 anos deu o melhor de si pela Igreja fafense, nos seus vários domínios? Absolutamente.
O Arcebispo de Braga usou de diabólica artimanha para afastar o Padre Lopes da paróquia da cidade, a mais importamte do concelho e onde este realizou um trabalho notável, a nível eclesial e a nível das infraestruturas e dos equipamentos, e que foi coroado com a construção da Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em S. Jorge, de que o Padre Lopes foi há um ano impiedosamente desapossado.
Lembremos que o Padre Lopes é um sacerdote moderno, culto e de inegável sociabilidade. É de recordar o seu apego às referenciais instituições sociais e humanitárias da cidade, sendo capelão dos Bombeiros Voluntários, assistente espiritual do Grupo Nun'Álvares, companheiro do Rotary Club de Fafe e responsável da Santa Casa da Misericórdia.
De igual forma, se releva e sublinha a sua participação activa na vida cultural local, como outro clérigo fafense não há. Não é raro vê-lo a associar-se ao lançamento de uma obra literária (ele próprio é um apreciado poeta, com dois livros publicados pela Labirinto), à abertura de uma exposição de artes plásticas ou a um espectáculo musical ou teatral.É este o pároco - um homem bom, cordato, dinâmico, amigo de jovens e menos jovens, empreendedor - que o Arcebispo de Braga vai expatriar da paróquia de Fafe.
E porquê? Aqui é que bate o ponto. Ninguém sabe exactamente as razões, se é que alguma razão existe para tão inqualificável decisão. Sabe-se, isso sim, que há um ano atrás o Arcebispo de Braga decidiu arbitrariamente dividir a paróquia em duas e nomear o arcipreste para a chamada "zona sul" de Fafe, o que terá feito à revelia das leis canónicas e atropelando, pelo menos, o bom senso e o respeito devido ao Padre Lopes, que no último quarto de século se devotou de alma e coração à paróquia da cidade.
Tudo terá começado nessa altura, da forma mais indecorosa e nada cristã. Assim, é de entender que o relacionamento entre os dois párocos não tenha sido o mais cordial. Porque o que torto nasce...
O primeiro argumento que veio a público para justificar a expulsão do Padre Lopes foi o pretenso "relacionamento difícil" entre os dois clérigos. Assim, o Arcebispo de Braga decidia cortar o mal pela raíz, afastando, salomonicamente, ambos da paróquia, que continua numa só. Pelo menos publicamente, não consta que exista a paróquia de Fafe-norte e a paróquia de Fafe-sul...
Ou seja, o Arcebispo de Braga provocou uma situação de instabilidade, de afrontamento directo ao Padre Peixoto Lopes, criou as condições para o conflito e vem agora, como virgem ofendida, sancionar este pela situação que ele, Arcebispo, deliberadamene fomentou.Só por absurdo se pode aceitar tamanho exercício de puro maquiavelismo!...
Naturalmente, seguiram-se as compreensíveis reacções populares de ira, indignação e destempero que têm povoado por estes dias a comunicação social (e que, em boa verdade, deveriam ter sido vigorosamente empreendidas em outras ocasiões em que a população fafense perdeu serviços importantes, como a maternidade, a PSP, a EDP, as valências hospitalares, etc).
Agora, a argumentação do Arcebispo de Braga é já outra (mudou em meia dúzia de dias), dada a inconsistência da primeira.Agora, o que se alega é a "necessidade de fazer rotatividade dos padres".Tretas, claramente, de uma justificação à posteriori, para cobrir uma situação que descambou para níveis insuspentados.
O que cabe perguntar, por exemplo, é o seguinte: porque é que apenas ao fim de 25 anos é que a "rotatividade" abrange o Padre Lopes? Que critérios presidem à propalada "rotatividade"? E porque é que há outros párocos que estão há mais tempo nas paróquias, mesmo no arciprestado de Fafe, e nelas continuam?Ou a "rotatividade" é só para justificar a saída do Padre Lopes (e, por conveniente arrastamento, do Padre José Manuel Faria)?
Mais: e o Padre Lopes? Como é possível que o responsável máximo da Igreja diocesana provoque tanto sofrimento ao seu servidor? Que desumanidade de trato!... Que sentimentos, que sensibilidade, que coração tem o Arcebispo de Braga? Como é possível tratar tão desapiedadamente, tão sadicamente, um pároco da Igreja bracarense, sobre quem só se diz bem e que o seu povo ama, como se tem visto pelas televisões e lido nos jornais (o que não acontece ao seu Arcebispo)?!...Que religião é esta? Ou isto é que é a religião católica, apostólica, romana? Uma religião que prega a tolerância, o amor ao próximo e que esfaqueia, pelas costas, até ao sangue, um padre que a maioria dos fafenses, católicos ou não, admiram, veneram e respeitam?...
É bem certo que a Igreja é um sistema totalitário, à boa maneira estalinista do "quero, posso e mando", como - mais uma vez - acaba de se demonstrar!...A hierarquia católica enche a boca de "povo de Deus", de "fiéis", mas quando o "povo de Deus" quer ter uma palavra sobre os seus destinos, apelando ao diálogo e à participação na vida da Igreja, a arcaica "nomenklatura" (que não tem a ver com idades, mas com ideologias e sistemas...) responde que tudo está decidido, que não há volta atrás, os "sábios" decidiram, está decidido. Arquivem-se os protestos. Arquivem-se as queixas. Arquivem-se as revoltas e os abaixo-assinados. O "povo de Deus" que se mantenha obediente e obrigado, fiel e resignado. Acomodado. Que a democracia não é para aqui chamada...
E depois, admiram-se que os templos católicos se esvaziem, que os jovens abandonem a prática religiosa, que a sociedade se laicize cada vez mais, que as vocações escasseiem, que outras igrejas e outros cultos floresçam como cogumelos, um pouco por todo o lado!...

