terça-feira, 31 de agosto de 2010

SERRAS DE FAFE




Texto: João Pedro Marques e Castro
Fotos: Manuel Meira Correia

Uma cidade não deve apenas ser atendida pelo seu centro, deve ser sempre tida em conta a beleza e magnificência das suas periferias. Tal como o ser humano não funciona sem os seus órgãos vitais, no entanto é complementado pelos restantes tecidos que comporta, Fafe tem nas suas serras um poiso seguro de cultura, valências, importância e significado.
Marcos importantes para os fafenses, aí se passaram e realizaram. Seja o grande rali de Portugal, que arrastava multidões e fazia sonhar as gentes, as várias festas populares nas várias aldeias desse emaranhado rochoso, onde cada palavra, cada terra, cada pedra do chão tem um significado presente, passado e futuro.
A Serra de Fafe leva em si algo de muito puro, em estado bruto, em forma natural. Gente que fez do suor do trabalho, da riqueza e força das suas convicções, o motor para abraçar a adversidade e torna-la oportunidade para singrar e poderem viver com dignidade e aspirarem a dar um digno futuro aos seus filhos. Que a história abarque sempre a força da cidade de Fafe, as nossas Serras sejam o portal de memória e a periferia que abarca e protege as fantásticas gentes da mais bela cidade minhota!

PALHINHAS DOURADAS - POEMA ÀS MULHERES DE TRAVASSÓS

A propósito da festa de Nossa Senhora das Graças, em Travassós, que culminou no domingo, gostaria de aqui partilhar um belíssimo poema de um bom amigo, Álvaro de Oliveira, de Braga, sobre as mulheres de Travassós que teciam (e tecem) a palha, fazendo desse exercício artesanal e rotineiro uma das formas de identidade daquele povo e, no fundo, dos fafenses.
Tem já duas dezenas de anos o texto seguinte, mas mantém a frescura e a autenticidade do que a acaba por ser eterno.
A imagem não é de grande qualidade mas dá uma ideia do que está em causa...


Palhinhas Douradas

(Às mulheres de Travassós)
Fafe

Penduram o olhar ao seio
Têm no rosto a cor do pão
Fitas de palha entre os braços
Palhinhas de mão em mão

Suor em terra correndo
Finas mãos sabor a trigo
Estas palhinhas doiradas
Têm dores de mulher consigo

Nas ruas a dar ao dedo
Em movimento apressado
Lá vão tecendo em segredo
Segredos por todo o lado

Leves palhinhas doiradas
Tantos passos mil enganos
As mulheres de Travassós
Têm nas palhinhas seus anos.


Álvaro de Oliveira
Março de 1990

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

NOSSA SENHORA DAS NEVES: ONDE SE VAI “TIRAR O DIABO”

