sexta-feira, 9 de julho de 2010

NOSSA SENHORA DE ANTIME - A ROMARIA DE TODOS OS FAFENSES


A romaria em honra de Nossa Senhora de Antime, também designada da Misericórdia ou do Sol, assume-se como a maior e mais conhecida das festividades locais, coincidindo nos nossos dias com as Grandes Festas do Concelho, no segundo fim de semana de Julho.
Este ano de 2010, têm lugar entre os dias 9 e 11 do mês em curso, com um programa que pode ser visto no sítio da autarquia, entre outros espaços internáuticos.
Estudiosos locais têm ligado a importante festa a um ”culto solar ou ritual de fecundidade”. Nesse sentido, a procissão seria a actualização de um ritual muito antigo praticado pelos rapazes casadoiros, em que o transporte do pesado andor funcionaria como a verdadeira prova pública da virilidade ou masculinidade dos jovens, que teriam nesse acto a legitimação para o futuro casamento.
As origens do culto são certamente remotas, perdendo-se na voragem dos tempos. Com segurança e documentalmente, sabe-se que as festas já se realizavam em 1736, portanto na primeira metade do século XVIII. Onze anos depois, em 1747, respondendo a um inquérito ordenado pelas autoridades nacionais, o pároco de Antime afirmava não saber “qual fosse a origem desta devoção”, o que pressupõe fosse muito antiga, vinda porventura da Idade Média.
A primeira referência à festividade surge em 1736, na memória intitulada Monografia do Concelho de Fafe, do pároco de Santa Eulália de Fafe, João de Sousa Homem. Referindo-se às freguesias que então integravam o concelho de Monte Longo, o pároco escrevia sobre Antime: A Reitoria de Nossa Senhora de Antime ou Senhora do Sol ou da Misericórdia porque com ela obra muitos milagres dando Sol ou chuva nas faltas destes. Festeja-se esta Senhora nos segundos domingos de Julho e daí vem em procissão a esta freguesia distante um quarto de légua sendo das procissões mais solenes e populosas desta Província. É a imagem desta Senhora de pedra fina: faz peso de dezasseis arrobas a quem a traz.
Onze anos depois, o pároco de Antime, escrevia: Na segunda dominga de Julho se faz procissão com esta Senhora (da Misericórdia), e vai a Santa Eulália Antiga de Fafe, e concorre a ela muita gente dos lugares circunvizinhos, e não se sabe qual fosse a origem desta devoção .
Já no século XIX, aparecem-nos sensivelmente as mesmas referências à romaria de Nossa senhora de Antime, nas Memórias do Cárcere (1862), de Camilo Castelo Branco e no Dicionário Corográfico, de Pinho Leal (1874). Escreve Camilo, como testemunho da sua passagem por esta terra em 1860, quando se encontrava fugido à Justiça: A Senhora de Antime é de pedra, e pesa com a charola vinte e quatro arrobas. Os mais possantes moços da freguesia pegam ao banzo do andor. (...) Tirem disto a limpeza de consciência e religiosidade daqueles sujeitos, que ali vão dar testemunho de seu fervor, com a Senhora de pedra aos ombros.
Já no século XX, o jornalista e professor Paulino da Cunha afirmava no Almanaque de Fafe (1909) que a festa da Senhora d’Antime é a festa de Fafe por excellencia. Nesse dia, todas as famílias, não excluindo as menos abastadas, vestem um fato novo e comem o anho da praxe. O anho assado é, com efeito, a iguaria tradicional das Festas do Concelho, enquanto a vitela assada é o prato mais servido nas Feiras Francas de Maio. A acompanhar, o vinho verde da região e o delicioso pão-de-ló e cavacas de Fornelos e de Arões.
E O Desforço de 18 de Julho de 1918 informa que a procissão da senhora de Antime se vinha realizando há uns 600 anos. Verdade?
Associada ao culto, como sempre acontece, está uma conhecida lenda. Conta a tradição que uma imagem da Virgem teria aparecido no Monte de S. Jorge, em local disputado pelas duas freguesias limítrofes, Fafe e Antime. Após longa animosidade, as populações das duas localidades chegaram a um acordo: a imagem de Nossa Senhora de Antime ficaria todo o ano na Igreja de Antime mas, no dia da sua festa, os homens de Antime viriam trazê-la ao limite da paróquia, ao romper da alva. Aí, os de Fafe a levariam para a sua Vila, onde a festejariam até ao pôr-do-sol, altura em que a pesadíssima imagem voltaria à sua residência habitual.
