sábado, 31 de dezembro de 2011

Ano novo, sem qualquer esperança!

Estamos a apenas algumas horas de mais um novo ano. Como é de tradição, na noite da passagem de ano, comeremos doze passas, beberemos uma taça de champanhe (pelo menos…) e comporemos a nossa maior esperança em 365 dias de mais felicidade, mais saúde, paz e amor entre os homens.
As doze badaladas de cada 31 de Dezembro constituem, invariavelmente, um momento mágico que teimamos em valorizar, esperando que, daí para a frente, como por sortilégio, os defeitos se tornem virtudes e as tristezas se transmutem em alegrias.
Todavia, este ano será diferente. A maioria dos portugueses não deixará de assinalar da melhor forma o “revéillon”, até para não serem vencidos pela depressão, mas os desejos para 2012 não serão imbuídos da esperança e da utopia que normalmente são apanágio da noite mágica de 31 de Dezembro.
Porque todos sabemos que, descidos à realidade, em 1 de Janeiro, o que nos espera é um país no fundo do buraco, atolado na frustração, no desalento e na desânimo, com tudo o que mexe a aumentar de preço, por decisão do governo serviçal da malfadada “tróica”.
É claro que a propaganda oficial nos fala da urgência de olharmos em frente, de vencermos este momento de desilusão, de nos unirmos em torno de um futuro comum, de confiarmos, para ultrapassarmos a crise.
Curiosamente quem nos acena os hinos do optimismo, do valor que temos, das potencialidades para seguirmos adiante, são os mesmos que não são afectados minimamente pelos cortes orçamentais, seja porque não vivem em Portugal, seja porque auferem ordenados majestáticos blindados a qualquer privação.
Não é esse, seguramente, o estado da nação portuguesa em geral.
Por isso, a passagem de ano não deixa de ser um momento paradoxal, em que a esperança que devia ser cede o lugar ao pessimismo que não pode deixar de se impor, a não ser para os lunáticos sem os pés assentes na terra.
Porque ninguém ignora o que nos espera em 2012, seguramente o ano mais cruel das nossas vidas:
A austeridade mais rigorosa, punitiva e paralisadora da actividade colectiva; o rosário de aumentos nos bens essenciais, por via do agravamento das taxas do IVA, da generalidade dos produtos alimentares às taxas moderadoras nos centros de saúde e nos hospitais, da electricidade às telecomunicações, aos combustíveis, às portagens, à restauração e às rendas de casa; o despudorado roubo nos subsídios de férias e de Natal, associado ao corte drástico nos benefícios fiscais; o acréscimo do desemprego para taxas indecorosas; a falência continuada de empresas e de famílias, como nunca se viu; a consagração dos despedimentos a baixo custo e com a máxima facilidade; o desinvestimento criminoso na educação e na saúde, onde se instalou um ministro cuja sensibilidade “social” é para os números e para os cortes; o desaparecimento de freguesias e de municípios, num ataque ao espírito do poder local e da democracia como nunca se viu desde o 25 de Abril; o aprofundamento da perda do poder de compra dos funcionários e da classe média, para níveis inusitados; o empobrecimento geral da população, em especial dos sectores mais vulneráveis; o inapelável e merecido descrédito da classe política e das elites governamentais; o sentimento de injustiça que não para de germinar na sociedade, devidamente “sancionado” pelas mais altas instâncias do Estado; enfim, e para não alongar, a certeza de que estamos a ser governados de fora, por meio dos homens de mão que a maioria dos eleitores escolheu, como se a nossa soberania nacional estivesse reduzida a zero.
Nestas circunstâncias, o que é que vamos festejar na passagem de ano? Que desejos vamos formular? Vamos beber antes para esquecer?
Eu, que não acredito minimamente no que estou a ver, só quero manifestar uma simples ambição para esta noite: que passemos rapidamente para 2013.
O próximo ano não vai deixar as mínimas saudades, pelas razões referidas e por outras tantas que se poderiam juntar.
Neste miserável cenário, soam a refrigério os desejos do director do jornal La Voz de Galicia, Xosé Luis Vilela Conde, um estrangeiro que escreve: “que não se castiguem mais os cidadãos portugueses com o pagamento de dívidas que eles não contraíram” (JN, de hoje).

Que ao menos haja saúde, fraternidade, espírito de resistência e amizade, que são das poucas coisas que a tróica não controla. Por enquanto!...


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