Neste fim-de-semana, termina o ciclo das principais festas e romarias que, anualmente, animam o concelho nos meses de Verão, coincidindo com os ritmos agrários das colheitas. Referimo-nos às festividades em honra de Nossa Senhora das Neves, na Lagoa (dia principal na sexta-feira) e à Senhora das Graças, em Travassós (sábado e domingo). Sobra o S. Mateus, em Medelo, lá para Setembro. Essa é mesmo a última romaria de cada ano.
A romaria em honra de Nossa Senhora das Neves, no santuário da Lagoa, lugar dividido pelas freguesias de Aboim e Várzea Cova, acaba por ser uma das principais e mais simbólicas romarias do concelho de Fafe e de todo o Minho, no quadro do culto à Virgem Maria. Para alguns, mesmo a primeira. Aqui ficam algyuns dados sobre a mesma.
Todos os anos, na última sexta-feira de Agosto, como manda a tradição, milhares de devotos sobretudo do Norte, sobem à Lagoa, com um único objectivo, para além de rezarem e cumprirem promessas: colocar a imagem de Nª Sª das Neves na cabeça. Crêem assim ficar libertos do mal. O gesto de colocar a pequena “santa” na cabeça funciona como exorcismo, ou na linguagem popular dos que o fazem, para “tirar o Diabo”.
As primeiras referências ao culto de Nossa Senhora das Neves aparecem no início do século XVIII (1706), na Corografia Portuguesa, do Padre Carvalho da Costa.
Seis anos após esta descrição, em 1712, Agostinho de Santa Maria publica Santuário Mariano, e História das Imagens Milagrosas de Nossa Senhora, em que fala da Senhora das Neves da Lagoa. Aí refere que o lugar de “Alagoa” pertence, uma parte, ao concelho de Monte Longo e outra ao de Basto. O Santuário situava-se “na parte que pertence a Monte Longo, (...) em um terreno largo, e espaçoso, (...) sítio muito áspero, e escabroso; porque é uma terra de muitas penedias, e matos muito fechados, e espessos, e muito alta e ingreme de subir. No inverno é este sítio muito frio, e desabrido, pela muita neve que ali cai”.
O cronista aborda a lenda que deu origem ao culto e que foi transmitida, de geração em geração, até aos nossos dias. Segundo a tradição, a imagem apareceu a uma inocente pastorinha que guardava algumas ovelhas no monte da Lagoa, em dia de muita neve, sobre uma árvore a que chamavam “esqualeiro” (escalheiro). Rejubilante com o achado tesouro, a pastorinha tomou a imagem da Senhora e meteu-a no cabaz em que costumava recolher o pão e as maçarocas. “Com esta rica jóia se recolheu a casa muito alegre, e chamava à Senhora a sua Santinha, e lhe ia fazendo muita festa”. Ainda segundo aquele autor, a jovem pastora “naquela noite sonhou que a Senhora lhe dizia, que no lugar em que a descobrira, se lhe devia fazer uma casa em que fosse venerada”. Quando, ao acordar, foi buscar a imagem ao cesto das maçarocas e não a encontrou, inquietou-se.”Toda sentida e lacrimosa”, correu para o monte onde a tinha encontrado e foi a própria Mãe de Deus que a consolou, dizendo-lhe: “Não chores, que cedo me verás todos os dias”.
Ajuntam outros, acrescentando a lenda, que os pastores colocaram a imagem num carro de bois que, depois de uma longa caminhada, parou no largo onde depois se ergueu o Santuário.
No século XVIII, já temos assim testemunho de que o culto à Senhora das Neves estava espalhado pela região, pois “as maravilhas, que obra Deus por intercessão de Sua Santíssima Mãe em este Santuário, não têm número”, sendo assim este muito frequentado por grande número de romeiros de Braga e Guimarães.
Para o Padre Coelho de Barros, anterior capelão do Santuário, não há exorcismos, nem possessões diabólicas no local, antes manifestação de fé mariana. Seja por que razão for, para “tirar o Diabo”, como reza a tradição, ou por pura expressão de Fé, o que é certo é que a romaria em honra de Nossa Senhora das Neves da Lagoa é uma das mais concorridas do Minho, concitando a presença de milhares e milhares de romeiros das mais variadas partes do norte do País, enchendo por completo o amplo recinto do Santuário e colorindo a montanha com larguíssimas centenas de automóveis e autocarros.
O Santuário de Nossa Senhora das Neves, que comporta ainda imagens da família de Nossa Senhora (S. Joaquim, Santa Ana, S. José, Menino Jesus, Zacarias, Santa Isabel e S. João Baptista), é um dos motivos mais importantes do concelho de Fafe, ao nível do turismo religioso e cultural, que importa conhecer e valorizar.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

CULMINA ESTE SÁBADO A ANIMAÇÃO DE VERÃO EM FAFE

O grupo musical A. M. Show actua no próximo sábado, 28 de Agosto, na Arcada, a partir das 22h00, naquele que é o último espectáculo da Animação de Verão promovida anualmente pela divisão de cultura e desporto da Câmara Municipal.
Como se sabe, nos meses de Julho e Agosto, a programação do Teatro-Cinema é substituída por espectáculos ao ar livre, no coração da cidade, numa iniciativa que tem mais de duas dezenas de anos e se destina a proporcionar momentos de lazer aos residentes e emigrantes que visitam o centro urbano, em grande número, nos meses maiores de Verão. É uma animação normalmente centrada nos grupos “da casa”, a quem é proporcionada a possibilidade de se apresentarem na cidade, o que habitualmente não acontece ao longo do ano. Também têm esse direito…
O grupo A. M. Show vem da freguesia de Silvares S. Martinho e é constituído por uma dezena de elementos, que espraiam a sua música pelos mais variados ritmos e melodias, com músicas do agrado do público, animando por sistema os locais onde actuam.
Relembre-se que ao longo do mês e meio que durou o programa passaram pela Arcada, em espectáculos sempre com imenso público (este ano, nem sequer choveu nos sábados de Verão, o que aconteceu em anos anteriores…) o grupo Onda Curta, a comédia “A Saga de Zacarias contra a Morte e o Diabo”, pelo Centro de Criatividade, o XXVI Festival Folclórico Internacional organizado pelo Rancho Folclórico da Casa do Povo de Arões, a fadista Susana Cardoso, o duo Água Viva, no âmbito do XIII Encontro de Emigrantes Fafenses, o Grupo de Cantares do Centro Cultural Social e Desportivo dos Trabalhadores da CM Fafe e o Grupo de Concertinas de Seidões, na noite do passado sábado.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