Todos os anos, no segundo domingo de Julho, o ritual se repete. O ritual da fé imensa, da devoção incontida, da emoção que toma os corações de milhares e milhares de romeiros que serpenteiam as estradas e ruas de Antime para Fafe, sob a inclemência do sol escaldante. Muitos vão cumprir promessas feitas em momentos de desespero e de perdição, esgotados outros meios humanos ou científicos, normalmente relacionados com doenças ou “apertos” na vida individual ou familiar. Outros vão ”porque gostam” de ir na procissão, por fé e sentido de espiritualidade.
Ao princípio da manhã, é celebrada missa em honra de Nossa Senhora da Misericórdia, na Igreja Paroquial de Antime. O povo vai-se juntando, abarrotando o templo, o adro e as cercanias. Os populares vêm de todo o lado, das freguesias circunvizinhas, da cidade, de outros lugares da região e do país.
A procissão, pela sua imponência e sentido de religiosidade, impressiona qualquer pessoa que a ela assista. São milhares de pessoas que descem, muitas delas descalças, algumas com crianças ao colo, a ribanceira de acesso à Ponte de S. José, na fronteira entre as freguesias de Fafe e Antime. Junto à ponte, dá-se um dos momentos mais emocionantes da procissão, que fica na memória de quem a ele tem o privilégio de assistir. É o encontro amistoso da imagem de Nossa Senhora de Antime e da imagem de Nossa Senhora das Dores, vinda de Fafe, com as respectivas “comitivas”. O momento alto acontece quando as imagens ficam frente a frente e fazem uma pequena vénia uma à outra, em sinal de saudação. São os pegadores dianteiros dos andores que fazem uma ligeira genuflexão para que a parte da frente fique a nível mais baixo que a de trás. O momento, de emoção, é saudado com palmas e “vivas” e o estralejar de foguetório, de alegria pela visita de uma imagem extremamente querida às gentes fafenses.
O cumprimento das duas imagens, no limite das freguesias, é a afirmação de um gesto protocolar de recepção e boas-vindas por parte de Fafe à sua convidada de Antime. A partir daí a Senhora é de Fafe. Ainda que por algumas horas.
A procissão prossegue, entremeada de cânticos e rezas, com o calor cada vez mais forte, o sol cada vez mais escaldante. Perto do meio-dia, chega à Câmara Municipal, onde se regista o segundo grande momento do seu percurso. A imagem posta-se diante dos Paços do Concelho, para saudação às autoridades municipais. Das varandas do edifício, onde se encontra a vereação, chovem pétalas multicolores, enquanto centenas de pombas são soltas pelos columbófilos locais e no ar estrondeiam dúzias de foguetes. Milhares de pessoas concentram-se na Avenida 5 de Outubro e nas cercanias, tornando o momento, inesquecível, de grande tensão emotiva...e festiva.
A procissão continua o seu rumo, passando pela Igreja Matriz e terminando ao princípio da tarde na Igreja Nova de S. José. A Senhora permanece naquele templo até cerca das 18 horas, altura em que, com menos pompa e acompanhamento, regressa a Antime, por um percurso ligeiramente diferente, passando pelo Lombo, onde se realiza uma breve cerimónia religiosa.
Ao final da tarde, cumpridas as promessas, regressa a imagem de Nossa Senhora de Antime ao seu lugar de todo o ano.
No restante dos dias de festa, avulta o habitual programa profano e até pagão. As típicas chancelas das romarias minhotas, com o seu colorido folclore, os seus variados espectáculos musicais, as suas abastadas sessões de fogo de artifício, a habitual serenata, as imperdíveis bandas filarmónicas, que tornam popular a música mais erudita, a sacrossanta marcha luminosa, que arrasta ao centro da cidade incontáveis milhares de curiosos. E também o ruído ensurdecedor dos carrosséis e dos carrinhos de choque, para miúdos e graúdos, e a parafernália das tendas onde se vende de tudo e se perde a alma.
As festas de Antime, da Misericórdia ou do Sol aí estão, mais um ano, para cumprir mais um ciclo de fertilidade, de folguedo, de diversão. Aproveitemo-las da melhor maneira, como espaço mítico de lazer e de descanso, entre as actividades diárias de uma semana que termina e de uma outra que espreita, ansiosamente.

1 comentário:

Anónimo disse...

Parabéns pelo lindo texto sobre as festas da cidade.
Ainda bem que há alguém a escrever sobre o que se passa na nossa terra.
Estas festas são sem dúvida alguma, muito bonitas, sendo a procissão da Sra. de Antime, o momento mais emocionante das mesmas.