11 comentários:

josé disse...

Meu amigo, boa noite.
Cada "macaco" no seu galho. Se a Igreja se mete na politica "aqui d'el rei" . Se os politicos se metem com a Igreja têm toda a legitimidade(!?). O Padre Lopes trabalhou bem na paróquia? parabéns. Os padres prometem no dia da sua ordenação obediência ao seu bispo... Como o Padre Lopes não é padre diocesano talvez tenha "algum defeito de fabrico". Deve faltar-lhe "qualquer coisa"... A Igreja continua... Não são estas "tormentas" que a deitam por terra. Há mais de dois mil anos que ela vive. Agora...não queiramos ser juizes em causas que não percebemos nada ( mas mesmo nada). O Padre Lopes vai dar conta que este não foi o melhor caminho e...certamente há rzaões que nós desconhecemos. Deixemos assentar o pó e se TIVERMOS FÉ... REZEMOS PELA IGREJA QUE SENDO SANTA É COMPOSTA POR HOMENS E MULHERES PECADORES.

Ana Martins disse...

Boa noite Dr. Coimbra,
a acreditar na veracidade das notícias, o Arcebispo de Braga não tem coração, assim como já todos sabemos que a rotatividade não é para todos e que depende única e exclusivamente da vontade do Sr. Arcebispo.

O povo promete continuar e tem toda a legitimidade para isso, o que fizeram com o Padre Lopes, simplesmente não se faz, já existe um elo de ligação muito forte entre o Pároco e os seus fieis. O Arcebispo de Braga não sabe o que isso é, rege-se apenas pelos poderes que lhe foram confiados e seguramente usa-os muito mal.

Atenciosamente,
Ana Martins

Anónimo disse...

Caro Artur Coimbra,

O mote do tema não me pode deixar passar indiferente. É uma injustiça o que estão a fazer ao Padre Peixoto Lopes.
Apenas quero realçar que o Padre Peixoto Lopes está a ser vítima das artimanhas do Padre Faria. O historial do Faria não é do melhor, e culpa têm aqueles que sempre colaboraram com ele, procurem saber!
E mais não digo porque posso ser vítima do degredo.
Fala quem sabe e como diz o nosso povo “para bom entendedor meia palavra basta”.