DESPORTO DE ALTO NÍVEL ANIMA FAFE ESTE FIM DE SEMANA

No final da presente semana, o desporto de alto nível regressa à cidade de Fafe, fruto de um protocolo estabelecido entre a autarquia e a Kebrostress, com o apoio da Naturfafe e de outras entidades locais. O palco é o Pavilhão Multiusos de Fafe.
Concretamente, na quinta-feira, dia 26 de Agosto, pelas 21h30, tem lugar o jogo entre as selecções nacionais de basquetebol de Portugal e da Geórgia, a contar para a fase de apuramento para o campeonato da Europa da modalidade que se disputa em 2011. Um desafio que deve suscitar o maior entusiasmo e a presença dos apaixonados da modalidade e dos desportistas em geral.
Nos dias seguintes, 27 e 28 de Agosto, realiza-se pela primeira vez, também no Multiusos, o Torneio de Futsal Cidade de Fafe, com a presença de quatro das equipas nacionais mais representativas da modalidade: o SL Benfica, o Modicus, a Fundação Jorge Antunes e o Boavista FC.
No dia 27, pelas 20h30, o Modicus defronta a Fundação Jorge Antunes, enquanto pelas 22h15 o SL Benfica mede forças com o Boavista FC.
Na tarde de sábado, dia 28, pelas 15h30, realiza-se o jogo entre os vencidos para atribuição do 3º e 4º lugares, enquanto a final começa pelas 17h30.
Será também a oportunidade para os apreciadores do futsal e os desportistas em geral verem na nossa cidade o futsal de alto nível nacional.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

NOITE FATAL DE UM COMUNISTA



Adicionar imagem
Como estava previsto, foi lançado na Biblioteca Municipal de Fafe, no fim-de-semana, o livro de João Freitas, A Noite Fatal de um Comunista. Sobre a obra e o “jovem autor”, falaram o vereador da Cultura, Pompeu Martins, o editor da Labirinto, João Artur Pinto e o próprio autor.
Perante algumas dezenas de amigos e familiares, o que é de realçar em pleno Agosto, a biografia romanceada do barbeiro comunista, Joaquim Lemos de Oliveira, o mártir maior de Fafe nos tempos do fascismo, foi circunstanciada e competentemente apresentada, como é seu timbre, pelo também escritor Carlos Afonso, um fafense adoptivo que ama esta terra.
Para o blogue Sala de Visitas do Minho, resumiu a sua intervenção, que se deixa a seguir.
Em A Noite Fatal de um Comunista vamos ao encontro dos anos 20, 30, 40 e 50 do séc. XX, e onde encontramos referência à Guerra Civil de Espanha, à Segunda Guerra Mundial e, claro está, aos mandos e desmandos do regime salazarista, suportado por uma polícia sem escrúpulos e bufos sem rosto. Igualmente, surge aos nossos olhos um autor rodeado de um sentimentalismo muito vivo que nos conduz para momentos da sua infância, que vão caminhando ao lado de muitos acontecimentos narrados.
A primeira vez que li este livro, fui tropeçando aqui e ali com certos momentos narrativos, contados por um narrador omnisciente, subjectivo, presente e possuidor de um grande coração, que me levaram a parar e a saborear cada instante. Servindo-se de uma linguagem natural, digestiva, clara e desviada de uma adjectivação complicativa, o narrador mostra que todos os seus cinco sentidos estão em riste e operacionais.
Entrando na história do livro, quero dizer-vos que se preparem para conhecerem uma personagem histórica. Assim, vamos encontrar a narrativa biográfica de Joaquim Lemos de Oliveira, um anti-fascista, a quem chamavam o “Repas”, barbeiro de profissão, e que sofreu na pele as garras afiadas do salazarismo.
Tendo como pano de fundo as terras de Antime e os rios Ferro e Vizela, os nossos olhos são dirigidos para o barbeiro Joaquim, um comunista confesso, que acreditava nos seus ideais, centrados na justiça, igualdade e liberdade, mas que esbarrava nos preconceitos políticos da época.
Na sua infância, Joaquim teve uma educação cristã e apenas fez a quarta classe, pois a vida era difícil e era preciso trabalhar. Com treze anos aprendeu o ofício de barbeiro e sempre mostrou interesse pelas conversas dos clientes, principalmente por assuntos mais revolucionários. De vez em quando fazia as suas leituras, sentindo uma certa predilecção por jornais e panfletos comunistas que iam aparecendo, acabando por entrar para a Juventude Comunista em 1922. A partir deste momento, começou a lutar pelo que acreditava, tornando-se um militante activo do Partido Comunista, entretanto ilegalizado. Assim sendo, a PIDE começou a ver nele um alvo a abater.
A partir de dada altura, e sabendo do perigo que ele e a sua família corriam, fez da fuga a sua forma de vida. Foi nestas circunstâncias que se refugiou na casa de um salazarista confesso, o pai do narrador, e que era o regedor de Antime, na altura. É interessante ver o humano deste regedor que, apesar das suas convicções políticas, criticava os excessos do regime.
Com o decorrer das peripécias, magnificamente tecidas, reparamos que a PIDE cada vez apertava mais o cerco ao “Repas”, e este teve de fugir de casa do regedor, provocando uma imensa tristeza na família que o ocultava.
Com um pouco de sorte, e porque o destino assim o definia, o barbeiro lá ia conseguindo esconder-se da polícia, sendo apelidado por estes “A Truta”, por causa da facilidade como lhes escapava.
A capa, assim como no sugestivo título A Noite fatal de um comunista, reflectem o clímax da obra. Eles mostram as circunstâncias da prisão do barbeiro fugitivo, e que irão influenciar o desenrolar da acção.
A partir da altura em que a PIDE apanhou a “Truta”, que lhes fugia há tanto tempo, nunca mais o nosso Joaquim teve sossego, sendo constantemente maltratado pelos seus algozes. As cenas da prisão do “Repas”, assim como a sua morte, são-nos descritas de uma forma magistral, cobertas de um visualismo que nos surpreende.
Ao Joaquim, barbeiro de profissão, tiraram quase tudo, mas nunca lhe conseguiram roubar os seus ideais. Salazar caiu, o regime desfez-se mas, e como o nosso narrador diz de uma forma convincente, as ideias e convicções do Joaquim, o “Repas”, “A Truta”, venceram no dia 25 de Abril de 1974. A ele e a muitos outros que penaram o mesmo sofrimento devemos a nossa liberdade.
Texto: Carlos Afonso
Fotos:
Rui Dario Correia

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

MONUMENTO VAI HOMENAGEAR EMIGRANTES E IMIGRANTES


O executivo fafense lançou há meses um concurso de ideias para a edificação de dois monumentos para enriquecer e embelezar outras tantas rotundas da nossa cidade.
Um deles é dedicado ao “Autarca e Poder Local”, irá ser erigido na rotunda da “Sacor” e é da autoria de Rogério Augusto Almeida Rebelo, natural de Fafe.
O segundo é dedicado ao tema “Migrante – Emigrante/Imigrante”, será implantado na rotunda da Auto-Estrada, frente aos dois centros comerciais que aí existem e é da autoria de Armindo Manuel Tavares Fernandes, um portuense há muitos anos radicado em Fafe.
Pretendemos, desta feita, compreender o significado do monumento gizado por Armindo Fernandes. É a explicação que se segue.
A escultura proposta pretende simbolizar o caminho traçado pelos portugueses, enquanto emigrantes, e pelos estrangeiros, enquanto imigrantes.
Na escultura, distinguem-se quatro elementos indissociáveis, que se complementam para demonstrar essa ideia de “migração”.
O primeiro, em cobre, reproduz a geografia de Portugal, enquanto ponto de partida (ao longo da sua história) e como destino (sobretudo nas duas últimas décadas). A cidade de Fafe, pela sua forte ligação ao “emigrante”, tem a sua localização geográfica assinalada por meio de uma aplicação de granito cinzento.
Para reforçar a ideia de ponto inicial e final de migrações surge o segundo elemento, que simboliza a viagem dos migrantes. Sendo Portugal o ponto de origem e fim das migrações, define-se essa característica através do vértice do elemento que “aponta” para o país, tendo como ponto focal a cidade de Fafe. O elemento acompanha as diversas migrações que ocorreram ao longo da História e “desdobra-se” em quatro braços que terminam no terceiro elemento da escultura, os continentes. Estes simbolizam o fim da viagem dos emigrantes, bem como os pontos de partida de muitos que escolherem Portugal como seu país de acolhimento. Este elemento será construído em aço inoxidável.
O quarto e último elemento representa, estilizadamente, o globo terrestre, através dos seus meridianos e paralelos. Pretende demonstrar de uma forma imediata a abrangência das migrações no mundo inteiro. Este elemento servirá também de suporte a “Portugal” e será também executado em aço inoxidável.
Resta acrescentar que, segundo o autor, o monumento terá 12.00m de largura, 21.00m de comprimento e 14.00 de altura.