Até breve!

Miguel disse...

Os erros no artigo são tantos que nem vale a pena referi-los. Desculpa o facto da ignorância sobre o assunto, e aquela é sempre atrevida.
Mas não posso deixar de perguntar pela dita ditadura: o que fez o PS a propósito de Fátima Felgueiras, tão amada pelo Povo? da qual se poderiam também tecer os mais rasgados elogios, como aqui são ditos do P.e Lopes. O que fez o PSD com Valentim Loureiro, adorado pelo povo de Gondomar? Ditaduras?!
Certamente que me condenarão ao fogo por estar sequer a colocar na mesma prateleira Fátima Felgueiras, Valentim Loureiro e Pe Lopes. Sendo este entendido como incomparável com aqueles por ser impoluto. Pois, o problema é mesmo esse é que está na mesma prateleira por alguma razão... Fátima Felgueiras sempre se disse inocente e pura, o mesmo o disse Valentim Loureiro... Ao que tenho lido também o Pe Lopes apregoa a sua virtuosidade...

Mas já há quem abriu os olhos:

Povo desiste de lutar por pároco (Correio da Manhã)
Por:Secundino Cunha

Uma centena de mulheres assistiu ontem à missa, em Fafe, envergando vestes negras, em sinal de luto pela saída anunciada da paróquia do padre Peixoto Lopes. Esta foi, ao que tudo indica, a última acção de protesto contra a decisão do arcebispo de Braga, uma vez que alguns dos líderes da revolta estão a mudar de opinião.

É o caso do empresário Álvaro Mendes, que chegou a dizer publicamente que se o padre Lopes saísse dava "duas tapas" no prelado e que agora assegura que "a razão está toda do lado do senhor arcebispo".

"Ele recebeu-me. Foi tudo menos arrogante. Explicou-me tudo com rigor e, sem entrar em pormenores, posso dizer-lhe que estava enganado e que me arrependo do que disse na manifestação", afirmou Álvaro Mendes ao CM. O empresário não quis adiantar as razões que levaram D. Jorge Ortiga a afastar da paróquia de Fafe o padre Peixoto Lopes, mas assegurou que "teve razões muito fortes para o fazer".

José Peixoto Lopes, que continua a dizer que a decisão do arcebispo "foi injusta e cruel", vai abandonar a paróquia em finais de Agosto, sendo substituído pelo padre João Fernando Araújo, actual pároco de S. Torcato, Guimarães.

ARTUR COIMBRA disse...

Peço desculpa ao Miguel, que não faço ideia quem seja, nem o que o move, mas, pelo que tenho visto e lido, e tenho-o feito atentamente, não vislumbro onde estejam os alegados erros da minha análise.
Os argumentos do Arcebispo de Braga para a expulsão do Padre Lopes não têm, a meu ver e até agora, pelo que se conhece, a mínima pertinência. A situação de conflitualidade entre os dois párocos que estavam em Fafe foi causada para justificar o afastamento do clérigo que há 25 anos estava na paróquia da cidade. A alegada "rotatividade" só se aplicou ao Padre Lopes. O Padre Lopes pode ter todos os defeitos (e quem os não tem?), mas a sua acção na paróquia da cidade, e mesmo social e culturalmente, não deixam quaisquer dúvidas. Impõem-se pela sua eloquência própria.
Peço desculpa, mas não me venha com exemplos de políticos corruptos, que não têm qualçquer relevância para o caso.
Que a Igreja é uma ditadura, um exercício do "quero, posso e mando", que não dialoga nem ouve minimamente os fiéis? Tem alguma dúvida? Algum dia a Igreja fez alguma consulta ao adorado e aclamado "povo de Deus", para o que quer que fosse?!...
É nesse setido que usei a expressão "ditadura da Igreja", que a mim não me afecta minimamente, é claro. Neste caso, sou apenas observador e um grande amigo e admirador do Padre Peixoto Lopes, nada mais.
Se há algo mais para além do que tem vindo a público sobre este caso? Ouço dizer que sim. Se os párocos do arciprestado e a "nomenklatura diocesana" não morrem de amores pelo padre Lopes? Também parece certo.
É claro que já há recuos, apelos à calma e à moderação. É normal. A razão começa a funcionar, em detrimento do coração.
Contudo, tal não apaga a forma desumana como foi expulso da paróquia de Fafe o Padre Lopes.

Anónimo disse...

Já chega de falar sobre o Padre Lopes.
É preciso falar noutros assuntos que nos preocupam mais.
Fafe precisa de voltar à normalidade.

ARTUR COIMBRA disse...

Inteiramente de acordo...

Anónimo disse...

concordo plenamente com o que disse

Jesus Martinho disse...

A Igreja de Fafe pode viver sem o padre Lopes? claro que pode!... mas não será a mesma coisa.
Gostaria de ver em praça pública os "suspeitos",ditos verdadeiros motivos para o "afastamento de um pároco há um quarto de século em Fafe.
Não acredito que isso venha a acontecer até porque a Igreja vive de "mistérios" desde a sua fundação.
O "mistério" do "exterminio" do Padre Lopes continuará a ser mais um "mistério".
E assim continuarão os fiéis, com outros protagonistas, a seguir os "mistérios".
Além de mais somos um País de brandos costumes... "isto é mais Padre menos Padre igual a continuar numa espécie de submissão soberana cujo fim ainda não consigo vislumbrar... e não é só na Igreja...!

Anónimo disse...

Permitam-me somente dizer o seguinte.

Em primeiro lugar, sabemos que a vocação é chamamento de Deus. Depois de verdadeiramente discernida opta-se por uma entrega total à Igreja.
Ora para quem promete publicamente a Deus e aos irmãos que está disposto a servir a Deus seja lá no sítio onde for (porque o padre é padre para o mundo e não para uma paróquia exclusiva) então não sei porque razão, da parte dos irmãos para tão grande alarido. Os cristãos pelos vistos tornaram-se em jornalistas à procura do primeiro acontecimento.... É estranho serem os baptizados a criarem tal polémica. Afinal queremos Deus, ou queremos padre? O padre está para servir somente. Agora apresentar razões logisticas e quase de empresa de contrução que o padre fez para valorar a sua permanência acho que é razão bastante infantil. É nos momentos de prova que mostramos a nossa confiança... Então deixem que o Sr. Bispo haja como responsável. Se o fez teve razões e se teve razões creio que todos têm que colocar a mão na consciencia. Ou serão mais santos que os santos...... deixo para reflexão.

Anónimo disse...

Boa noite...eu sou católica praticante, natural de Antime. Já tive no entanto o previlégio de contactar muitas vezes com o Padre Peixoto Lopes(pessoa que tenho em elevada consideração, como ser humano e como Pároco)e na minha opinião é no mínimo vergonhosa, a atitude tomada pela diocese de Braga no que respeita à "transferência" do Padre Lopes para a paróquia de São Torcato.
Alegadamente o motivo é a rotatividade necessária para o bom funcionamento das paróquias...ora, é estranho que essa necessidade (de rotatividade) só se tenha verificado após 25 anos de permanência deste padre na paróquia de Santa Eulália de Fafe.
Durante estes últimos dias (como católica), tenho aguardado que o Senhor Arcebispo Primaz D. Jorge Ortiga, venha publicamente explicar aos seus irmãos na fé quais as razões que levaram a tão polémica atitude...até agora eu continuo sem conseguir perceber tal acto. Considero que esta é uma atitude prepotente e até insultuosa por parte da hierarquia eclesiástica! Pelos vistos os fieis servem para pagar os donativos e as missas, mas quando manifestam a sua vontade e clamam por justiça aí a hierarquia da Igreja já não quer saber deles! Afinal se o Povo de Deus precisa de orientadores...também os orientadores precisam do Povo de Deus! Ou estarei errada?!
E outra coisa...como será possível que a Igreja que tanto apela para que as pessoas vivam em concórdia e harmonia provoque toda esta onda de mau estar?!